O que nem a BP nem Obama querem entender

O diferendo entre a BP e a Administração de Obama faz lembrar uma discussão sobre a guerra entre mercenários. Esquecem, as partes, que só é digna a defesa da guerra se ela for feita com os olhos na paz. Neste como em muitos outros casos, quer a Casa Branca quer a petrolífera estão de acordo em cada acto bélico contra o planeta e ambos já apertaram as mãos demasiadas vezes em sacrifício da humanidade.

O modo de produção capitalista tem nos diferentes governos dos EUA e nos quadros das principais multinacionais os seus grandes obreiros. Ao longo dos últimos dois séculos e superada que foi, há demasiadas décadas, a batalha produtiva, toda a responsabilidade deve ser atribuía aos que fazem da corrida ao lucro o seu modo de vida. É uma corrida irremediavelmente perdida.

O que se passa no Golfo do México não é passível de ser lido com ligeireza. Para lá dos números da catástrofe, a maior nos EUA e uma das maiores da história industrial, resta o lado premonitório deste atentado ecológico e um verdadeiro presságio sobre os contornos do genocídio que nos espera se ninguém for capaz de travar a gula de quem prefere morrer cedo desde que afogado em ouro.



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24 Responses to O que nem a BP nem Obama querem entender

  1. psd da boa-fé diz:

    Excelente posta, sr. Teixeira. Daquelas que deixa fora do debate os 31s da Armada e companhia, sempre prontos para discutir o acessório e conservar-legitimar-reproduzir acriticamente o essencial.

    A catástrofe ecológica é o maior sintoma da falta de rumo estratégico nas políticas actuais. Qualquer cego, excluindo aqueles que ainda acreditam nas ‘mercadorias’ informativas da televisão, vê que o genocídio é cada dia mais inevitável: expansão mundial da produção de energia nuclear, de armamento, do transporte e exploração marítimos de petróleo, da desfiguração da paisagem por mega-barragens e auto-estradas, da disseminação de favelas nas periferias ultra-poluídas das grandes metrópoles (Cairo, Mumbai, Lagos, Calcutá, Daca, etc.), da destruição da bio-diversidade, da produção de OGMs…

    Numa sociedade onde a economia e a política têm como meta exclusiva a promoção do enriquecimento individual de uma parcela da sociedade, o genocídio é inevitável. E, nesta matéria como no resto, não são os cientistas (que venderam a ciência aos industriais – Bolonha é apenas um passo final nesse sentido) e muito menos os comunistas que nos irão salvar: http://pt.wikipedia.org/wiki/Mar_de_Aral & http://pt.wikipedia.org/wiki/Acidente_nuclear_de_Chernobil & http://www.bellona.org/english_import_area/about_bellona/33320 .

  2. Renato Teixeira diz:

    Interessa acima de tudo saber como se param os gulosos e nesse aspecto os “comunistas”, como diz, são um aliado fundamental. Estou certo que depois dos debates que tem acompanhado saberá distinguir esses dos estalinistas ferrenhos pela corrida à lua e ao fundo do mar.

    O debate que me parece mais urgente é pois como colocar aspas nesse seu inevitável…

    Vamos por ai?

  3. psd da boa-fé diz:

    Acima deixei apenas a memória de 3 desgraças ecológicas do dito ‘comunismo’. Podia ter deixado a memória das chuvas ácidas nas florestas da Alemanha oriental ou dezenas de outras calamidades patrocinadas e silenciadas pelos ‘capitalismos de estado’ comunistas.

    Que os ‘comunistas’ possam ser úteis a travar os gulosos que patrocinam as desgraças actuais? Certamente. A questão é que, mesmo sem a gula motivada pela ambição do enriquecimento individual, os ditos ‘comunistas’ sempre apostaram em políticas ‘centralizadoras’, potenciadoras de catástrofes, na gestão dos recursos: a água (lembram-se da mega-barragem do Alqueva, fervorosamente defendida pelos ‘comunistas’, que obrigou ao esburacamento de toda uma província para se levarem por tubos gigantescos as águas poluídas da albufeira a tudo o que é cultivo químico e intensivo?), a produção agrícola intensiva (recorde-se sempre o exemplo inultrapassável do Mar de Aral: secou-se um grande mar da Terra para a produção ultra-intensiva de algodão) e poderíamos falar da energia nuclear ou da exploração petrolífera…

    Por isso, há que estar sempre vigilante com ‘aliados’ desses. E, fundamentalmente, nunca acreditar nas suas ‘boas intenções’. Que de boas intenções está o ‘comunismo’ cheio (e estão aqueles que acreditam em mudanças radicais FARTOS)!!

  4. antonio diz:

    Há gente a sofrer por lá e com a vidinha atirada abaixo.
    Isso não é assunto de risota.

    Desde 1970 e trocados que se sabe (relatório do Clube de Roma, professores do MIT) que este modelo de ‘civilização’ é inviável.
    Como ninguém liga/ligou nenhuma, isto continua assente em cima de ‘oil’.
    Depois queriam o quê ??

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  6. Semeador de Favas diz:

    O psd tem razão,
    Se os comunistas continuarem a acalentar como alternativa ao «espectacular difuso» capitalista, o antigo «espectacular concentrado» socialista, então não avançarão uma vírgula em relação aos anteriores e catastróficos erros.
    Renato, os «comunistas» são um «aliado fundamental», sim, desde que não coloquem o Comunismo na gaveta à primeira dificuldade.

  7. psd da boa-fé diz:

    A prova de que a ecologia não interessa um cagalhão nesta bosta de país cinzento é que ninguém tem interesse em comentar, em opinar, em ajuizar, em comunicar uma ideia, uma não-ideia, um pensamento, uma fantasia, em escrever uma simples linha sobre este tema. Porra de povo obediente, manejável, dócil, apático, calado e cobarde!!

  8. carmo da rosa diz:

    Renato Teixeira disse: ”O modo de produção capitalista tem nos diferentes governos dos EUA e nos quadros das principais multinacionais os seus grandes obreiros. (…). É uma corrida irremediavelmente perdida.
    (…) um verdadeiro presságio sobre os contornos do genocídio que nos espera se ninguém for capaz de travar a gula de quem prefere morrer cedo desde que afogado em ouro.”

    Afogados em ouro é naturalmente exagero, mas é verdade que se os portugueses rejeitarem o modo de produção capitalista, recusando ao mesmo tempo, para serem minimamente consequentes, os subsídios vindos dos países capitalistas do norte da Europa, vão ser obrigados a moderar os seus hábitos.

    É evidente para toda a gente que num sistema socialista vai ser difícil continuar a manter em média dois carros e 7 telelés por família, levar e buscar diariamente os meninos à escola de carro, ir igualmente de carro comprar tabaco a 200 metros de casa, comprar de seis em seis meses o último modelo de computador, televisão e sapatos com berloques. Uma visita à manicura sem o cartão do partido não será mais possível, assim como férias no All Garve, que passarão a estar apenas ao alcance dos jogadores de futebol dos grandes clubes da primeira-divisão. Comer fora nem pensar, a restauração em Portugal vai ser definitivamente substituída pelos frangos no churrasco de levar para casa. Marisco? Só na televisão. Os subsídios de férias, o 13º mês e as reformas aos 50 anos tornar-se-ão rapidamente impagáveis, já para não falar nos subsídios de desemprego.

    (Em meu nome e restantes familiares queria desde já ‘agradecer’ aos redactores do 5dias, que com as suas ideias malucas contra o capitalismo me querem privar num futuro próximo da pequena parte que me cabe neste luxo nacional…)

    Mas não quero de maneira nenhuma parecer pessimista, entre mortos e feridos alguém há-de escapar, os albaneses durante a época do Enver Hoxha também se desenrascaram. E hoje em dia os norte-coreanos têm realmente que fazer das tripas coração (isto literalmente) para não morrer de fome, mas é um facto que conseguem sobreviver e ao mesmo tempo manter um exército de 1 milhão de homens armados até aos dentes. E ainda arranjam uns tostões para torpedos e armas nucleares e para enviar uma equipa de futebol ao Mundial e ainda lhes sobra dinheiro para pagar a adeptos chineses – à falta de nacionais com passaporte – para torcerem pela selecção durante o Mundial de futebol…

    Como se sabe contra a selecção portuguesa isto não serviu de nada, e é aqui precisamente que reside O ERRO dos sistemas comunistas. Erro esse que na minha modesta opinião convém evitar caso queiramos ter pelo menos uma selecção de futebol decente. Se não vejamos, a Coreia do Norte, em vez de pagar aos seus jogadores – como nós fazemos e na minha opinião até demais -, que na realidade são quem tem que dar o corpo ao manifesto e correr atrás do Meireles e do Simão, distribuíram o carcanhol por adeptos estrangeiros (chineses) pouco motivados!!!

    Não pense o leitor menos avisado que esta treta só tem a ver com bola! Não, não e não. Isto é sintomático dos países comunistas como a Coreia do Norte, isto faz parte do plano orçamental: distribui-se primeiro o bago irmãmente pelos quadros do partido e o pouco que sobra é, mais tarde, ideologicamente cedido para quem verga a mola, os trabalhadores. Mas o que sobra nunca é muito, porque os tipos do politburo são maus em capitalismo e além disso gastam grande parte da massa em ‘dachas’ (montes alentejanos mas na Rússia) e Mercedes último modelo para os seus membros. É por esta razão e não outra que a malta trabalhadora da Coreia do Norte tem muita pena de não ter nascido mais a Sul, na parte má e capitalista da Coreia…

  9. antonio diz:

    psd da boa-fé , o povo não é assim tão mau.

    Está-se é um pouco nas tintas para as “causas” dos “intelectuais”.
    São espertos, ouvem o teu discurso, acenam que sim e depois vão tratar da vida deles.

    Mas se os conseguires ‘agarrar’ (tens que saber como se faz, não é a fazer discursos de uma balaustrada qualquer…) eles transcendem-se.

    🙂

  10. psd da boa-fé diz:

    Carmo da Rosa trouxe-nos uma bonita flor a um não-debate sobre petróleo e outras matérias igualmente genocidas; mas, muito sinceramente, não será, ao contrário do que disse, que os norte coreanos devem fazer do coração tripas (literalmente e de preferência à moda do Porto, muito bem temperadas em cominhos, portanto)? Isto porque umas tripinhas sempre marcham melhor…

    (Foi o momento Daniel Oliveira do blog 5 dias! Os bifes… onde estão os bifes?)

  11. psd da boa-fé diz:

    antonio,
    Vá chamar ‘intelectual’ ao Tiago Ribeiro, se faz favor!

  12. antonio diz:

    Não sei bem qual é o seu problema com isto.

    Eu sou dessa espécie.

    Consigo fazer trabalhos manuais, mas o normal é aleijar-me, daí como sei dos meus “limites de Peter” chamo alguém que seja competente e não se magôe no processo…

    🙂

  13. Renato Teixeira diz:

    Carmo da Rosa, há algum debate que seja capaz de fazer sem falar na Coreia do Norte? É que tenho para mim que Pyongyang terá poucas responsabilidades na maré negra do Golfo do México.

  14. Renato Teixeira diz:

    Boa Fé, uma feroz provocação. Não acha que ao perder mais tempo sobre os crimes do estalinismo (que isso do comunismo é outra coisa) do passado lhe retira energia preciosa no combate aos responsáveis pelos atentados ecológicos contemporâneos?

    Onde leva o esquema de raciocínio do que diz ser a “flor” do Carmo da Rosa?

  15. antonio diz:

    O Stalin era um geogiano com muito maus fígados, pouco jeito p’ra falar ou escrever, tinha um idiota baixote chefe da polícia política (Laurenti Beria, creio que alguém acabou por lhe dar um tiro na cornadura…) para lhe fazer o ‘trabalho sujo’, adorava reanjar lá o império Rus (dezenas de milhões de pessoas foram trocadas de uns sítios pr’os outros, come se fossem mercadoria… 🙁 )

    O Mao não era melhor.

  16. Renato Teixeira diz:

    E o “georgiano” com muito maus fígados que se passeia de iate enquanto a sua empresa destrói o Golfo do México? E o Golfo do México, antonio, suscita-lhe algum desabafo?

  17. antonio diz:

    Suscita.
    🙂
    Até o “meu prêto”(contribui para eleger, nem percebi muito como e quando…) está passado com aquilo.
    A ideia (não sei se é boa…) é multar a B.P. numa quantia enorme.
    Montes de gente parada e a sofrer à conta daquele derrame.

    Friggin’ civilization lives on oil….

    🙁

  18. psd da boa-fé diz:

    Sr. Teixeira,

    Talvez seja por defeito de fabrico, mas tenho a memória como o ingrediente principal na consciência de um revolucionário. E como também já vivi uns anos na ex-Alemanha Oriental, além da minha mulher ter crescido no ‘socialismo’, sei um pouco do que falo e da sua pertinência neste debate sobre o combate ao apocalipse ambiental.

    Portugal está na PERIFERIA da Europa e o ‘comunismo’ acrítico sem memória encontra cá um terreno mais fértil para expandir-se do que no centro do continente.

    E a prova de que o ‘comunismo’ convive mal com medidas ecológicas radicais está na ausência de ‘comunistas’ neste debate. Ficaram a ver as ricas mamas da paraguaia…

  19. xatoo diz:

    quem é o Tiago Ribeiro?

  20. psd da boa-fé diz:

    Xatoo, descubra o Tiago Ribeiro em http://5dias.net/2010/06/17/provoca-accao-com-este-trocadilho-ainda-vou-para-o-be/ .

    Ficou esclarecido?

  21. carmo da rosa diz:

    Renato Teixeira disse: ”Carmo da Rosa, há algum debate que seja capaz de fazer sem falar na Coreia do Norte? É que tenho para mim que Pyongyang terá poucas responsabilidades na maré negra do Golfo do México.”

    Eh pá, peço imensa desculpa, mas falei apenas um pouco mais sobre a Coreia do Norte porque depois da retumbante vitória da nossa selecção vinha mesmo a propósito para demonstrar, de uma forma simples e que toda a gente percebe, o tal ERRO dos sistemas comunistas. Isto porque você falou em modos de produção capitalistas!

    É verdade que Pyongyang não tem qualquer responsabilidade na maré negra do Golfo do México, mas você, ao atribuir toda a responsabilidade ao modo de produção capitalista, está a cometer o típico erro esquerdista de percepção selectiva!

    Sinceramente, se eu ainda acreditasse nessas coisas marxistas, nem sequer abordaria este assunto, ou pelo menos não lhe daria um cunho ideológico – ficava-me pela morte dos peixinhos e das gaivotas coitadinhas…

    E porquê?

    Porque esta manhã, ainda meio a dormir ouvi na rádio holandesa um comunicado sobre as reminiscências do socialismo na Europa de Leste: “ENVIRONMENTAL DISASTER IN EASTERN EUROPE”:

    http://mondediplo.com/2000/07/19envidisaster

    Caro Renato Teixeira, até em poluição o Socialismo é superior…

  22. Renato Teixeira diz:

    Isso Carmo da Rosa, continue a fiar-se na BP.

  23. miguel diz:

    Carmo da Rosa: “É evidente para toda a gente que num sistema socialista vai ser difícil continuar a manter […]

    No Blasfémias já se pergunta “De quais dos seguintes bens de consumo durável estaria disposto a abdicar numa situação de crise?” e não falam em comunismo nenhum, mas no mais que previsível endurecimento do capitalismo. Pois, é o capitalismo – e não o “sistema socialista” – que está a degradar o nível de vida das pessoas (incluindo algumas franjas da pequena burguesia que estão a ver-se à rasca).

  24. carmo da rosa diz:

    Caro Miguel, não me faça rir, o capitalismo (dependente do qual estamos a falar) ainda tem muito que endurecer para chegar aos calcanhares dos paraísos socialistas…

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