Coisas para fazer durante um mundial (I)

Cheguei ao Treme quase por casualidade, na ressaca de Lost e desencantado de Flash Foward, Fringe, True Blood e um monte de más escolhas. Chegava com a referência de ser da HBO (The Sopranos, Six Feet Under, The Wire, Rome… mas também, pânico, True Blood). Afortunadamente é digna sucessora das primeiras e fica ao nível dos Sopranos ou Six Feet Under… ou pelo menos não muito atrás.

Uma das coisas que mais me fartava nas séries recentes é a teima de mostrarmos vidas de ricos: não falo já de coisas como Dirty Sexy Money, que conta a história de uma das famílias com mais massa da América, falo do Dr. House, Frasier, Dexter, Fringe, Mad Men, Californication, Modern Family… todas as personagens principais vivem sem pressões económicas, ao contrário, têm altos carros/motas, lindas casas e bastante desafogo nos gastos. Figuras sobre as quais podemos lançar os nossos desejos, pessoas que não vivem no nosso mundo.

Treme é diferente.

A acção deste drama moderno situa-se em New Orleans, seis meses depois do Katrina (Treme é o nome de um dos bairros daquela cidade). Pelo ecrã passa quem sobrevive, quem retorna, quem aproveita para fugir da cidade. Famílias que, como fala uma das personagens secundárias, “tinham uma quarta de água na casa… no segundo andar”. Principalmente é uma história de sacrifício, que fala de apanhar os cacos e começar de novo.

Se isto fosse pouco, contamos também com uma parte musical assombrosa. New Orleans é a cidade da música (onde dizem que, em condições normais, morrem mais pessoas a dançar do que na cama) e grande parte das personagens são músicos de profissão (aqueles odiosos seres que falam a língua dos deuses). Treme entra pelos olhos e provoca o primeiro sintoma nos pés, os quais começamos a mexer ao ritmo do jazz ou da música crioula. E, aliás, ao longo da primeira temporada (que ainda não acabou, faltam dois episódios) vamos assistindo sem nos sabermos a um mestrado sobre cultura popular americana.

Não quero falar mais sobre Treme, não me venha escapar algo e estropiar-vos a experiência. Deixo só a sintonia (impossível que saia da cabeça) e a intro. Façam-me caso. Vejam Treme.

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6 Responses to Coisas para fazer durante um mundial (I)

  1. Renato Teixeira diz:

    Está visto que o Treme vale a pena… a ver se roubo. Agora dizer que este Mundial não se está a preparar para ser o melhor de todos os tempos é manifesto impressionismo. Não sei que jogos tens andado a ver mas eu tenho gostado de ver o Gana, a Sérvia, o México, os EUA, o Paraguai e a Nova Zelândia. 🙂

  2. Antonio Mira diz:

    Caro Teixeira: Mas eu não faço comentario nenhum sobre o mundial…

    Olha que lindo! Metade das pessoas que chegam às minhas postas é só para apanhar erros gramaticais. Outra metade entendem o que querem… tamos bem, tamos…

  3. Henrique Pontes diz:

    Rush “Spartacus: Blood and Sand”, não se vai arrepender.

  4. miguel duarte diz:

    Apareceu hoje “algures” o último episódio da primeira série…

  5. guictx diz:

    António, para complementar Treme, é imprescindível ver as 5 temporadas de The Wire, a primeira série do David Simon. Nunca se viu em televisão uma desconstrução tão rigorosa das instituições democráticas pós-modernas.

  6. Antonio Mira diz:

    Pois a verdade é que o Spartacus não me tinha bom cheiro… mas seguirei a recomendação, pelo menos um par de capítulos. O Wire sim, já está na minha lista de coisas para ver em 2010.

    E, efectivamente, hoje ficou completa a primeira temporada do Treme. Iremos procurar no algures de costume 😉

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