Quem corre por amor não cansa

Sou acusado de excesso de honestidade na defesa do poliamor por, sem defender nenhum modelo de relacionamento amoroso como mais ou menos apropriado para quem quer que seja, afirmar que, para quem vive alguma forma de poliamor, há uma tentativa de relação mais honesta do que a que permitiu, a essas pessoas, o modelo heterosexual. Ora, a primeira desonestidade da monogamia é o facto de ser culturalmente imposta nas sociedades ocidentais – por base moral – como modelo único, “natural”, correcto e, naturalmente, a única possibilidade para toda a gente. Não respondo sequer à confusão entre poligamia (1 macho, várias fêmeas (não mulheres) ao serviço) e poliamor (todas as formas de relacionamento amoroso não monogâmicas e baseadas na honestidade, na transparência, na responsabilidade e no respeito). É uma confusão corrente.

Outra é invocar o “personal trainer” como solucionador dos problemas amorosos da, claro, inevitável monogamia. Caro Vasco L. Barreto, o personal trainer, tal como a poligamia, não é poliamor, é outra coisa, quando muito polisexo, o que na verdade dispensa qualquer relação amorosa. Polisexo dispensa grandes honestidades – só não dispensa o respeito e a protecção -, mas se é sem honestidade então não é considerado poliamor (que se define, por isso mesmo, como não monogamia RESPONSÁVEL).

Regressando ao campo dos modelos de relacionamento, cada um tem o seu. Mas, insisto, a monogamia, como modelo maioritário – e moralmente coercivo -, também é muitas vezes uma mentira e terreno de hipocrisia. Muitas pessoas têm descoberto a monogamia como um campo de mentira, traição, ciúme exacerbados, e como escolha que não as faz felizes. Não raras vezes, o entendimento do amor por detrás dos discursos de apologia da monogamia são os sentimentos de posse. Ora eu, que não sou nem quero ser dono de ninguém (nomeadamente, não sou poligâmico), prefiro a liberdade dos afectos.

Há muitas pessoas, sim, que são felizes na monogamia e a exercem honestamente. Porque falamos de relações e de felicidade, o que não é possível é fazer generalizações para qualquer lado, nem apologias. O problema dos modelos, sobretudo quando são hegemónicos, é que tendem a limitar as possibilidades de se ser feliz e a imaginação para encontrar os caminhos a essa felicidade. O meu modelo é meu, e não aconselho a ninguém, nem sequer o descrevo, não por vergonha, mas porque é pessoal. Muito tive de lutar e muito me custou a encontrar a liberdade para o pensar, testar, construir, viver. Continuo a fazê-lo. E, infelizmente, tenho ainda hoje que defender a sua legitimidade porque, sempre que o faço, me acusam de querer colocar em causa a legitimidade dos modelos dos outros. Não, fique descansado, viva lá a sua monogamia feliz, não se canse, mas pelo menos pense, questionar o pronto-a-comer é sempre bom, não se fique por uma negação da utilidade de se procurar formas mais respeitosas de amar do que aquelas que herdamos da moral e do patriarcado, esforçarmo-nos para sermos melhores a ser felizes com os outros e fazer os outros mais felizes connosco. Ou pelo menos, respeite que alguém o tente”

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8 Responses to Quem corre por amor não cansa

  1. António Figueira says:

    Beat this, Vasco Barreto

  2. Danielly says:

    Que lindo

  3. VMB says:

    Creio que há alguma falta de poder de encaixe nesta resposta. Eu não “acuso” ninguém de excesso de honestidade, a imagem do “personal trainer” também era irónica, tendo tido aqui uma interpretação absurdamente literal, e não me recordo de ter feito qualquer confusão entre “poliamor” e poligamia – qualquer pessoa menos investida nesta aparente nova causa percebe que relacionava o “poliamor” com aquilo que a sociedade entende ser um comportamento promíscuo (e isto não me compromete sequer com um juízo de valor, limitei-me a identificar a tendência que passa por ensaiar a transformação no léxico como preparação para a mudança real). Fico por aqui, só para arrumar os aspectos mais triviais, e responderei no blogue sobre o difícil equilíbrio entre a defesa de uma convicção e a prática (involuntária ou não) de proselitismo. O resto é irrelevante, mas não deixo de retribuir os votos de uma vida passional feliz.

    Cumprimentos,

    PS: Olá, António.

  4. Miguel Lopes says:

    “Não respondo sequer à confusão entre poligamia (1 macho, várias fêmeas (não mulheres) ao serviço) e poliamor (todas as formas de relacionamento amoroso não monogâmicas e baseadas na honestidade, na transparência, na responsabilidade e no respeito). É uma confusão corrente.”

    Das pesquisas que fiz sobre o assunto conclui que poligamia e poliamor são sinónimos. Um macho e várias fêmeas seria poliginia, uma das formas da poligamia tal como a poliandria (que seria o inverso). Talvez Vasco Barreto tenha razão quando elogia a capacidade da língua (ou não seria das línguas??) em substituir por palavras mais graciosas as outras que já possuem uma carga excessivamente depreciativa.
    Agora no que eu acho que Vasco Barreto não tem razão absolutamente nenhuma é, para além daquilo sobre o que Sérgio Vitorino já escreveu, nessa ideia de que ainda é muito cedo para falar disto e que se estaria a credenciar retroactivamente um apelo à cobardia que foi feito pelos sectores homofóbicos. Esse apelo é bastante inteligente e opera-se da seguinte forma: pega-se no princípio da igualdade no acesso ao casamento, estende-se até às últimas consequências transportando as pessoas para um cenário longínquo e estranho que as assusta (como a poligamia), depois é só esperar que o conservadorismo se manifeste de forma a salvar (pelo menos) o casamento gay monogâmico, e finalmente é só apontar a contradição – “Então não diziam que o Estado não deve discriminar com base na orientação sexual o reconhecimento legal de uma relação voluntária entre pessoas livres e adultas??!? Mas que cambada de hipócritas!!!”
    A opção pela ‘cobardia’ foi coisa que já vi aqui no 5 dias. Vejam este postal:

    “Sem sequer discutir a poligamia em si, há um aspecto decisivo a lembrar: a homossexualidade não é um mero comportamento, nem uma opção, nem um estilo de vida que se adopta de forma volitiva. Quem opta por ter mais de uma cônjuge de cada vez está a exercer uma escolha (nem aos mórmones alguma vez foi imposto o casamento plural); não a obedecer a ditames inescapáveis da sua identidade. Tendo isto em vista, coarctar as opções legais de homossexuais e polígamos não é de todo equivalente.”

    Esta tentativa de racionalizar um preconceito é que me parece um enorme tiro no pé.

  5. LM r says:

    Mas não é tiro em pata alguma. O próprio SV descreve o labor de construção deste modelo outro: “Muito tive de lutar e muito me custou a encontrar a liberdade para o pensar, testar, construir, viver.” Isto não é a descrição de uma escolha?

  6. Jose Pinto says:

    O modelo é com cada um. Daí ser necessário descriminalizar a bigamia e a poligamia quando voluntárias.

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