Benditos feriados

O PS quer reduzir o número de feriados civis e religiosos, invocando o santo nome da produtividade e do laicismo em vão, e eu pergunto-me se não seria um acto cristão fazer chegar a essas boas almas um exemplar do “Le Droit à la Paresse”, de Paul Lafargue (um livro que devia fazer parte da Biblioteca Infantil da Esquerda Modernaça). Lafargue, ateu, marxista por práxis e afinidade (casou com uma filha de Karl Marx), não iria na conversa: defendeu a jornada de três horas (e tanto basta para fazer de mim uma Lafarguista convicta), elogiou o exemplo de Deus, que após seis dias de trabalho tirou férias por toda a eternidade, e denunciou há 130 anos a cruzada contra os feriados religiosos como uma manobra para boicotar o descanso dos trabalhadores. Acho que está na altura de o relermos.

“Sous l’ancien régime, les lois de l’Église garantissaient au travailleur 90 jours de repos (52 dimanches et 38 jours fériés) pendant lesquels il était strictement défendu de travailler. C’était le grand crime du catholicisme, la cause principale de l’irréligion de la bourgeoisie industrielle et commerçante. Sous la Révolution, dès qu’elle fut maîtresse, elle abolit les jours fériés; et remplaça la semaine de sept jours par celle de dix; afin que le peuple n’eût plus qu’un jour de repos sur dix. Elle affranchit les ouvriers du joug de l’Église pour mieux les soumettre au joug du travail.
La haine contre les jours fériés n’apparaît que lorsque la moderne bourgeoisie industrielle et commerçante prend corps, entre les XVe et XVIe siècles. Henri IV demanda leur réduction au pape; il refusa parce que « une des hérésies qui courent le jourd’hui, est touchant les fêtes » (Lettres du cardinal d’Ossat). Mais, en 1666, Péréfixe, archevêque de Paris, en supprima 17 dans son diocèse. Le protestantisme, qui était la religion chrétienne, accommodée aux nouveaux besoins industriels et commerciaux de la bourgeoisie, fut moins soucieux du repos populaire; il détrôna au ciel les saints pour abolir sur terre leurs fêtes.
La réforme religieuse et la libre pensée philosophique n’étaient que des prétextes qui permirent à la bourgeoisie jésuite et rapace d’escamoter les jours de fête du populaire.”
Paul Lafargue, “Le Droit à la Paresse”, pág. 37, nota 1

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6 Responses to Benditos feriados

  1. Já agora, dados os actuais tempos de pouca francofonia, existe tradução portuguesa: “O Direito à Preguiça e outros textos”, Editorial Estampa, 1977.
    Talvez os interessados consigam encontrar nessas barraquinhas de venda de monos que por aí vão aparecendo (e ainda bem).

  2. antonio diz:

    Não sei onde anda o meu…
    Talvez fosse de também lerem esse livro do Raoul Vaneigem, um desgraçado de um belga, o meu veio-me da “Barata”, Lxª.

    http://www.notbored.org/laziness.html

    Ainda me lembro de os gajús ‘situacionistas’ (?) da fac de Grenoble terem ganho — não mais que por acaso — umas eleições lá naquilo, e terem passado um ano a ‘ajavardar’ divertidamente toda a malta…

    🙂

  3. Xavier Brandão diz:

    Para os francófonos, é possível encontrar o texto de Paul Lafargue, digitalizado pela Bibliothèque Nationale de France, aqui: http://gallica.bnf.fr/Search?ArianeWireIndex=index&p=1&lang=PT&q=le+droit+a+la+paresse

  4. antonio diz:

    Digo o mesmo. Obrigado Xavier.
    Mais rápido assim

    🙂

  5. Pingback: cinco dias » Sórdidos galegos, duro bando. (posta épica)

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