A bola, quando rola, não é para todos…

Tem decorrido aqui no 5dias, e no vias de facto, uma discussão sobre as circulações de sentido entre política e futebol, a transitividade e a traductibilidade do que se lê num lado, para o que se pode querer no outro. É nesse quadro que aparecem dois interessantes posts, do Miguel Serras Pereira (MSP) e do Pedro Viana, já fora-de-jogo, como quer o João Pedro Cachopo, ou pelo menos fora dele no essencial. Pode descansar o Zé Neves no alto da sua sabedoria futebolística, que os ignorantes (falo só de mim) acabam por zurrar para outros campos. Até ver…

Diz o MSP, com aquele brilhantismo na escrita, e o acerto nas fórmulas, a que nos vai habituando, que tenho uma concepção angélica da política. Isto porque defendo « a supressão de uma faculdade de juízo que hierarquiza os motivos e escolhas de cada um e de todos ou abolição do combate ou competição entre propostas rivais ou juízos alternativos ».  Tem o Miguel toda a razão. Entendo o comunismo como a subtracção total da política a qualquer forma de jogo, de disputa entre juízos ou propostas. A política é criação, sempre precária, de espaços de igualdade e não uma espécie de parlamentarismo democrático sem os excessos inigualitários que são, diga-se, da sua essência, e não meros acidentes.

Por isso não têm lugar propostas e juízos que procuram perpetuar a política subordinada aos interesses – que é a que existe – aos diferenciais de poder e às suas traduções hierárquicas. Porque essa subordinação do destino colectivo ao interesse de todos é o real da ilusão demo-parlamentar, e esse real não desaparece sem resistência, sem « Vendeia », sem « Termidor », sem 25 de Novembro. É essa subjectividade reactiva que importa suprimir, em nome da igualdade de todos.

Agora isto não quer dizer a eliminação física dos inimigos políticos (insisto, inimigos e não adversários). Significa criar as condições de possibilidade para uma nova subjectividade radicalmente heterogénea aos desejos, apetites e interesses de que se faz a subjectividade capitalista.

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