Bem-vindos à chantagem do real…

Lembro-me, há muitos anos, de ler um texto do António Guerreiro, no Expresso, creio, mas não juro, que se tratava de um daqueles balanços em que se escolhe os livros do ano. O António chamava a atenção para o facto de que quase todas as polémicas à volta da crítica, da sua função nos jornais e na sociedade, acabarem por envolver o Eduardo Prado Coelho.

Parece que, na Blogosfera de esquerda, o Daniel Oliveira, de modo semelhante, acaba por ser convocado para todas, ou quase todas, as polémicas, quando não é ele que as convoca. Mérito do Daniel, que tem sabido ser, primeiro no Barnabé e depois no Arrastão, um comentador actualizado, incisivo, sempre com o mot juste, com facilidade nas fórmulas e com uma clareza argumentativa exemplar, servida por um encadeamento lógico altamente intuitivo, que consegue transmitir a mensagem de forma extremamente eficaz.

Para além disto, o Daniel vai ao encontro de uma certa subjectividade de esquerda, que combina um progressismo q.b., com um cálculo instrumental dos meios e dos fins, um certo romantismo e uma boa dose de pragmatismo, um moralismo normativo e justicialista com uma crença na superioridade moral do individualismo democrático. Economia social de mercado e Estado de direito ancoram institucionalmente, em última análise, esta visão do mundo.

O problema desta concepção é que se põe na posição de refém daquilo que existe, em última análise das hierarquias e dos poderes que organizam as relações entre os existentes. O que acaba por ficar em jogo é apenas o equilíbrio entre esses poderes.

É a propósito disto que queria trazer à discussão um post que o Daniel escreveu e que me parece que passou um pouco despercebido. Não é sobre Cuba nem sobre o Sócrates, mas sim sobre o novo browser da Apple, o Safari 5. O post, cuja leitura recomendo vivamente, pode ser encontrado aqui.

Argumenta o Daniel que o Safari, com a sua funcionalidade “Reader”, que permite a leitura de artigos online, evitando a publicidade, presta um mau serviço ao jornalismo de qualidade. Este, para sobreviver, precisa de receitas, e estas, nas condições de mercado que são as nossas, vêm inevitavelmente da publicidade. Ao sabotar a eficácia desta última e, portanto, ao afastar os anunciantes, o browser da Apple impede que haja condições para o jornalismo sério, que é o garante de uma informação de qualidade, fiável e com profundidade, que por sua vez é o sustento da discussão pública (nomeadamente na internet) informada e consciente. Sabotar a eficácia da publicidade significa, aqui, dar ao leitor a possibilidade de a evitar, possibilidade que, supõe-se as pessoas vão aproveitar.

Não deixa de ser surpreendente que o Daniel, para quem a democracia passa pela possibilidade e pela capacidade de escolha, venha aqui opor-se a esse alargamento. É que para ele é a própria democracia que está em causa: « Sem imprensa profissional e livre – e para ser livre tem de ser sustentável – não há democracia. Não é menos do que isto que está em causa. » Podemos talvez lembrar-lhe que, nos regimes que entendem que a liberdade de expressão e de associação política devem ser restringidas, elas devem-no ser justamente porque se argumenta que o que está em causa é a democracia, ou a igualdade. Esta semelhança formal dos argumentos não deixa de ser curiosa.

Vale a pena dar mais um bocado de espaço aos argumentos do Daniel: « Com os seus conteúdos na Net, os jornais de referência perderam muitos leitores em papel, muito dinheiro e muita capacidade de investimento. Despediram milhares de jornalistas e desistem lentamente de trabalhos mais caros. Aqueles que nos dão as histórias que depois alimentam a conversa permanente na Net. Como precisam de menos dinheiro, os jornais populares, que fazem pouca investigação e concentram-se no pequeno escândalo local, sobrevivem. Mas os jornais de referência ou não têm capacidade para resistir ou lentamente se adaptam à pobreza de meios. O jornalismo de qualidade não é apenas uma questão de gosto ou de escolha. Exige dinheiro: boas redacções, investimento em meses de investigação, deslocações por todo o Mundo. Não se faz um “The New York Times”, um “Washington Post”, um “Guardian” ou “Le Monde” com trocos. »

Resumindo, o bom jornalismo depende do capitalismo, e como a discussão pública depende da produção jornalística, esta está refém do funcionamento do mercado publicitários nos jornais. Como em última análise a democracia depende da discussão pública, é a democracia que está refém do capitalismo.

Mas porque é que a discussão pública está dependente do jornalismo feito nos jornais? O mais interessante na net são justamente os media alternativos, que escapam ao controle editorial dos grandes jornais. Não sei quanto ao Daniel, mas eu cresci a ver telejornais a debitarem manipulações grosseiras sobre a política internacional, e propaganda sebenta sobre o que se passava em Portugal. Vale a pena insistir na ideia de um quarto poder, independente, e cujo compromisso é com a verdade? O compromisso dos jornais é muito simplesmente com o ambiente hegemónico dominante, e o seu conteúdo, que pode, seguramente, ser crítico dos poderes fácticos, raramente é crítico dos pressupostos ideológicos que sustentam esses mesmos poderes.

A lógica do capital não leva a mais nada senão à sua reprodução. O que é preciso é encontrar meios de subtracção a essa lógica, o que significa uma produção horizontal e colectiva da informação que não passe pelo compromisso com a publicidade, nem pelo controle de capatazes-editores. A incapacidade de imaginar o mundo para além daquilo que é só reforça os propósitos daqueles que querem que ele mude para que tudo continue na mesma.

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