Nacionalismo vs Patriotismo

Os termos Nacionalismo e Patriotismo não são sinónimos, embora seja hoje muito frequentemente usados como tal. São termos que têm histórias diferentes, tendo «patriotismo» uma história bastante mais antiga.  Os conceitos têm contexto e história (i.e., uma evolução), logo convém começar pelo conceito com origem mais antiga: Patriotismo.A palavra tem origem no grego patris. Para os gregos antigos a palavra estava associada à identificação com e à devoção a uma língua, tradições e história, ética, lei, e religião comuns. Sócrates acreditava inclusivamente que a prática patriotismo não era algo estanque, mas sempre sujeita a melhoria, embora a sua opinião não fosse partilhada por outros gregos contemporâneos: o seu julgamento foi, em parte, fundado na sua recusa de divindades gregas oficiais. Surgiu portanto muito antes da noção de Estado-nação. Pessoalmente, gosto até mais do neologismo Matriotismo: falamos na terra mãe, em mátria, em matriarca, mas não existe lamentavelmente este equivalente feminino a patriotismo. É uma formulação mais próxima do conceito Hindu, onde a mátria era entendida como a base de consciência cultural. Mesmo no século XVIII, na Europa Ocidental, patriotismo era entendido como a responsabilidade individual perante os outros cidadãos, uma devoção à humanidade e a uma ética de igualdade e caridade perante os mais desfavorecidos e os que faziam parte da comunidade, independentemente do seu perfil cultural ou étnico.Isto é, Patriotismo não estava ligada a uma etnia, a uma localização geográfica, ou a uma organização política autónoma.

O uso, pelo menos original da palavra, é muito distinto do da palavra «nacionalismo», com história relativamente recente. É no século XIX que surge o conceito de Nacionalismo, de nação como entidade política, com direito a um Estado (o Estado-Nação), no qual há condições para que cidadania esteja restrito a um grupo étnico. A Nação como algo a proteger; daí necessitar de um Estado próprio; daí vários nacionalismos terem conduzido à noção de “espaço vital” para a Nação. Se tem algo a proteger, é porque em certa medida tem algo que outras Nações não têm. Embora isto não implique a noção de que uma Nação, a nossa Nação, é superior em alguma medida a outras, ao “outro”, frequentemente os movimentos nacionalistas associam superioridade, quer recorrendo a feitos modernos, como supremacia industrial, quer recorrendo a feitos ou mitos históricos (e.g, no caso no hino nacional Português, o “nobre povo, valente e imortal”, a voz dos “os egrégios avós” que surge da “bruma da memória”). Mesmo Nações sem grande história, caso do povo colonial dos EUA, cedo declarou ter um “manifesto destino”, que lhe outorgava o dever de expansão para territórios pretensamente desocupados, invasão de outros Estados, e domínio geoestratégico sobre uma vasta região. Foram das tendências nacionalistas que mesmo em Estados multi-étnicos, como os EUA ou o Brasil (durante a ditadura militar), surgiu o slogan “ame-o [a Nação] ou deixe-o”, dirigido a cidadãos desses países que não alinhavam na política do Estado-Nação.

Mas fundamentalmente, o conceito de Nacionalismo está em profunda contradição com o conceito de Internacionalismo, ou cooperação e ligação fraterna entre comunidades ou nações (baseadas no facto de nações comungarem a mesma humanidade). discursos políticos do ultra-nacionalista Adolf Hitler, segundo o qual um operário consciente da importância da unidade dos proletários de todo o mundo não poderia ser um bom alemão, pois colocava as relações com operários de outras nações acima da dedicação à Alemanha; como se um operário Alemão internacionalista não estivesse também interessado na melhoria das condições no seu país. Esta contradição manifesta-se hoje, na era da globalização, na acusação de que os imigrantes roubam emprego aos nacionais, como se aqueles não contribuíssem para a produtividade do Estado para o qual emigraram.

Essa contradição não existe com o conceito de Patriotismo. Eu posso afirmar, sem reservas e sem contradição, dizer que sou patriótica e internacionalista. Por um lado, tenho um grande amor ao povo português, à sua cultura diversa, do Algarve a Trás-os-Montes, do Continente às Ilhas, uma ligação visceral à sua história, ressonância com a sua música e literatura, uma identificação com a sua forma de ser (sem estereotipar), e uma ligação familiar e de amizade com Portugueses. Sinto igualmente uma ligação com outras culturas, mas de outra natureza. Sou movido por músicas de outras culturas, pela literatura de outras culturas, em grande medida porque contêm aspectos que são universais, fazem parte de uma entidade mais alargada ao qual também pertenço: a humanidade. Sinto também solidariedade pelas lutas de outros povos, porque partilho ligações objectivos de classe: a paz e a justiça social. Identificar-me como Português de forma alguma significa que considere o nosso país ou povo superior, mas considero – porque considero a diversidade cultural um valor – que Portugal tem direito a existir enquanto entidade autónoma e independente. E no actual contexto de ingerência imperial, considero um dever defender a soberania nacional, pois só assim se poderão defender os interesses e a viabilidade do nosso povo e país. Porque considero que as ingerências da NATO e da UE na política nacional Portuguesa não estão alinhadas com os interesses nacionais, pelo contrário, tendem a prejudicá-los e eventualmente eliminar a existência da nossa soberania nacional.

Atenção: Esta abordagem – um excerto de um post na «Jangada de Pedra » (ler na integra) -  é necessariamente simplista, primeiro pela sua dimensão reduzida, segundo porque não tenho formação em ciências sociais e um conhecimento aprofundado da história dos dois conceitos.]

About André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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9 Responses to Nacionalismo vs Patriotismo

  1. “necessariamente simplista”, mas uma excelente abordagem. Há uma espécie de trauma nalguma esquerda no que toca à sua relação com o patriotismo, e que advém do abuso fascista da simbologia nacional, seja quanto à bandeira, à história, à cultura…

    Mas ao negar a pátria, porque associa o termo à direita ultra, acaba por dar o flanco exactamente aos que abusam do seu significado com intenções ou agenda nacionalista…

    Daí, também eu ser patriota e internacionalista, sem qualquer contradição ou sentimento de culpa.

    A propósito desta temática, curiosa é a relação que a Alemanha teve com a sua selecção “internacional” de futebol neste mundial, onde as bandeiras na janela, nos carros… eram sobretudo de alemães de origens diversas que não da Alemanha. Um case-study.

  2. xatoo says:

    muito bem. Caso a “pátria” esteja em perigo devemos ser todos patriotas, mais que não fosse pq é aqui que tentam morar os nossos filhos – já lá dizia o Botas: “a pátria não se discute, defende-se” – posto isto, para não se tombar na mesma esparrela, resta-nos saber como definir o que é a “Pátria” hoje, territorial e desmaterializadamente falando: 1 os caminhos do país cercados de arame farpado de um lado e outro? 2, os condominios de negócios privados fechados? 3. a herança cultural da nação benfiquista?
    Fora de brincadeiras, obviamente, tendo a concordar com a diabolização da Nato – Acções de guerra e rapina são sempre condenáveis, tanto mais levando em linha de conta a limpeza étnica da brigada mata-mouros que desceu deste o Portucale por aí abaixo no século X limpando uma parte importante da nossa herança cultural árabe e instituindo “a mais velha nação da Europa” (uma criação nacionalista prematura por imposição exterior dos cruzados)
    Comparando com outro caso muito mais recente, temos o caso de outra construção “nacionalista” – aquilo a que Shlomo Sand chama “a Invenção do Povo Judaico”. Passe a diferença no tempo, entre Portugal e Israel os principios de gestação são exactamente os mesmos. Talvez seja por isso que os dirigentes dos dois povos se liguem por décadas por uma inegável solidariedade via Nato/EUA

  3. José says:

    “tenho um grande amor ao povo português, à sua cultura diversa, do Algarve a Trás-os-Montes, do Continente às Ilhas, uma ligação visceral à sua história, ressonância com a sua música e literatura, uma identificação com a sua forma de ser (sem estereotipar), e uma ligação familiar e de amizade com Portugueses”

    Não será isto uma razoável definição de nação?

    As fronteiras que parece querer criar entre os conceitos de pátria e nação surgem demasiado indefinidas, talvez pela necessidade que advém de querer ser internacionalista e do apego que tem pela sua pátria/nação/povo/terra. A tensão entre estes dois pólos, ideologicamente criada, leva-o a escrever este texto em jeito de justificação.

    Gostemos ou não, as fronteiras existem e, quando não existem, nós próprios as criamos. E não me refiro apenas às fronteiras físicas, antes às que desenhamos entre nós e o Outro, o Estrangeiro.

    Podemos (devemos) ser humanistas/internacionalistas, mas dificilmente deixaremos de ser localistas/nacionalistas/patriotas.

  4. João Valente Aguiar says:

    Excelente post André. Mostras como o internacionalismo é compatível com o patriotismo. Ao mesmo tempo, não embarcas no simplismo de reduzir o patriotismo a uma espécie de nacionalismo light, do género ZéNevesiano. O teu texto pode não render prémios nem as palmadinhas nas costas de alguma da intelectualidade (a burguesa, claro está) instalada na academia, mas, e essa é a questão que deve contar, coloca o teu texto no seguimento da linha intelectual e revolucionária definida no Manifesto (vd. a questão de que se os operários não têm pátria, não deixam nunca de se constituir como classe organizada e independente dos interesses da burguesia dentro do espaço nacional), no livrinho do Lénine sobre a auto-determinação das nações e do último capítulo do “Partido com paredes de vidro”.

    Um abraço!

  5. brunopeixe says:

    André,

    Pergunto-me porque é que não submeteste a palavra “nação” ao mesmo exercício etimológico a que submeteste a “pátria”. Será porque, interessado que estás em resgatar a última e condenar a primeira, partes do princípio de que a ancestralidade traz consigo algum acréscimo de validade?
    No meu entender, a etimologia tem utilidade, mas tem limites: não nos revela, pelo menos não totalmente, o sentido de uma palavra, que não está só nas origens remotas, mas também na circulação e na relação com as outras palavras que existem à volta dela num espaço e num tempo.
    Acho que compreendo onde queres chegar:definir um modo de pertença a uma comunidade nacional, que não é exclusivista, nem do ponto de vista etno-racial, nem do ponto de vista cultural. Longe de mim pensar que o nacionalismo do “sangue e da terra” se equivale ao patriotismo de que fala um Hugo Chávez ou um Fidel Castro. Mas este último é algo mais do que as consequência que advêm da proximidade de um habitar.
    Como também cresci aqui por Portugal, fui feito no gostar da sua comida, no habituar-e aos seus hábitos, etc. Também me ressoa, mas ressoa porque o socializar-me neste meio me fez ressoar. Felizmente que cresci num altura em que a relação com a cultura pode ser menos orgânica, porque podemos aceder a muito mais coisas, feitas noutros lado que não aqui: imagina que estava condenado à trampa do fado ou dos ranchos foolclóricos, quando qualquer movimento de uma sinfonia de mahler, qualquer canção dos sonic youth, vale mais do que toda a bosta tradicional lusitana?
    O que não me parece razoável é fazer das consequências dessa proximidade no nasces e no conviver, nesse caldo institucional e cultural nacional em que nos forjámos, fazer dele, dizia a pedra de toque para um momento político essencial. E esse momento político é o da construção de um comunidade ou, usando um léxico de que mais gosto, de uma subjectividade política colectiva.
    Defendes a existência autónoma e independente de Portugal. Muito bem. Essa existência é um facto. A política começa com o questionar do facto em nome da promessa de uma coisa que supera aquilo que é, que supera o facto. Dito de outra maneira: é assim que é? Mas é assim que queremos que seja? No teu caso, como defendes a soberania nacional, o povo e o país, só posso interpretar que seja isso o que queres.
    No meu, prefiro pensar que o Estado-nação, construção histórica recente, como afirmas, não está cá para ficar, e que podemos fazer mais do que escolher entre soberania nacional e oligarquia transnacional (UE).
    A nação diz-me que eu tenho algo em comum com o patrão português que não tenho com o trabalhador chinês. A opção por uma subjectividade política diz-me que esta subjectividade se compõe por uma afinidade, por uma vontade de justiça que não são sobredeterminadas pelo BI, pela língua, pela cultura, raça ou solo.
    Desde o século XIX que a nação tem confiscado a potência comunista. Vamos deixar continuar que assim seja?

    Um abraço,
    bruno

  6. Justiniano says:

    Caríssimos
    Não me referindo ao “Patriotismo”, muitíssimo haveria a pensar e dizer…
    Apenas uma pequena achega ao conceito nação, nacionalismo, sistema nacional, de forma utilitária e aplicada. Como pode um neo-mercantilista, recorrente, incontornável, defender a holística de uma economia de pertença e desenvolvimento (independencia e autonomia) não recorrendo ao conceito nação-estado e prometendo-se internacionalista. A ideia dinamica de nação do sec. XIX não serviu para superar o puro formalismo liberal e animar o Estado de propósitos cuja validade é hoje observada como universal. Que aspiram os Estados emergentes do domínio pós colonial se não a um sistema nacional. Porque se apropriam aqueles dos mecanismos nacionalistas para superar o legado artificial da relação pós colonial.
    Que internaciolismo hoje cultuado dispensa a nação como conceito de animus ou personificação do Estado. Porque será o proteccionismo a síntese do internacionalismo do sec. XX e XXI.
    Porquê esta animada contradição!!??

  7. Orlando Gonçalves says:

    Muito bom este pots, existe de facto uma diferença entre nacionalismo e patriotismo e em parte explicas-te essa diferença. Gostei do que li, e concordo, há muito que penso que ser patriotico não implica não ser internaionalista. Por isso assino por baixo este teu posts.

  8. André Levy says:

    Caro José — Quando cita o minha atracção pelo povo Português estou a referir-me à sua cultura, para o qual quanto muito usaria o termo etnia, embora não creio que “Português” seja uma etnia suficientemente homogénea para assim ser definida, apesar da sua língua comum. Mas não atribuiria o objecto dessa atracção a “nação” pois este termo tem uma conotação política.
    Caro Bruno Peixe — não submeti o termo nação ao mesmo escrutínio porque, 1º, tem paralelismo, embora não sobreposição, com nacionalismo; 2º, porque não me interessava o debate sobre o conceito das unidades ‘nação’, ‘etnia’, ‘povo’, ‘tribo’, etc., mas sim o debate sobre os -ismos (embora obviamente estejam interligados). A ligação histórica a que te referes, esse ‘algo’ com nos identificamos, um ‘algo’ que é mutável e evolve, é o que deve ser salvaguardado, num contexto de imperialismo cultural. Isso não implica que ame todos os aspectos da nossa cultura, nem que abdique de amor mais universais (ou como um comentador referiu ‘humanistas’). Mas há uma identificação mais visceral com a cultura Portuguesa. A título mais pessoal, tendo vivido em dois países e sendo bilingue, sinto essa identificação quando retorno a um país onde predomine uma das minhas línguas maternas, onde a oiço e falo. Quando não tenho essa oportunidade, sinto um vazio, uma saudade. Quando a oportunidade surge, sinto-me refrescado. Esta é uma ilustração, mas é este aspecto de algo visceral a que me refiro com ‘identificação’. Sendo nós animais sociais, acho que este aspecto é ‘natural’.

    A outro nível — Também creio que o desenvolvimento dos imperialismos está a condenar o Estado-Nação, pois este já não serve os interesses do Capital. Na transição do século XIX para o XX, os monopólios associados às grandes potências precisavam do Estado-Nação para se protegerem da competição externa e conquistarem novos mercados. Tal levou à I Guerra Mundial, e mais tarde ao surgimento dos fascismos. O capital monopolista tem optado por uma estratégia a outra escala, em virtude do seu crescimento. Daí, creio, a tendência para criação de blocos ou Super- ou Supra-Estados (Natos, Naftas, Caftas, e União Europeia). É curioso que a nível da UE se queira manter a ilusão de Estado-Nação, insistindo na ideia de Nação Europeia.

  9. Justiniano says:

    Caro André Levy, há aqui uma impertinencia e um erro ” Na transição do século XIX para o XX, os monopólios associados às grandes potências precisavam do Estado-Nação para se protegerem da competição externa e conquistarem novos mercados.”, o paradigma era a procura pela industrialização e desenvolvimento tecno nacionalista, para as potencias não coloniais e não industrializadas, (substituição de importações, autonomia e independencia no acesso a matérias primas) ou seja o percurso que descreve é o percurso para as não grandes potencias…

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