«Tacanhez sem limites», de Andrea Peniche

Reproduzo aqui um excelente texto da Andrea Peniche, no Minoria Relativa.

Cavaco Silva, em Julho de 2008, interrompeu as suas férias para fazer uma comunicação ao país sobre o estatuto político-administrativo dos Açores. Pela voz de um dos seus assessores soubemos «que só uma razão verdadeiramente importante levaria o Presidente a interromper as suas férias».

Cavaco Silva, em Junho de 2010, não interrompe as suas férias para assistir e representar o Estado português no funeral de José Saramago.

A animosidade entre ambos é conhecida: António Sousa Lara, subsecretário da cultura do então Primeiro Ministro Cavaco Silva decidiu, em 1992, e com o apoio deste, afastar «O Evangelho Segundo Jesus Cristo» de um prémio literário europeu. A justificação foi clara: «A obra atacou princípios que têm a ver com o património religioso dos portugueses. Longe de os unir, dividiu-os» e «o livro não representa Portugal nem os portugueses».

Não é por medo do confronto que Cavaco Silva não vem ao funeral de José Saramago. Cavaco é destemido, caso contrário não passaria férias numa região cujo estatuto político-administrativo vetou reiteradamente e que até pôs fim à famigerada cooperação estratégica entre São Bento e Belém.

Cavaco Silva não interrompe as férias porque a sua mediocridade e tacanhez não têm limites.

Correr com ele da Presidência da República é, cada vez mais, um imperativo.

Como é evidente, não podia estar mais de acordo.

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7 Responses to «Tacanhez sem limites», de Andrea Peniche

  1. Abílio Rosa diz:

    Cavaco Silva não é o Presidente- de -Todos-os-Portugueses.
    Representa-se a si mesmo ou quanto muito ao seu círculo social mais próximo.
    É detestado pela direita histórica das ideias; tolerado pela direita dos interesses e recebe apoios dum arco central abúlico, acrítico e que diz muito do atoleiro a que nós chegámos.
    Cavaco como economista é mediocre. Nunca fez nada que não fosse dentro da esfera burocrática pública ou dentro duma politica calculista e retrógada.
    Como politico é rancoroso, sonso e seca tudo à sua volta, inclusivé o seu próprio partido de origem.
    É sintomático como um partido como o PSD – com personalidades muito multifacetadas e até algumas interessantes do ponto de vista politico e intelectual – esteja há mais de vinte anos dependente dos humores desta personagem e completamente de cócoras perante tão fraca figura.
    Actualmente, este PR é o retarato vivo «deste» país e da «sua governação». Um país devastado, socialmente injusto, em clima de pré-guerra civil.
    Um PR que é o símbolo vivo da endémica Social-Medocracia.
    Lá, na eternidade, José Saramago deve estar feliz por este PR não estar nas suas cerimónias funebres.
    Quem nasceu largatixa nunca chega a jacaré!

  2. miguel serras pereira diz:

    Caro Carlos Guedes,
    vejamos as coisas com mais calma.
    Por muito que queiramos correr com Cavaco – já que não será desta ainda, creio, que nos livraremos dessa instituição unipessoal antidemocrática por excelência que é o Chefe de Estado -, devemos reconhecer que, digamos, qualquer homenagem que Cavaco pudesse prestar a José Saramago seria sempre negativa, passando por evitar rigorosamente a sua presença nas cerimónias fúnebres.
    A presença de um Chefe de Estado no funeral de um escritor está tende a estar mais próxima do enxovalho, da ocultação ou deturpação da obra que lhe devemos do que da homenagem que esta mereça. É o Chefe de Estado que se honra à custa do escritor e capitaliza em proveito próprio a homenagem que afecta prestar-lhe. É lamentável que Francisco Louçã – como procuro explicar neste post http://viasfacto.blogspot.com/2010/06/o-que-e-e-o-que-nao-e-honrar-um-homem.html – não tenha sabido estar calado em vez de reconhecer solenemente a Cavaco Silva o poder de honrar José Saramago, acusando-o de não estar presente nas cerimónias fúnebres, quando essa presença é que configuraria uma ofensa gratuita à memória do escritor.

    Cordias saudações democráticas

    msp

  3. Também não poderia estar mais de acordo, mas também já nada surpreende do professor Cavaco.
    Mediocridade e tacanhez (e iliteracia cultural, caso se queira acrescentar) são características que já lhe conhecemos há muito…

  4. Andrea Peniche diz:

    Caro MSP,
    Até ver, o Francisco Louçã não fala por mim e por isso eu falarei sobre o que penso e escrevi.
    Percebo o que queres dizer e até concordo que Cavaco não honra Saramago, mas a questão, do meu ponto de vista, não é essa. A questão é que ele, para o bem e para o mal, é Chefe de Estado e a mim causa-me estranheza que não interrompa as suas férias para estar presente no funeral de uma personalidade que, mais dia menos dia, irá para o Panteão nacional.
    Independentemente do que acho de Cavaco, independentemente do que Saramago achava de Cavaco, independentemente do que achemos das instituições ele é Chefe de Estado e a sua presença no funeral significa o reconhecimento do Estado português do valor de Saramago. Para o bem e para o mal, a presença de Cavaco está coberta de valor simbólico. E acho que faz parte das atribuições do Presidente da República engolir sapos. Cavaco estará ausente porque é medíocre e não por verticalidade ou respeito a Saramago. Hipócrita é ele todos os dias, nomeadamente quando fala da «fuga de cérebros» e faz de conta que Sousa Lara não era subsecretário de Estado do governo dele.
    A questão não é pois sobre honrar Saramago. A questão é sobre a tacanhez de Cavaco.
    Um abraço.

  5. miguel serras pereira diz:

    Cara Andrea e caro Carlos,
    antes do mais, as minhas desculpas por não ter respondido directamente à Andrea, como teria sido mais correcto.
    Quanto ao fundo da questão, o que se passa é que me parece que vai sendo tempo de denunciarmos a própria instituição – democraticamente mais do que suspeita – da Chefia de Estado. A ser necessária uma magistratura simbólica da república para certos efeitos protocolares ou afins, um Presidente da República, que não fosse “chefe de Estado” (nem pelo título nem pelas atribuições arbitrais, executivas e moderadoras), de preferência tirado à sorte e com relativa frequência, seria mais do que suficiente.
    Não são políticos competentes que nos faz falta e que pode fazer a diferença – mas antes cidadãos activos e responsáveis deliberando e decidindo entre iguais as medidas e leis por que se governem.

    Abraço sem deus nem chefe para ambos

    msp

  6. Ana Cayola diz:

    Outra coisa não era de esperar deste medíocre comedor-de-pastéis-de-bacalhau.de-boca-aberta que temos como presidente. Ainda bem que não foi e ainda bem que fica demonstrado que as instituições actuais são representadas por gentinha desta laia.

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