A ideologia da bola


A vedeta da selecção norte coreana, que escolheu a Coreia do Norte, a falar português

“porque aos meus olhos o esforço e esperança presentes na face de cada dos jogadores da Coreia do Norte completa uma das mais fúnebres coreografias que alguma vez vi num campo de futebol; vão ser jogos onde teremos a possibilidade única de assistir em directo à exclusão completa e pura do que devia ser a alegria de se ter ganho o privilegio de participar na mais bela e profissional competição desportiva do universo, substituindo-a por um cortejo de desespero e ansiedade que o futebol e o desporto nunca pediu. O desporto deve preferir sempre os que correm apenas o suficiente àqueles que se esticam até à morte porque não podem imaginar mais nada.”

maradona in A causa foi modificada

Esta frase do maradona é bonitinha, provoca os desmaios na plateia, mas é falsa. Cheira-me que o autor escreveria a mesma passagem independentemente do comportamento da selecção da Coreia do Norte. Fizessem os jogadores norte coreanos tabelinhas sucessivas com duplos mortais, com pirueta encarpada, ou jogassem como jogaram, maradona garantiria a pés juntos que eles são a imagem chapada de uma ditadura. Várias famílias frente à pantalha ficariam, certamente, mais descansadas com essa ideia peregrina de que o bom comportamento democrático dá golos. O corolário dessa tese que associa as “boas práticas” à bola não ficaria por aqui: as 100 santinhas que rezam para que Bagão Félix seja candidato presidencial também têm, provavelmente, fé que os sentimentos cristãos e a abstinência sexual sejam os instrumentos fundamentais para abençoar o campeonato de Carlos Queiroz. Temo que, infelizmente, a bola seja alérgica a todos esses piedosos votos. O desporto-rei é coisa de pecadores empedernidos.
E, mais chato, o futebol não expressa a liberdade dos povos: Portugal teve Eusébio e Coluna durante o fascismo e a Argentina ganhou brilhantemente o mundial nos tempos sangrentos da ditadura militar. Por sua vez, a Suíça tem paz e democracia há séculos e joga o futebol mais feio que o mundo pariu – próprio de um país que tem como única glória ter inventado o relógio de cuco. Futebol tem pouco de política, tirando no filme do Silvester Stalone (ironicamente o acontecimento real que serviu de base ao argumento desse filme passou-se com uma equipa de prisioneiros soviéticos que derrotaram os nazis).
A explicação do que se passa no relvado pode ser fruto da cultura, biologia, geografia, culinária e Nigella, geologia, astromia e até tarot, mas, definitivamente, a política não é para aí chamada.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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45 respostas a A ideologia da bola

  1. eb diz:

    isto de estereotipar um país é bonito.
    os suiços até podem no geral ser uns anormais, mas ninguém lhes tira o enorme contributo que deram em diferentes áreas, para além dos ditos relógios ou chocolates.
    Corbusier, Einstein e Maillart são uma pequena amostra da genialidade que esse país produziu.

  2. Renato Teixeira diz:

    O Galamba a citar o Maradona que por sua vez é o blogger preferido da Morgada. Hum… Não sei de qual dos três desconfiar. 🙂

    Agora que futebol é, ou pode, ser político, não haja dúvidas. A entrevista que mostras é uma boa prova disso mesmo. Mas lá está… isto pode ser só coisa de um gajo da Académica.

  3. xatoo diz:

    ele é o “desporto deve prá qui”, o “desporto não deve” prá colá. Dei-me ao incómodo de lhe fazer notar que competição profissionalizada comercial não é de todo “Desporto” no uso saudável do termo, mas o tipo apagou-me o comentário.

  4. xatoo diz:

    é o que faz vcs fazerem links para um gajo ir parar a sítios esquisitos

  5. miguel diz:

    Os olhos do maradona vêm na “face de cada dos jogadores da Coreia do Norte” aquilo que o maradona quer ver. Da mesma forma que os olhos do Miguel Serras Pereira vêm no comentário “Blá blá blá blá blá….” a apologista da onomatopeia, do urro antidemocrático e todo um programa político nefasto que contraria a cidadania governante.

    Diga (ou faça) o adversário o que disser (ou fizer), será sempre prova da condição a que a priori já foi condenado.

  6. miguel diz:

    Claro que é “a apologia” e não “a apologista”.

  7. eh,
    O estereótipo que não reconheceu, é baseado no diálogo de abertura de Orson Welles no Terceiro Homem. http://www.youtube.com/watch?v=LDplfsZxrbg&feature=related
    Isso do Einstein ser suiço é uma certa liberdade, de facto ele terá andado por lá, mas era judeu e nasceu na alemanha. Faz uma certa diferença. E têm o futebol quase tão feio como o Lichenstein.

  8. LM r diz:

    Einstein desistiu da cidadania alemã e tornou-se suíço em 1901.
    Mas a boutade do Welles está errada por dois lados: na suposta paz semi-milenar de que a Suíça teria beneficiado e nessa tontice dos relógios de cuco.
    No tempo dos Borgias, andava a Confederação Suíça envolvida em guerras sem fim. E forneciam ferozes mercenários a meio mundo, incluindo os papas.
    Quanto à Arte, fico-me pelos suíços que aprecio: Arnold Böcklin, Johann Heinrich Füssli (Fuseli), Alberto Giacometti, Paul Klee, Meret Oppenheim, Niki de Saint Phalle, Jean Tinguely. Depois, há que não esquecer pormenores como Le Corbusier ou o Cabaret Voltaire
    Tomara nós.

  9. mdsol diz:

    Ou seja, o jogador é uma individualidade tão natural que não é minimamente influenciado pelo meio. Ou seja, o que cada um é e o modo como está (também no desporto) é imune e independente do que o cerca. Ou seja, o rendimento desportivo deriva unicamente restringe-se das condições de treino de natureza fisiolóica, biomecânica e das habilidades técnicas e tácticas específicas da modalidade. Os aspectos psico-sociais não estão presentes no rendimento desportivo. Ainda: o sentido, o significado dado por cada um à participação desportiva, não interessa nada para o seu empenhamento.

    [Aviso já que não sou da vossa divisão (vossa: colectivo de autores e comentadores habituais). Além de andar por aqui numa modalidade individual, isto para mim é meramente lúdico, recreio, no sentido mais básico que os conceitos de paidia (não é gralha de paideia, é mesmo paidia) e ludus podem ajudar a esclarecer. Portanto, a dominante dos meus propósitos não é agonista, não quero ganhar nada, nem sequer quero competir, como estou a dizer expressamente.]

  10. Paulo Matos diz:

    “a Argentina ganhou brilhantemente o mundial nos tempos sangrentos da ditadura militar.” Terá sido mesmo “brilhantemente”? Sem interferência política? Conhece esta história: http://www.guardian.co.uk/football/2008/apr/16/newsstory.sport15?

  11. Se me pudessem informar, agradeço já em antecipação, gostaria que me indicassem o post onde falam dos 4 futebolistas que desertaram. Obrigado.

  12. Nuno Ramos de Almeida diz:

    LMr,
    Sim, tem razão é uma simplificação, tirando a parte do futebol.Embora eu que lá vivi, garanto-lhe que é uma simplificação relativa. O Einstein tinha uma frase genial acerca da sua teoria, era mais ou menos assim: se a minha teoria da relatividade for certa, os alemães vão-me chamar alemão, os suiços vão-me chamar suiço e os franceses cidadão do mundo. Se tiver errada, os franceses vão-me chamar suiço, os suiços vão-me chamar alemão e os alemães vão-me chamar judeu”.

    Daniel Santos,
    O seu comentário não tem que ver com este post. Tente abstrair-se do país, concentre-se, soletre, apreenda as palavras, pense nelas. Conseguiu? O post é sobre política e futebol. Percebeu?

  13. Pronto, já vi que não se pode perguntar nada.

    E o que eu perguntei não tem a ver com politica e futebol?

    Vamos lá ver. Tocava o hino da Coreia e o capitão chorava, jogavam conforme se dizia por ali por amor ao “Querido líder”. Acaba o jogo e passado um dia, mais ou menos, quatro jogadores “desertam” da equipe de futebol.

    Será impossível dizer que ali o futebol e a politica não estão ligados.

    Se fui mal compreendido na minha questão, peço desculpa.

  14. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Meu caro Daniel Santos,
    Repito-lhe o que disse num comentário no 31 da Armada. Este post conversa com um texto do maradona sobre o futebol e o seu condicionamento pela política. Ele parece defender que um país livre tem tendencialmente melhor futebol que uma ditadura como a Coreia do Norte. Eu defendo que há péssimas ditaduras com excelente futebol, veja-se o caso da Argentina, Brasil durante as suas ditaduras. Só isso. Não é para aqui chamada as características e história da Coreia. Por isso, não percebo pq me falam dos tipos que fugiram. Por mim, podiam ser todos, sem que isso alterasse uma vírgula do meu texto.

  15. Cisto diz:

    a ignorancia da riqueza da cultura suica (ler suissa) so tem paralelo com a analise que fazes do seu futebol.

  16. Harry Lime diz:

    Mas a Coreia do Norte joga um futebol bonito? Pelo que eu vi, e’ tao bonito como o da Suica (ou seja: estaciona o autocarro ca’ atras e espera…)

    Ja’ agora nesta historia de ditaduras e de futebol ha’ muito que se lhe diga. Vamos aos numeros.

    A Argentina venceu dois mundiais: um em ditadura, outro em democracia. O seu futebol e’ bom mas temos de reconhecer que o Mundial de 1978 foi aldrabado a favor da Argentina (a famosa vitoria por 6-0 contra o Peru).

    O Brasil venceu 5 Mundiais… mas apenas 1 nos mais de 20 anos de ditadura. E’e de assinalr que nos 20 anos anteriores ‘a implementacao da ditadura militar, o Brasil venceu 2 mundiais (58 e 62) e nos 20 anos posteriores outros 2 (94 e 2002). Mesmo o Mundial de 70 foi ganho com as estrelas herdadas das campanhas de 62 e 66 (nao muito boa)… Convenhamos que mais uma vez o score a favor da ditaduras nao e’ muito bom.

    Continuando, os obvios: a alemanha nao venceu qualquer mundial (nem sequer ascendeu a lugares de honra) nos mundiais dos anos 30 (no periodo do nazismo). No entanto tem nada mais nada menos do que 3 mundiais desde o fim da Guerra com o primeiro em 1954.

    A unica potencia do futebol em que a ditadura fica em pe’ de igauldade com a democracia e’ a Italia: 2 mundiais no tempo do Mussolini e 2 depois.

  17. Harry Lime diz:

    E depois, temos exemplos crassos de paises de sucesso noutra modalidades que nao transferiram o seu sucesso para o futebol: a URSS e a RDA sempre ficaram aquem das suas possibilidades.

    O caso da RDA e’ particularmente interessante: com uma infraestrutura desportiva superior ‘a da RFA em todos os aspectos e com mateira prima humana do mesmo calibre, a RDA consequiu produzir ginastas, atletas, nadadores mas sempre falhou nos desportos colectivos, especialmente no futebol, desporto em que a RFA foi uma das maiores potencias.

    Alias, seria interessante analisar o caso da RDA: porque e’ que produziu atletas excelente nos desportos individuais e nunca foi muito longe nos colectivos? Na RFA ali mesmo ao ladoa conteceu o contrario. Isto em sociedades “geneticamente” semelhantes em que a unica diferenca e’ (surpresa! surpresa!) o regime politico!

  18. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Harry,
    A única vez que jogaram um mundial, por acaso, a RDA ganhou à RFA em casa da RFA. Mas, de facto tinham mau futebol. O que já não se pode dizer da Hungria, da Checoslováquia, da Jugoslávia e até da União Soviética. Se bem me lembro, até clubes desses países ganhavam algumas competições.
    Esse argumento imbecil do regime político e do desporto, lembra-me sempre um texto de intelectuais Ocidentais durante a disputa mundial do título de Xadrez de Karpov com Korchnoi a garantir a superioridade do segundo, pq só homens “livres” podiam praticar superiormente Xadrez. Alguém se esqueceu de explicar aos amiguinhos que a URSS da altura tinha 80 % dos xadrezistas… e a propósito foi Karpov que ganhou.

  19. Manel Z diz:

    Nuno Ramos de Almeida,

    Custar-lhe-á assim tanto admitir que a Coreia do Norte é um regime de merda?

    Cumprimentos.

  20. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Manuel Z,
    Não me custa nada reconhecer isso. A si custa-lhe perceber o post?

    Cumprimentos,
    Nuno

  21. Harry Lime diz:

    A única vez que jogaram um mundial, por acaso, a RDA ganhou à RFA em casa da RFA

    Grande coisa! Nesse ano, em 1974, a RFA foi campea do Mundo, a RDA nem passou da primeira fase. Foi uma vitoria para ingles ver.

    Assim, como estes tipos da Coreia do Norte. Lutaram como uns doidos contra o Brasil (ate’ marcaram 1 golo!). Agora, se Deus quiser vao levar 3 ou 4 de Portugal e outros tantos da Costa do Marfim.

    A alta competicao desportiva nao se coaduna com actos heroicos (tao ao gosto dos ditadores deste Mundo)

    A URSS ganhou 1 europeu nos anos 60 e chegou ‘a final de outro nos anos 80. A RDA nunca ganhou nada. Nunca nenhum pais da esfera comunista ganhou nenhum titulo mundial (e apenas chegaram a uma final… penso que foi a checoslovaquia em 1962)

    Mas para mim, a prova dos 9 reside na Alemanha: e’ que ali temos 2 povos identicos em termos “geneticos” que durante 40 anos foram submetidos a regimes diferentes. Porque e’ que um deles foi campeao do Mundo 3 vezes e o outro nenhuma? (mesmo tendo em conta que a RDA era bastante mais pequena do que a RFA, podemo-nos perguntar porque e’ que conseguoiu produzir um numero tao desprporcionado de ginastas, atletas (de atletismo :):): ), nadadores e nao conseguiu produzir futebolistas (ou equipas de futebol).

  22. Harry Lime diz:

    Alias, seguindo a mesma logica podemo-nos perguntar: entao e a Coreia do Sul?

    A Coreia do Sul com a mesma materia prima humana consegue produzir seleccoes muito melhores que as da Coreia do Norte com inumeras participacoes em Mundiais, com chegadas aos 1/4 de final e ate a uma meia final. O mesmo pais, o mesmo povo: a diferenca? O regima politico.

  23. Harry Lime diz:

    O argumento nao e’ imbecil. E e’ evidente que ha’ diferencas culturais nas tradicoes dos povos. Por exemplo, nao podemos comparar a tradicao xadrezista russa com a americana. O a pratica de basebol nos EUA e, digamos em Portugal. E nacaso do Karpov contra o Korchnoi estamos a falar de 2 xadrezistas russos, criados no seio da mesma tradicao (mesmo que um tenha fugido para o Ocidente)

    Agora, os casos da Alemanhas e das Coreias deveriam fazer-te pensar. Sao experiencias “giras” e fazem-nos pensar: que influencias e’ que um regime politico tem nas sociedades. E o futebol e’ uma expressao da sociedade.

    Alias, toda a gente fala no futebol como expressao nacional (a fantasia brasileira, a competitividade italiana, o espirito comunitario holandes) porque e’ que se ha=de para de falar nestes termos quando de repente falamos numa sociedade completamente moldada por um regime corrupto e filho da puta?

  24. Harry Lime diz:

    E eu mantenho que o futebol da Coreia do Norte e’ tao insipido como o da Suica. Porque ‘e que censuramos uns e aplaudimos os outros?

    PS. Marcaram um golo? Parabens! Olha, tambem os Suicos!

  25. Nuno Ramos de Almeida diz:

    HL,
    A Coreia do Norte joga a mesma merda do que a do Sul. Em termos de historial a Coreia do Norte, com a mesma ditadura, fez um grande campeonato e chegou tão longe quanto a do Sul, chegou aos quartos de final, e ao contrário dos seus vizinhos do Sul, fizeram-no fora de casa.
    Acho simplista a ideia que o futebol pq é criativo dá-se mal com ditaduras. Sinceramente, acho que se dá pior com falta de dinheiro e de jogadores que joguem em campeonatos ricos.
    A ideia que o futebol como é um desporto criativo é melhor jogado por gente livre é interessante, mas nada a prova. O futebol não é o único jogo colectivo que exige criatividade. Basta olhar para o campeonato mundial de volei, andebol ou basquetebol para perceber que ser um país democrático não garante a primeira posição a ninguém.

  26. Harry Lime diz:

    A Coreia do Norte joga a mesma merda do que a do Sul. Em termos de historial a Coreia do Norte, com a mesma ditadura, fez um grande campeonato e chegou tão longe quanto a do Sul

    Mas a Coreia do Sul chegou ‘as meias finais em 2002… :):):)

    E mais a Coreia do Sul tem 7 (!!!) presencas em Mundiais a Coreia do Norte tem 2. (fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Korea_Republic_national_football_team#World_Cup_record)

    Acho que a diferenca de valor entre as duas seleccoes ao longo do tempo e’ patente. O que mais uma vez e’ de admirar dado que ambas possuem a mesma cultura, as mesmas tradicoes, as mesmas caracteristicas fisicas… Nesse caso, perguntome: porque as divergencias no valor duma e doutra?

    PS. E va la nao fiques nao nervoso. Eu mantenho facto: a Coreia do Norte jogou o mesmo futebol de “estacionar o autocarro” que muitas seleccoes neste mundial jogaram. A diferenca destes sao 3:

    – choram no hino,
    – alugam adeptos (http://www.thisislondon.co.uk/standard/article-23845657-north-koreas-world-cup-fans-who-are-really-volunteers-from-china.do)
    – tem jogadores a pedir asilo politico (http://www.thefirstpost.co.uk/64744,sport,football,did-four-north-korean-players-try-to-defect-).

    Concordo que nem a Suica, nem a Coreia do Norte se podem gabar destes feitos.

  27. Harry Lime diz:

    Acho simplista a ideia que o futebol pq é criativo dá-se mal com ditaduras. Sinceramente, acho que se dá pior com falta de dinheiro e de jogadores que joguem em campeonatos ricos.
    A ideia que o futebol como é um desporto criativo é melhor jogado por gente livre é interessante, mas nada a prova. O futebol não é o único jogo colectivo que exige criatividade. Basta olhar para o campeonato mundial de volei, andebol ou basquetebol para perceber que ser um país democrático não garante a primeira posição a ninguém.

    Eu tambem acho que, se calhar, e’ simplista… mas os factos se calhar levam-nos noutro sentido. Partido do mesmo ponto ponto de partida e altearando apenas o regime politico : a RFA conseguiu ser muito melhor do que a RDA e a Coreia do Sul muito melhor do que a Coreia do Norte…

    Estes sao os factos. A partir daqui, podes tirar as conclusoes que te apetecer.

    E’ evidente que por mais ditatorial que sejam os EUA e por mais democratico que Portugal seja, nos nunca conseguiremos bater os EUA em basketball.

    Mas, como has-de reconhecer, os casos das Coreias e das Alemanhas sao diferentes.

  28. Nuno Ramos de Almeida diz:

    HL,
    Não estou nada nervoso. A Coreia do Norte é um país subdesenvolvido. A Coreia do Sul é um país com o dobro da população e muito mais rico. Isso conta em qualquer desporto. Não vês a Coreia do Norte com mais medalhas olímpicas em relação à sua congénere do Sul.
    http://cotidianosantanaemfoco.wordpress.com/2008/07/17/ranking-de-medalhas-olimpicas-por-pais/
    Aquilo que eu defendo é simplesmente que não há nenhuma relação entre a política e o jogo das equipas de futebol. Como não há no volei, no hoquei em gelo, no andebol e no basquete. Estou perfeitamente calmo. Blogo para me divertir. Raramente me chateio e tenho às vezes duvidas.

  29. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Sim, se esse fosse o único factor que variasse. Por exemplo, a RFA tinha 5 vezes mais população do que a RDA. A Coreia do Norte tem menos de metade da população da Coreia do Sul.
    Por outro lado, não creio que o volei, o basquete e o andebol, por exemplo, sejam menos criativos que o futebol. E nesses, essa pseudo relação da criatividade-democracia não se verifica. Embora, seja verdade, que a RDA tenha sido sempre melhor em desportos individuais que colectivos.
    Mas esta discussão esta a repetir-se. Cada um de nós já argumentou. Não somos obrigados ter a mesma opinião.

  30. Harry Lime diz:

    Sim, se esse fosse o único factor que variasse. Por exemplo, a RFA tinha 5 vezes mais população do que a RDA. A Coreia do Norte tem menos de metade da população da Coreia do Sul.

    Vamos la’ ver se os feitos desportivos fossem proporcionais ‘a populacao entao a RDA teria pelo menos um europeu (ou, com sorte, um mundialzito). Mais teria concerteza mais do que uma taca dos clubes campeoes europeus. A RFA pelo contrario teria uma presenca no atletismo absolutamente esmagadora, maior que a URSS e os EUA juntos (nao sei se te lembras mas a RDA, no atletismo era uma potencia brutal, do mesmo calibre dos EUA especialmente no atletismo feminino).

    A Coreia do Norte pelo contrario teria pelo menos 3 presencas no Mundial (ok, tem duas…) e pelo menos uma Taca das Nacoes Asiatica ( a Coreia do Sul tem 2, a Coreia do Norte tem nenhuma).

  31. Harry Lime diz:

    O que esta’ aqui em causa e’ que, sendo o desporto uma arma politica (e e’-o, em qualquer contexto) sera’ mais importante numa sociedade altamente politizada do que numa nao politizada.

    Acontece que os desportos colectivos sao lixados. Nao e’ facil domesticar uma serie de jogadores da bola: geram-se lealdades dentro de uma equipa (seja de futebol, basket, andebol, etc) com as quais uma sociedade politizada nao lida muito bem. Exemplo: um bufo numa equipa da bola e’ leal ‘a equipa ou ao Partido?

    E quando os colegas de equipa descobrem que ele e’ bufo (ou seja que tem outra lealdade que nao a da equipa) podem muito facilmente segrega-lo (nao lhe passam a bola durante o jogo por exemplo).

    Por outro lado, num desporto de equipa muitas vezes surgem liderancas dentro da equipa que podem nao ser as “convenientes” para o partido: o que fazer quando o melhor jogador da equipa, um exemplo para os seus colegas e um idolo para a multidao de domingo ‘a tarde nao esta’ “alinhado”? Lixado…

    Esta e’ a hipotese que eu ponho para o facto de na RDA, os desportos de equipa nunca terem tido o sucesso dos individuais (num desporto individual e’ simples: “fazes o que a gente quer ou vais de volta par o buraco donde vieste… ha’ muitos como tu a fazer fila ‘a volta do quarteirao”).

    E mais uma vez repito que o caso das duas Coreias e das Alemanhas

    Se reparares, eu neste post falei apenas duma coisa: politica. E a forma como ela influencia as politicas desportivas de cada pais.

    PS. E ja’ agora porque queres acabar a conversa? Ve mas e’ este video: http://www.youtube.com/watch?v=7xRgZF-x-EA

  32. Harry Lime diz:

    So’ uma pequenina linha como conclusao ao video que postei anteriormente: a ideia de que um jogo de futebol pode ser “cientifico” (e especialmente cientifico da forma como os sovieticos entendiam a ciencia) e’ puramente politica e e’ fruto daquele sistema poltico em particular…

    Eis um exemplo do que tu nao queres admitir: que o sistema politico de um pais nao afecta a seu futebol.

    Mais uma vez, eu deixo-te os factos: as conclusoes, tu tiras as que quiseres… (ate’ podes tirar conclusoes que contradigam os factos mas ai’ corres o risco de fazer figura de urso :):):):) )

  33. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Vi o vídeo. Mt bom. Mas continuo a achar que a criatividade de Garrincha não era assunto de Estado. O Brasil tinha tido a ditadura de Getúlio Vargas (O Estado Novo). Em 1964 começou a ditadura militar e não consta que o futebol tenha sido mau. Na Argentina e no Brasil independentemente do regime político sempre se jogou bom futebol e creio que nunca perderam com a democrática Finlândia.
    Em Portugal dizia-se que se vivia na tríade: fátima, fado e futebol. E tínhamos ditadura.
    Se queres que te diga, acho que a forma de jogar futebol é mais uma questão de cultura, fisiologia dos jogadores e dinheiro que uma questão política. As equipas asiáticas jogam todas o mesmo tipo de futebol.As que jogam melhor, são as que têm mais dinheiro, campeonatos mais competitivos e mais jogadores no estrangeiro.
    Na Europa de Leste, os hungaros, polacos, checos, jugoslavos sempre jogaram bom futebol. Repara, se a tua teoria fosse certa o melhor pais a jogar futebol na ex-jugoslavia seria a Eslovénia. É o país mais liberal do ponto de vista político e de costumes. É simplesmente, a pior a jogar futebol. A Croacia e a Sérvia estão a anos luz.
    A melhor selecção Polaca de sempre jogou em 1974, durante o regime comunista. Tinham Lato e outros, obtiveram o 3º lugar. Em 1982, voltaram a obter o 3º lugar, ainda durante o regime comunista. Nunca mais obtiveram esta classificação e têm feito jogos de merda. Há dezenas de provas que essa teoria que associa a democracia liberal ao futebol não funciona. É apenas isso que eu quis dizer.

  34. JMJ diz:

    Harry,
    partindo do seu ponto de vista, explique-me então como é que o sistema politico afecta o seu futebol. Qual a relação? Uma ditadura de direita cria um futebol mais baseado no 4-3-3 ou no 4-4-2? Um regime comunista aposta mais no fora de jogo ou prefere defender mais perto da área? Uma democracia ocidental gosta mais de usar 1 ou 2 trincos?

    Ou seja, se existe relação, qual é a relação?

    A verdade é que o futebol é um desporto bastante simples. Desde o fim da 2ª G. guerra, Brasil e Alemanha estiveram (1 deles, pelo menos) em todas as finais menos 2006 e 78. Qual era a sua vantagem? São os 2 paises com mais jogadores federados no mundo.

    O sucesso dos paises socialistas nos jogos olimpicos deve-se quase em exclusividade ao facto de terem promovido a prática desportiva de massas, como elemento de desenvolvimento social, particularmente no âmbito das mulheres.

    Por outro lado, e visto que muitas vezes não havia condições para o desenvolvimento de estruturas profissionais, houve desportos em que não conseguiram competir. Foi o caso do futebol, que é talvez o desporto mais profissional e global.

    Quanto à diferença entre as duas alemanhas e as duas coreias, ela não existe. Michael Ballack (que é o capitão-ausente da Alemanha) nasceu na RDA, e não é menos jogador por isso. Quanto à Coreia do Sul, depois da estreia em 86, só conseguiu ganhar 1 jogo em 2002 (12 jogos depois), em casa, e sempre tendo por base um jogo feito de sprints e velocidade.

    Quanto à qualidade de futebol vindo do lado de lá da “Cortina de Ferro” só posso remeter para a fantástica equipa do Dinamo de Kiev, do Belanov, Demianenko e treinada pelo Lobanovsky que destruiu o Atlético de Madrid na final da taça das taças. Isso sim, era uma equipa.

  35. Harry Lime diz:

    JMJ,

    Nao tem a ver com isso. Se tiveres lido o que eu escrevi, percebes.

    Nao e’ tanto o estilo de jogo mas as escolhas que sao feitas em termos dos desportos em que se investe e nas razoes pelas quais o investimento e’ feito. E a discussao e’ muito mais vasta do que o futebol.

    Por isso e’ que eu gosto do exemplo das Alemanhas: dois paises, o mesmo ponto de partida: o que muda o sistema politico?

    Um dos paises torna-se campeao absoluto em desportos individuais (o menos democratico, a RDA). Outro torna-se uma potencia num dos desportos colectivos, o futebol, jogando um futebol que se pauta pelo colectivismo e pela cooperacao. Curiosamente, este pais e’ o mais “individualista”: a RFA…

    O mesmo padrao se observa entre as duas Coreias… a Coreia “capitalista” brilha nos desporto colectivo por execelencia (o futebol)… A Coreia colectivista, o que faz?

    Reparem que eu me limito a enumerar factos… Voces tiram as conclusoes que vos convierem mesmo que contradigam os factos 🙂 🙂

    Atencao, eu nao estou a tirar

  36. Harry Lime diz:

    Quanto à qualidade de futebol vindo do lado de lá da “Cortina de Ferro” só posso remeter para a fantástica equipa do Dinamo de Kiev, do Belanov, Demianenko e treinada pelo Lobanovsky que destruiu o Atlético de Madrid na final da taça das taças. Isso sim, era uma equipa.

    Esse Dinamo de Kiev (ao qual eu nao tiro qualidades, a seleccao ucran… perdao, sovietica dos anos 80 era brilhante) foi um dos 4 clubes do Bloco de Leste que venceu uma Taca das Tacas em quase 40 anos de historia… As excepcoes acontecem… (fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/UEFA_Cup_Winners'_Cup#Cup_Winners.27_Cup_finals, curiosamente, o Magdeburgo da RDA foi uma delas 🙂 🙂 🙂 )

    Mas se queres saber, eu pessoalmente prefiro a equipa do Milan que demoliu o Steau de Bucareste na final da Taca dos Campeoes de 88/89. E suspeito que tu, se tirares os teus oculos politicos, tambem…

    (o Steaua de Bucareste, recorde-se, foi a unica seleccao do Bloco de Leste a vencer uma Taca dos Campeoes, fe-lo em 85/86. Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_European_Cup_and_UEFA_Champions_League_winners)

  37. Harry Lime diz:

    Quanto à diferença entre as duas alemanhas e as duas coreias, ela não existe. Michael Ballack (que é o capitão-ausente da Alemanha) nasceu na RDA, e não é menos jogador por isso.

    Tu falas no Ballack e eu acrescento outros: o Mathias Sammer e o Olaf Thon… O que me leva a perguntar: porque e’ que a RDA produziu grandes jogadores mas nao produziu grandes equipas? Porque no fundo, quem ganha jogos e campeonatos sao equipas e nao jogadores, nao e’?

  38. Nuno Ramos de Almeida diz:

    HL,
    Sobre tudo o que eu escrevi não respondeste nada. Talvez, pq esses factos, nomeadamente a Polónia, não encaixem nas tuas conclusões.

  39. Harry Lime diz:

    Sim, a Polonia chegou ‘as meias finais do Mundial de 82, so what? A URSS era optima em basket e em hoquei em gelo, so what? E’ uma questao de tradicoes. Da mesma forma os EUA sao fortes em basebol e em basket.

    Tu e’ que nao estas a compreender o meu argumento em relacao ‘as Alemanhas. As Alemanhas sao interessantes porque partindo do mesmo ponto de partida e alterando apenas o regime politico chegaram a resultados e prioridades radicalmente diferentes.

    E’ uma experiencia, ‘a falta de palavra melhor, “cientifica”: temos dois tubos de ensaio com condicoes identicas ‘a partida, mudamos um dos condicoes e vemos o que acontece. O factor mudado e’ o regime politico. E os resultados estao ‘a vista: a RFA “democratica” vingou no futebol jogando num estilo que privilegia o colectivo e a cooperacao (e ligeiramente chato, diga-se), a RDA “socialista” nao conseguiu criar mais do uma serie de bons jogadores.

    Eu concordo que e’ dificil (sera’?) comparar, por exemplo, Portugal com a Checoslovaquia ou com a Polonia: diferentes caracteristicas fisicas, diferentes tradicoes, diferentes gostos (os checos sao bons no hoquei em gelo, nos somos bons no Hoquei em patins…)

    Mas o que eu te estou a propor nao e’ isso, para a eventualidade de ainda nao teres reparado… (eu ja’ o disse milhares de vezes)

  40. Harry Lime diz:

    E depois nos nao sabemos o que e’ que o futebol polaco poderia ter sido se tivesse continuado em democracia…

    Mas sabemos o que e’ que o futebol da RDA poderia ter sido se o pais tivesse crescido em democracia: seria igual ao da RFA (3 Mundiais, 1 europeu, muitas tacas europeias de clubes)… A RDA tem uma Taca das Tacas. Percebes agora o meu ponto?

  41. Nuno Ramos de Almeida diz:

    HL,
    Como dizem os alentejanos a tua tese não tem trambelho. Regeitas todos os muito dados que a desmentem. A Polónia já vive em democracia em 20 anos e nunca mais atingiu os dois terceiros lugares que obteve durante o regime comunista. Nunca mais jogou tão bem como então. Segundo a tua tese, há muito que já devia ter conquistado 20 campeonatos de clubes, 3 mundiais e uma meia duzia de europeus. A tua tese não tem sustentação.
    O futebol é um desporto que precisa de muitas infraestruturas, de profissionalização e muitos praticantes. É apenas essa a chave do sucesso. A política , tirando a desportiva e os seus investimentos não condicionam a forma de jogar. Ponto final.

  42. Harry Lime diz:

    Atencao, eu nao digo que o factor politico e’ o unico factor. E’ um entre muitos (culturais, fisicos, etc). E a Polonia passou por um bom periodo nos anos 70 e 80. Tal como Portugal nos anos 60 e anos 00

    O que eu digo, e’ que o caso das 2 Alemanhas nos permite isolar o factor politico e concluir que ele e’ de facto importante.

    A minha tese e’ muito simples: a politica e’ um factor entre muitos (e o caso das Alemanhas e das Coreias ilustra esta minha teoria). A tua tese e’ que todos os factores sao validos excepto o politico… O que me parece errado.

  43. Harry Lime diz:

    Olha… A alma da Coreia do Norte nao durou mais de 20 minutos…ate’ ao primeiro golo de Portugal, normalmente e’ esta a duracao da alma dos arrumadores de autocarro.

    Depois vem-se abaixo.

  44. jpt diz:

    independentemente do sumo do post – da não relação da política com o estilo de jogo (e sobre as imaginações do “estilo nacional” há excelentes textos num já antigo livro “A Época do Futebol” de josé neves de nuno domingos) que me parece evidente -, e da especulação sobre o que o levará a irritar-se contra um ditirambo adverso à ditadura coreana (que nunca passará de especulação, como é óbvio), o mais interessante disto tudo é que a fabulosa frase que o Orson Welles meteu no argumento do Greene é falsa, os relógios de cuco não foram inventados pelos suíços. Mas que interessa, a frase é fantástica.

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