What’s left in football?

Não gosto do discurso da nostalgia, nem das suas adjacências respeitáveis no mercado estético – o pastiche, o produto vintage, etc. Mas acho que algo se perdeu no momento em que os intelectuais – i.e., os que escrevem para um público leitor informado, os ocupantes desse espaço simbólico de projecções e exclusões a que se chamou esfera pública – deixaram de escrever sobre cinema (não é sobre filmes, é sobre cinema), literatura, ou as artes, e passaram a escrever sobre futebol.

Depois de um post ou um artigo sobre Cuba, ou sobre as mutações do capitalismo, lá vem um texto sobre o mourinho ou o treinador da França. Uns são mais superficiais e comentam a espuma do acontecimento. Outros são mais formalistas e exibem com indisfarçável gozo o domínio da técnica. Sabem o que é um trinco e as diferenças efectivas entre as diversas combinações numéricas que somam 10.

Para estes a ligação entre a política e o futebol é imanente ao próprio jogo, e não deve ser investida de significados externos. Há jogadores e estilos de jogo de esquerda, há um futebol que é emancipatório, outro que é isomórfico ao capitalismo. O problema de quem olha assim é que se esquece de ver a verdade que só na totalidade se mostra. O que é que há de emancipatório num jogo que assenta no menos libertador dos pressupostos do mundo contemporâneo: a competição? Como pode ser de esquerda ganhar e dar a perder? O que é que pode ser mais contrário a uma ideia igualitária do que sancionar a vitória de uns e a derrota de outros?

Dir-me-ão que o que se joga no campo é, uma e outra vez, a luta de classes. É precisamente a esta lógica que se impõe dizer um não. Na luta de classes a vitória do proletariado não é apenas o fim daquele jogo, mas do jogo em si.

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