A Guerra do Iraque no cinema

É para mim um dado mais ou menos incontornável que um grande filme de guerra é aquele que é muito mais do que um acumulado de cenas de acção e do que a descrição pormenorizada do campo de batalha e das respectivas estratégias militares envolvidas. É aquele que analisa de modo suficientemente complexo o conflito entre as partes envolvidas ou ainda mais aquele que problemtiza a guerra enquanto conceito genérico, do ponto de vista existencialista, ao nível da sua dimensão humana. Foi assim em Apocalypse Now de Francis Ford Coppolla, Platoon de Martin Scorsese (ambos a propósito da Guerra do Vietname), Barreira Invisível de Terence Malick (2ª Guerra Mundial, imperdoavelmente ainda não vi a bilogia de Clint Eastwood: Bandeiras dos Nossos Pais e Cartas de Iwo Jima) ou Peões em Jogo de Robert Redford (Afeganistão). Era com a expectativa que pudessemos estar perante mais uma obra-prima do género que comecei a ver Estado de Guerra, filme recentemente galardoado com os principais óscares da academia. Expectativas goradas.

”A adrenalina do combate é, muitas vezes, um vício poderoso e letal, como tal, a guerra é uma droga” é a frase que abre a película e prenuncia uma reflexão interessante. Puro equívoco ou, pelo menos, uma ideia concretizada de modo bem simplista. O filme aborda uma espécie de brigada de “Minas e Armadilhas” do Exército Americano, responsável por missões de desactivação de bombas e outros engenhos explosivos no Iraque, explorando abundantemente a sua actividade no terreno e a exposição do cenário de guerra. As cenas estão genericamente bem construídas, a realização de Kathryn Bigelow (a primeira mulher a ganhar o óscar de realização, pena que isso não tenha acontecido com Virgens Suicidas de Sofia Copolla) é realmente nota de elogio (pela preocupação com os pormenores e  pela condução de câmara que contribui para que nos consigamos transportar por instantes para o inferno da guerra), mas ficamos sempre à espera de algo que nos envolva, que nos agarre sem reservas ao filme, o que nunca acontece, contribuindo para que, sem um enquadramento mais forte, as próprias cenas de acção percam intensidade. O argumento é de tal forma pobre que, mesmo nos raros momentos em que há um esforço de problematizar algo e de introduzir uma maior complexidade à trama, como sucede com as cenas com o miúdo que vende DVD’s e no diálogo na parte final entre Will e Sanborn, estas surgem rechedas de lugares comuns, sem grande chama emocional. O epílogo interessante, com enquadramento com a frase inicial, contriubui um pouco para melhorar a impressão do filme, mas não o suficiente para afastar o cenário de desilusão. Até porque, no contexto da Guerra do Iraque, já se fez bem melhor…

É o caso de No Vale de Elah de Paul Haggis (Colisão)Censurado de Brian de Palma, ambos de 2007. São filmes muito diferentes. O primeiro fala sobre o desaparecimento misterioso de um soldado no seu regresso do Iraque e a busca incansável dos seus pais na busca da verdade escondida. O segundo é quase um documentário, obra baseada em factos verídicos que acompanha um batalhão no Iraque, centrando-se num episódio em que um conjunto de soldados americanos chacina gratuitamente um conjunto de civis iraquianos. No vale de Elah é particularmente eficaz e interessante na forma como explora o sentimento de perda, tendo ainda como méritos importantes a óptima interpretação de Tommy Lee Jones e um final arrebatador, climax de desespero, revolta e desilusão contra um sistema perverso e malévolo (e não demonstração de anti-americanismo primário, como alguns falsamente apelidaram). Censurado explicita de forma crua os atropelos e violações de direitos humanos cometidos pelas forças invasoras, ao mesmo tempo que, de forma inteligente, põe a nu o impacto psicológico provocado pela guerra e pela realidade envolvente nos soldados com um maior sentido de responsabilidade e o sofrimento provocado aos civis iraquianos por esta escandalosa ofensiva armada. É bom que assim seja, porque o realce é por norma para os soldados da coligação ocidental e estes, embora condicionados, enganados e ludibriados pelas campanhas de propaganda ao recrutamento (embora de forma panfletária, o que Michael Moore expõe em Fahrenheit 9/11 terá um grande fundo de verdade), estão lá de modo voluntário (ao contrário do que sucedeu, por exemplo, na Guerra do Vietname). Enquanto isso, população iraquiana não teve escolha, foi forçada a encarar de frente esta invasão,  ainda para mais quando esta foi justificada com base numa mentira (as não provadas armas de destruição maciça) e num pretenso objectivo de libertação de um povo, algo que, de modo cínico,  a política externa americana usa abundantemente para legitimar diversas missões militares (Chile, Coreia, Vietname ou Afeganistão são alguns exemplos), quando os verdadeiros objectivos são de natureza geopolítica e económica. A propósito da questão da informação falaciosa, os dois filmes são também muito interessantes na forma como expõem a manipulação de factos e a adulteração propositada da verdade, em que o jornalismo propagandista e desprovido de objectividade é apenas uma das peças. Concluindo, não sendo obras-primas, são ambos bem mais complexos, apelativos e cativantes que Estado de Guerra, quer como retrato da guerra do Iraque, quer como  filme de guerra genérico, em temos do seu lado mais psicológico e das reflexões que nos incute.

É bom, aliás, que se continue a fazer cinema sobre este episódio negro da história, para que não fique esquecido e não seja historicamente falseado um dos maiores actos de terrorismo organizado à escala mundial (sim, porque a invasão do Iraque foi um acto de puro terrorismo, sem qualquer legitimação internacional) e que vitimou milhares e milhares de civis iraquianos (com base nas estimativas ultra-tendenciosas da Administração Bush, cerca de 10 vezes mais vítimas do que no atentado do 11 de Setembro de 2001, só para se ter uma ideia).

Para o fim, porque nem só de longas-metragens vive a exploração visual da Guerra do Iraque, eis a forma de aproveitar o lado profundamente cinematográfico do post-rock para fazer um notável e intenso video-clip sobre esta temática, em “All is Violent, All is Bright”, tema de 2004 (um ano após o início da guerra) dos irlandeses God is an Astronaut:

P.S. Já elaborei este texto há 2 meses, mas como na altura não era residente aqui da tasca, pareceu-me bem publicá-lo aqui, agora.

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14 respostas a A Guerra do Iraque no cinema

  1. l.rodrigues diz:

    comecei a ler mas interrompi para vir dizer que Platoon é do oliver stone. continuando a leitura….

  2. Miguel Vaz diz:

    Falta falar da mini-série da HBO, «Generation Kill». Para mim o melhor documento visual da Guerra do Iraque. Aliás, a série é na verdade sobre a invasão do Iraque, já que aborda a acção da uma unidade de reconhecimento nos primeiros dias da guerra. Vale mesmo a pena.

  3. Francisco Serafim diz:

    Platoon é de Oliver Stone.

  4. J. Nunes diz:

    Li com algum interesse o seu artigo.

    Em relação aos filmes “Apocalypse Now”, “Platoon” e “Barreira Invisível”, é de supor que escondem algum conteúdo racista, em relação ao inimigo ou opositor escolhido, neste caso o “vietcong” ou o japonês.

    O ataque dos helicópteros, em “Apocalypse Now” de Coppolla, a uma pequena população vietnamita, faz recordar alguns “westerns” no modo como mata de modo gratuito os vietnamitas.

    Neste caso, não deixo de concordar com o autor Jean-Jacques Sadoux, no seu livro “Racism in the western”, ao relacionar a matança de vários índios (ou vietnamitas, neste caso), com o racismo no cinema, apelando aos mais baixos instintos do público, quando sentados confortavelmente numa plateia, aplaudem estes massacres.

    No caso de “Platoon”, recordo-me da facilidade com que a personagem “Sgt. Elias”, interpretada por William Defoe, mata vários soldados vietnamitas numa floresta.

    No caso de “Barreira Invisível”, pude visionar este filme, até ao momento em que os soldados japoneses são massacrados pelas tropas americanas, algo semelhante ao que vi noutro filme de John Woo, com o título “Windtalkers”.

    A matança de japoneses, construída de modo cinematográfico por Terence Malick, parece compensar os momentos de perigo, aflição e tortura psicológica sofrida pelos soldados americanos, durante o ataque, onde estão presentes diversas estrelas do cinema americano.

    Algo semelhante acontece também em “Saving Private Ryan” de Spielberg, em relação aos alemães.

    Estas distorções históricas e os “clichés” que resultam delas podem ser também visionadas em “westerns”, como em “Stagecoach” de John Ford, “A Distant Trumpet” de Raoul Walsh e até “Winchester 73” de Anthony Mann.

    Nessa altura, os inimigos eram os índios.

  5. Joaquim Alexandre Rodrigues diz:

    Platoon, de Oliver Stone
    Bom fim-de-semana, caro cinéfilo!
    Gostei de ler.

  6. xatoo diz:

    Não é nada… o Platoon é do Jerry Lewis
    para quem faz uma resenha e não menciona o Nick Ray que “nunca fez nenhum filme de guerra” (lol) (para além de não ver metade das que ouviu falar) dá-nos logo uma amostra suculenta da sua erudição

  7. Claro que o Platoon é do Oliver Stone. Fica a correcção

  8. RC diz:

    Ver “Green Zone” com Matt Damon…

  9. J. Nunes:

    Ver nos filmes em questão uma demonstração de racismo, é no mínimo questionável. Estes filmes fazem exactamente o oposto, questionam a guerra do ponto de vista existencialista, da condição humana. Basta ver aquele incrível discurso final do “Platoon” para vermos isso, a forma como as personagens questionam o vazio, o sentimento destrutivo provocado por uma guerra com a qual realmente não se identificavam e que questionam interiormente…

    Xatoo: “amostra suculenta da sua erudição”. O conteúdo do comentário foi de tal modo rendilhado que não percebi o seu conteúdo, foi erudito em demasia

  10. J. Nunes diz:

    João Torgal,

    O discurso dos protagonistas num determinado filme é uma coisa. Por outro lado, temos as imagens, como também o modo como o realizador trabalha essas mesmas imagens, para agradar o público.

    Não tenho dúvidas que algum público americano, nomeadamente aquele ligado ao exército americano, gostou do momento em que os vietnamitas são massacrados por helicópteros em “Apocalypse Now”.

    O mesmo se passa em “Platoon” e em “Barreira Invisível”. Caso contrário, estes filmes seriam pouco apreciados pelo público e exército americano.

    Os filmes podem até ter uma mensagem contra a guerra, mas têm alguns ingredientes que satisfazem o público que gosta de ver a guerra no cinema. Daí a minha reserva em relação aos filmes em causa.

    Sem dúvida, os filmes mencionados motivam o público a gostar de massacres gratuitos contra populações vistas como inimigas dos norte-americanos.

    Muitos não querem ver isso, porque gostam do realizador e do seu cinema, mas o racismo contra os vietnamitas e os japoneses (nestes casos) existe de uma forma inconsciente, basta ver pela maneira como são massacrados de metralhadora, de helicópteros, ou à baioneta, sem piedade nenhuma.

    Por isso, vejo sempre com alguma reserva e cepticismo o cinema americano.

  11. J. Nunes, eu prefiro achar que esses massacres não são para agradar ao espectador, mas para o chocar, para reforçar o sentido e a mensagem do filme

  12. J. Nunes diz:

    Uma coisa é aquilo que o João Torgal prefere, porque é uma pessoa culta e inteligente.

    Outra é a maioria do público americano que vai ao cinema e se diverte com os filmes de guerra.

    Quase todo este público é movido por uma mentalidade infantil, especialmente os cadetes e militares.

    Posso lhe dar um exemplo de um bom filme americano, com uma mensagem contra a guerra, realizada numa altura diferente da história política daquele país: “A Flecha Quebrada” de Delmer Daves.

    Para lhe dar o exemplo de como a cena do massacre de helicópteros em “Apocalypse Now” é horrendo e incentiva o público a gostar de guerra e matanças desnecessárias, fui ver este filme, com 13 anos, em 1981, no cinema Apolo70. Recordo-me de apenas falar com os meus amigos sobre essa cena do filme.

    Após 36 anos, fui o único aluno, nas sessões de orientação de mestrado, na Faculdade de Letras, sobre a literatura e cinema norte-americano, a criticar “Apocalypse Now”, devido a este episódio e porque alguns doutorandos riam-se e divertiam-se com as mesmas imagens de guerra.

    Como é evidente, as minhas intervenções contra a guerra no cinema foram vistas como exageradas, mas a minha orientadora de mestrado, Teresa Ferreira Alves, soube respeitar a minha posição.

    A minha posição sobre “Apocalypse Now” é igual à de “O Caçador”, muito especialmente depois de ter visto o documentário: “The Final Cut, The Making and Unmaking of Heaven’s Gate” (disponível no You Tube). Através deste último documentário pode ver o tipo de realizador que foi Michael Cimino.

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