Se a justiça não julgar os crimes dos agentes Monteiro, Ferreira e Nunes, só resta ao povo a justiça popular. Será essa a intenção?

Ainda muito pouco foi dito sobre o “Retrato de (mais) um crime” que a PSP cometeu nos subúrbios de Lisboa. Antes mesmo de entrar na polémica, sublinho com estranheza o assobio lateral com que praticamente todos, da esquerda à direita, parecem lidar com o assunto. Para além do escrito na Plataforma contra a violência policial, no Minoria Relativa, no Spectrum e no Indymedia, nenhum dos que tanto se excitaram com teorias metafísicas nos casos em que o abuso da força e do poder acabou em assassinato, parecem agora interessados em participar, seja na denúncia, seja no debate, seja na luta política.

Entre os que tomaram a palavra saltam alguns argumentos que no meu entender podem justificar o silêncio mas não perdoam o imobilismo:

Da Fonte: Ana Barradas é uma militante histórica da esquerda revolucionária. Para além de editora e ex-jornalista tem um crédito inabalável mesmo em sectores que não são da sua esfera de influência política. Atacar a sua seriedade é o revelar da total e absoluta ausência de argumentos.

Dos Factos: Dois jovens foram agredidos, humilhados e insultados dentro de instalações da PSP. Aliás, como se pode ver no referido “Relato de (mais) um crime”, nada justifica a passagem por diferentes esquadras nem tão pouco o uso da força. Os suspeitos estavam algemados, sem capacidade de oferecer resistência e a violência parte apenas dos agentes da polícia. O crime, como é bom de ver, esteve do lado da autoridade. Do outro, havia dois suspeitos que deveriam apenas ter sido identificados e no máximo chamados posteriormente a depor na presença do seu advogado. O que se passou foi que o agente Nunes, o agente Monteiro e o agente Ferreira decidiram, em nosso nome, vestir não só a sua farda, mas também a de todos os outros responsáveis pelo “legal” circuito da justiça, do magistrado ao carcereiro. Devem pagar pelo que fizeram na barra do tribunal, na cela de uma prisão ou, se tudo falhar, pagarão como o povo manda.

Dos argumentos desculpabilizantes da esquerda maionese: Poucos falaram mas os que falaram, falaram claro. Saboteur, na caixa de comentários: “A polícia portuguesa tem fraca preparação e não está, na sua esmagadora maioria, em condições de policiar seja o que for. (…) A culpa não é dos polícias, claro. São problemas profundos e complexos, ligados à falta de formação, falta de cultura, falta de qualidade das chefias e até falta de respeito pelo próprio trabalhador-polícia, obrigado a fazer dezenas de horas semanais num trabalho ultra-desgastante e stressante… é claro que não ficam bons da cabeça. (…) Aliás, até acho que deveriam ser exemplarmente punidos (e não estou a defender, obviamente, que levem umas bofetadas, mas que se comece a cumprir a lei). (…) O que queria dizer é que, embora ache que instituição polícia está estruturalmente numa situação muito má, devido a problemas profundos e complexos, ainda assim, não faço generalizações… ou não digo que a culpa é de haver polícia… Não me quero confundir com certa anarqueirada, não sei se me estás a ver….”

O que Saboteur diz em voz alta (mas outros pensam em surdina) tem consequências sérias e que ficam à vista quando vemos a esquerda do regime brandir por mais polícia (chamam-lhe “de proximidade” que dá um toque nouvelle-gauche fixe). Esta ideia sinistra de que há que reforçar a polícia; que o problema é a sua falta de cultura; que olhem lá que não podemos viver sem eles; que eles estão lá é para nos proteger; que há falta de respeito; serve apenas para desculpabilizar os criminosos e para poder dormir bem sobre o assunto. Estes, que têm sempre um Saboteur por perto para lhes dizer que, coitados, são operários mal pagos, esquecem que se todo o precário passar a resolver o mundo ao murro e ao pontapé e a fazer justiça pelas próprias mãos, eles serão os primeiros a ver o bico do prego virado ao contrário.

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