Quero começar este meu texto por assumir os meus pecados: até há bem pouco tempo (dois, três anos) não era particularmente apreciador da música de Fausto Bordalo Dias. Heresia não desculpável, claro está. Pois bem, ao contrário do que sucedeu com Zeca Afonso, Sérgio Godinho ou José Mário Branco, em que fiquei convertido de imediato aos seus méritos, tive bastante mais dificuldade em apreciar devidamente a música deste grande vulto da música nacional. Ouvindo apenas alguns temas soltos (algo que facilmente subverte a opinião que se tem da carreira de um músico), sentia que estava muito aquém da profundidade e intensidade da obra dos grandes senhores anteriormente referidos. O momento da viragem deu-se com a audição integral (imperdoavelmente tardia) de Por este rio acima, disco baseado na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. É certo que nele a conjugação da música popular portuguesa, da urgência lírica de Fausto, dos fabulosos coros ou da toada mais lenta e introspectiva é brilhante. Mas o que mais impressiona no disco e que mais contribui para o seu estatuto de obra-prima é a consistência deste álbum conceptual, a incrível produção e o arrojo sonoro, que o tornam, no contexto da música portuguesa da época, numa pérola verdadeiramente vanguardista, completamente à frente do seu tempo. Depois disto, fui ouvir melhor a obra do músico e, embora o tenha feito com uma aceitação muito mais positiva, não tenho dúvidas em considerar que Por este rio acima está muitos furos acima da globalidade do trabalho de Fausto, incluindo o recomendável Crónicas da Terra Ardente, segundo volume da trilogia dedicada à diáspora lusitana. Foi esta trilogia, cujo terceiro volume sairá este ano, que Fausto Bordalo Dias veio apresentar ao CCB, no ciclo “Carta Branca”, que já contou com nomes como Jorge Palma ou Camané. Um concerto dividido em três partes, correspondentes a cada um dos episódios deste tríptico épico.
I – (Futuro Album)
Foi em jeito de analepse que decorreu o espectáculo, começando pelo epílogo desta epopeia, ainda sem título designado. “E fomos pela água do rio” foi o primeiro tema interpretado e foi um magnífico começo, com os teclados em inequívoco destaque e com uma soberba toada melancólica e algo erudita, a fazer lembrar, a espaços, algumas das brilhantes composições de Rodrigo Leão. Depois de dois temas menos interessantes, o primeiro com uns toques jazzísticos dispensáveis (compensados pelos sempre incríveis e acelerados jogos de palavras e truques líricos de Fausto, capazes de imprimir uma dinâmica incrível às músicas) e o segundo com uma vertente popular mais easy-listening, veio um tema mais forte do ponto de vista da percussão, intitulado “Nos Palmares das Baías”. Depois de duas bonitas baladas, a sequência inicial do novo registo discográfico, cuja ordem foi integralmente respeitada, terminaria com o novamente mais ritmado “À sombra das ciladas”. Depois desta sequência, foi ainda interpretado um outro tema do novo disco, mas antes teve lugar um dos raros momentos de comunicação com o público. Nela, o músico falou do novo disco, da sua abordagem aos episódios terrestres dos descobrimentos (em contraste com a vertente marítima dois tomos anteriores), avisou, de forma veemente, para o público não vislumbrar na construção rítmica quaisquer elementos africanos, mas apenas aspectos tradicionais portugueses (é certo que é verdade, mas foi descabido o tom – haveria algum mal se isso acontecesse?) e saudou a direcção musical do grandioso José Mário Branco. Foi com ele em palco, de adufe em punho, que se fechou esta primeira parte com “Por altas e serras de montanhas”. Não tendo deslumbrado, fica uma impressão positiva desta primeira apresentação do novo disco. Haverá, contudo, ainda muito por explorar, não só nos temas que ficaram por tocar, mas também por estes que passaram pelo CCB. É que um dos problemas do concerto foi a estrutura demasiado convencional da banda de apoio de Fausto, faltando diversos instrumentos como sopros de qualquer tipo ou de cordas (violinos, guitarra portuguesa, bandolim, etc), sendo os seus sons assegurados pelos teclados, com um resultado demasiado artificial.
II – Crónicas da Terra Ardente
Sem pausas, iniciou-se a segunda parte do espectáculo, dedicada a Crónicas da Terra Ardente (disco intermédio da trilogia, lançado em 1996), com o muito aplaudido “Ao som do mar e do vento”. Depois de mais dois temas deste disco, um dos quais com aproximação a terrenos mais rock, pela influência da guitarra eléctrica, veio talvez o período alto do concerto. Começando com uma simultaneamente crua e poderosa interpretação de “Na ponta do cabo”, apenas com voz e percussão (tal como em disco) e plena de alma e de garra, e terminando com o mais tradicional “Os Náufragos”, com o acordeão e os jogos vocais a criarem uma ambiência festiva, a metade final desta segunda parte foi talvez o melhor período do espectáculo. Pelo meio, houve ainda o incrível “O Mar”, apenas com voz e guitarra acústica, e a cadência notável de “A Chusma salva-se assim”, que, pela sua maior simplicidade estética e menor exigência instrumental em palco (pelo menos do ponto de vista tradicional), funcionaram particularmente bem.
III – Por Este Rio Acima
Depois de um interessante interlúdio, apenas com percussão, foi com o tom lento do tema título da obra aclamada que se iniciou a terceira e última parte do espectáculo. Num disco tão incrível e que vale essencialmente pela sua globalidade, é difícil e até inconveniente destacar um ou outro momento. Todavia, não resisto a valorizar acima de qualquer outro ”Como um sonho acordado”, pela conjugação complexa de instrumentos, pelo impacto das palavras, pelas suas variações sonoras e rítmicas, por aquele arrebatador crescendo final, por tudo o que lhe garante, para mim, um lugar numa virtual lista dos melhores temas portugueses de sempre. Foi o segundo tema desta parte e, contudo, uma das grandes desilusões da noite: o final não teve a força e a alma do disco e foi das músicas em que mais se sentiu o défice instrumental da banda. Para compensar, veio de seguida uma interessante versão de “Olha o Fado” (apesar da ausência da guitarra portuguesa), nomeadamente na parte final em coro, e a emotiva e sublime interpretação do lindíssimo “Lembra-me um sonho lindo”. Para o fim, o aplauso efusivo e a previsível celebração com “A Guerra é a Guerra”, “O Barco Vai de Saída” e, num encore e de forma surpreendente (no alinhamento figurava “Porque não me vês” como 7º tema de Por Este Rio Acima), “Navegar Navegar”, talvez o tema mais conhecido de toda a carreira de Fausto.
E assim terminou o concerto de uma das grandes lendas vivas da música portuguesa, um dos resistentes da música de intervenção (e que falta ela faz num mundo onde abunda a tecnocracia e a carência de fortes valores ideológicos), embora, como se repara nesta trilogia, com um âmbito lírico alargado para outras áreas. Não terá sido um concerto brilhante, nem provavelmente muito bom – tal como na música de Sérgio Godinho, os arranjos demasiado uniformizados, estilizados e acomodados, faltando arrojo e um pouco de chama, prejudicam um pouco a transposição para palco do seu fantástico universo musical. No entanto, foi suficientemente genuíno para que tivesse valido a pena, para que continue a ser um motivo de grande satisfação e um momento indubitavelmente especial assistir a um concerto de Fausto Bordalo Dias.
(texto escrito originalmente para o site musical “O Ponto Alternativo”)





Meu caro João Torgal, imperdoável pois!
Fausto é, sem dúvida, mil vezes mais músico e compositor que qualquer um dos aqui mencionados por si! Há, em Fausto, densidade que jamais encontrará em nenhum dos outros! Fausto não se pode comparar com nenhum outro, sob pena de se desmerecer quem com ele se compara (como ocorre aqui com a aparencia da minha, humilde, oponião)!!
Fausto é um grande Portugal!
Nunca é tarde para começar! Das grandes obras, aprende-se a gostar! O tempo lhes dará razão, a elas, às obras e aos seus criadores!!!
Abraço
Justiniano, eu confessei os meus pecados. Terei ainda redenção??
Mas não sei se vou achar melhor que a obra de Sérgio Godinho ou de José Mário Branco. Para não falar dos grandes clássicos mas dos discos recentes, ouça-se “Resistir é vencer” de José Mário Branco (2004) e principalmente “Ligação Directa” de Sérgio Godinho (2006) para perceber que 30 e tal anos depois continuam em grande…
Realmente impensáveis as comparações neste texto. É uma pena uma pessoa com clara vontade de escrever sobre um assunto importante fazê-lo desta maneira. Ou se é uma piada apresento desde já as minhas desculpas.
Henrique Teixeira
Quando se interpreta o acessório de um texto como o essencial, quando há palavras aparentemente proibidas, quando se tem de apreciar cegamente algo, quando… a ortodoxia chega à música…
Para quem não consegue ler um texto e distinguir a mensagem essencial, ela aqui fica: Fausto é uma das maiores referências da música portuguesa, é um crime não ser ainda valorizado pela actualidade mediática e, pese embora alguma carência de elementos tradicionais, o concerto foi bom e muito especial para quem o viu pela primeira vez. Isto é o essencial, compreendido?
P.S.: Para quem não percebe o alcance das minhas palavras, sugiro que leia os comentários do texto original (em http://www.opontoalternativo.wordpress.com)
Caríssimo J. Torgal, deve relevar o meu comentário dentro do bom espírito da leve provocação, sem, de modo algum, ainda que indelevelmente, querer provocar qualquer ofensa.
A remissão da sua falha passa por ler o Fausto e depois, se quizer, leia aquelas coisas pueris que escrevem o J. Mário Branco e o Sérgio Godinho(serão tanto ou mais pueris quanto mais próximo, no tempo, estiverem da música do Fausto e isto por ordem decrescente mas com o limite natural da mínima puerilidade – dois ou três dias depois de se ouvir Fausto). Este exercício deve ser efectuado em acto contínuo e ,preferencialmente, com música escrita. Mais tarde já se pode ouvir!!
P.S., abomino P.S., creia que o seu texto foi devidamente compreendido(catrapiscámos as falas do seu latim), mas nestas coisas da música do Fausto somos possuídos por um espírito de profunda intolerancia face à música, qualquer música!!
Um bem haja para si,
Ou seja, o amigo João Torgal pode dizer mal à vontade,chamando aos arranjos fraquinhos e dispensáveis, quando alguém diz que as suas comparações são dispensáveis, chama-nos de ortodoxos. Porque só o meu caro amigo é que pode criticar. Muito bem. Já sei que neste lado da blogosfera é assim, não comento mais, para que fique mais descansado.
Justiniano, o último comentário não foi para si. Eu aceito com fair-play provocações (a sua foi até muito soft, à qual descontraidamente respondi), o que já me desagrada é adulterações do que escrevo e confusões desonestas entre o essencial e o acessório. Mas mesmo isso eu consigo frequentemente compreender – a idolatria por vezes tolda-nos a razão…
HTS:
Comente, comente… mas tente não ser deselegante (“Ou se é uma piada apresento desde já as minhas desculpas”) e intelectualmente desonesto. Eu faço críticas construtivas (que não vinculam ninguém a não ser eu mesmo – quem seria eu para o fazer), que podem ser construtivamente criticadas (algo que não fez). Isto tudo num texto elogioso, em que acabo por divulgar positivamente a obra e o concerto de Fausto (é triste e revoltante dizê-lo, mas quantos o fizeram?), algo que simplesmente ignora por completo.
Mas como disse no comentário anterior, eu até poderei perceber os seus eventuais motivos (caso também se aplique a si) – a idolatria tolda-nos a razão e isso pode acontecer a qualquer um de nós.
Sabe João, estes blogues têm muita gente que gosta de ler, mas que não comenta. Eu vou fazer o primeiro comentário. E digo-lhe também que as comparações que você fez não fazem sentido. Comparar a música de Fausto ao Jazz e ao easy listening é um enorme disparate, porque a rítmica, a forma, e o contexto são completamente diferentes. Tal como as outras comparações não têm sentido. Eu fui para Portugal da Suiça, e voltei, aproveitei para fazer outras coisas como é evidente, para ver o momento histórico que foi aquele concerto, e não fiquei nada desiludido, pelo contrário, já comentei que foi um dos melhores concertos que já vi, e até lhe dou razão no crítica que faz do “como um sonho acordado”. E também fico impressionado quanto compara a primeira música ao Rodrigo Leão. De resto ainda bem que fala, talvez para a próxima, (que se calhar não vai haver devido à agressividade de algumas pessoas), tenha mais cuidado com essa escrita comparativa. Só isso.
Cumprimentos da Suiça.
Tiago:
Tal como deixei bem claro, é perfeitamente legítimo dizer-se que as minhas comparações não fazem sentido. Eu próprio poderia dizer o mesmo se voltasse a ouvir os temas (há impressões que depois se desvanecem). Agora, mais uma vez deixo claro o seguinte: eu NÃO comparei a música do Fausto com o jazz ou o easy-listening, mas apenas alguns pormenores momentâneos, nada mais.
De resto, agradeço-lhe o seu comentário (ao contrário de outros, criticou de modo construtivo e cordial, algo que só é bom para a troca de impressões) e digo-lhe desde já que será preciso muito mais do que um ou outro insulto mais agressivo para que deixe de escrever sobre uma realidade apaixonante, como a música.
“Mas não sei se vou achar melhor que a obra de …”, com o tempo lá chegará!