Provoca Acção (com este trocadilho ainda vou para o BE)

O facto de estar em pousio não me impede de reagir – dentro das minhas limitações cognitivas – às provocações inopinadas de radicais islâmicos. Duas ou três ideias:

Ao contrário do marxismo preguiçoso e interesseiro, que desenha o mundo, a transformação e a verdade a partir da categoria e da condição de classe – e à medida da sua sala de jantar -, se há mérito no património plural do pensamento crítico reside certamente no seu contributo para o alargamento e complexificação da economia política e da anatomia das relações de poder contemporâneas. O conceito de cidadão e a sua reminiscência contratualista, embora produto moderno do liberalismo político, permite problematizar as diferentes dimensões da vida social na tensão entre o individual e o colectivo: no caso de Boaventura de Sousa Santos (BSS), sem o exclusivismo e determinismo das relações de produção mas também sem esvaziar o conceito dos seus aspectos intrinsecamente violentos e conflituais. De maneira que há várias noções de cidadania: umas remetem para a aldrabice, outras para a ingenuidade e outras, as boas, para a mobilização crítica mas estratégica das aquisições mais igualitárias e inclusivas do pacto social, reflectido, entre outras coisas, nos Estados de bem-estar.

Os termos desta equação – que ultrapassa em muito os clássicos capital-trabalho – têm vindo a perder o equilíbrio que, mais simbólica que materialmente, os sustentou durante algumas décadas. Se os instrumentos de contenção do capital produtivo granjearam alguma eficácia reguladora (capacidade fiscal, provisão de serviços públicos e garantias laborais), ampliando as classes médias, promovendo a mobilidade social e arrefecendo o conflito social, o consenso neoliberal e a financeirização da economia não encontram no Estado um actor capaz e apostado na redisciplinação das dinâmicas sociais geradoras de exclusão e desigualdade. E naturalmente o Estado recua com o desarme sindical e vice-versa. É aqui que reaparece o fascismo societal: não se trata de uma alusão ao regime político, antes da caracterização de um processo social mais amplo, dinamizado pela despolitização do Estado e pela desestatização da regulação social. Isto significa que, entregues à bicharada, suspeitamos não poder repetir a indignidade de aceitar baixos salários porque trabalhamos – ó Deus – a custo zero. É mais ou menos isto, mas sem populismo.

Ora – e este é o ponto – isto só é novidade em BSS para quem está mais preocupado em inventar-lhe amizades que em conhecer-lhe o pensamento. Além disso – e pela enésima vez -, a questão da pós-modernidade foi um verdadeiro equívoco: não propriamente pela forma como foi escrita, antes pelas formas como foi olimpicamente treslida. Estou certo de que a pureza das catacumbas retira algum gozo em desencantar traições e desancar no intelectualismo mercenário. O capital – como sempre – agradece e, pior que isso, é um mau exemplo para a juventude 🙂

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

9 Responses to Provoca Acção (com este trocadilho ainda vou para o BE)

  1. Renato Teixeira diz:

    Falou ou não falou? Acho que com isto ganhei um jantar à Morgada. Uma provocação vale mais do que mil apelos. Agora, vou deliciar-me. Já cá volto para te rebater citando talvez o próprio BSS…

    Assim à primeira vista, destaco apenas um traço algo preguiçoso e algum desenho do mundo a partir da sala de jantar nesta passagem: “Os termos desta equação – que ultrapassa em muito os clássicos capital-trabalho – têm vindo a perder o equilíbrio que, mais simbólica que materialmente, os sustentou durante algumas décadas”

    E algum determinismo nesta: “De maneira que há várias noções de cidadania: umas remetem para a aldrabice, outras para a ingenuidade e outras, as boas, para a mobilização crítica”.

    Boa resposta.

  2. Renato Teixeira diz:

    Quanto ao trocadilho cheira-me que mais rapidamente chegas à DG do que ao BE. 😉

    O CES já não faz parte? Virou uma espécie de organismo autónomo? Começo a não perceber nada da coisa… Pelo paleio do BSS parece que nem sequer se conhecem…

  3. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Muito interessante. Merece uma discussão com muito mais tempo. Duvido apenas que nos últimos anos não se tenha confirmado que a questão da produção e reprodução da vida não sejam as questões nucleares das nossas sociedades. A sucessão das crises, a apropriação privada do conhecimento e até da vida na terra parecem confirmar isso. Todos somos constituídos por multiplas identidades, mas isso não faz que possamos escrever uma história universal com base na cor do cabelo. Há relações mais determinantes do que outras. A ideia do cidadão, a partir de Hegel, fundamenta-se numa relação equidestante com o Estado. Ora, o Estado não é neutro, nem os cidadãos são todos iguais. É um progresso o Estado ter uma autonomia relativa e permitir que não mande a lei do mais forte, mas isso também acontece pq ele cristaliza na lei e na sua actuação uma correlação de forças que beneficia esses mais fortes.

  4. psd da boa-fé diz:

    “Estados de bem-estar”? Li bem?
    É realmente aí que se traduzem “as aquisições mais igualitárias”?

    Será que o Tiago chama “Estados de bem-estar” a esses paraísos da cidadania que promovem o dito ‘bem-estar’ pela exploração dos continentes pobres que, em vez de cidadãos, produzem uma gigantesca CLASSE de escravos-assalariados? Será isso?

    Realmente, os Estados de bem-estar prescindem de uma análise classista: os seus cidadãos, cujas vidas e dilemas a teoria de BSS ilumina, exploram uma gigantesca CLASSE de miseráveis operários chineses, mineiros do Níger, costureiros turcos, enfim, trabalhadores a quem não foi conferida qualquer cidadania que vivem lá do outro lado do mundo. Nos Estados de bem-estar, nada-se em computadores, em automóveis, em ténis de marca, em telemóveis e, acrescentará o Tiago, em serviços públicos e em protecção social. Pois, é certo que se nada! E a mão-de-obra que abastece tudo isso de onde vem? Do ‘terceiro mundo’…

    Pois é, para que haja progressos materiais e sociais nos “Estados de bem-estar”, e para a que as suas classes médias se expandam (pelo ganho de poder de compra que o acesso a bens de consumo fabricados por trabalho-escravo permite), tem de haver um planeta inteiro dividido-separado-partido em CLASSES. Um planeta onde mil milhões de pessoas (1 em cada 6 humanos) vivem em favelas…

    É sua a opção de querer ou não estudar as classes (ou as favelas)… o que não quer dizer que elas não existam ou que sejam a tradução de um conceito obsoleto.

  5. Manuel Monteiro diz:

    Andei eu a lutar tendo como base a luta de classes;
    Acreditei eu que o estado não é uma entidade neutra nem regula porra de coisa nenhuma que vá contra os interesses da classe dominante;
    Ensinaram-me que a origem de todo o mal era a propriedade privada;
    Estudei, ó se estudei, que passar de uma sociedade capitalista para uma sociedade socialista o confronto seria sangrento e brutal;
    Fui brutal com aqueles que defenderam que de reforma em reforma o capistalismo se humanizaria, estilo social-democracia.
    Afinal agora dizem-me que fui preguiçoso e interesseiro. O que vai ser da minha vida? O que vou fazer deste impulso de foder à bomba esta merda desta sociedade capitalista?
    Valei-me, ó mentes luminosas! Publicai mais textos como estes! Pode ser que meus primários instintos se deixem amaciar e seguir o caminho da harmonia.
    Manuel Monteiro

  6. Tiago Ribeiro diz:

    Renato, tivesse eu sido candidato à DG… 😀

    Nuno, é bem verdade. De facto há relações sobredeterminantes dos processos sociais. Naturalmente. Mas não é por acaso que o impacto do desemprego nas mulheres de meia-idade, desqualificadas e vítimas de sistemas familiares asfixiantes é particularmente vulnerabilizador. JPP retrata-o muito bem aqui: http://abrupto.blogspot.com/2008/05/desemprego-pelo-meu-intratvel-e-malvolo.html. E claro que o Estado não é neutro. Quando o BSS fala em despolitização do Estado, não lhe atribui pretensões neutrais, antes sinaliza a transferência do conflito e da regulação para outras esferas e instâncias sociais e económicas politicamente descontratualizadas. O problema é que – eis a esquerda das coisas -, em contextos desiguais, a lei liberta e a liberdade oprime. Aquele livrinho editado pela Fundação Mário Soares (!), «Reiventar a Democracia», fala do «Estado como novíssimo movimento social» precisamente no sentido do resgate da sua capacidade, legitimidade e operacionalidade política. E tens razão: quando falo em recuo do Estado refiro-me à provisão e protecção social. Porque, em bom rigor, o Estado não recua: robustece a acumulação. É a velha história: a teoria do Estado mínimo é a teoria do Estado máximo – no limite, basta ver a correlação (ainda que não automática) entre Estado Social e Estado Penal.

    PSD da boa fé, centrei-me na história europeia recente. Como bem aponta, a teoria wallersteiniana do sistema-mundo permite compreender os diferentes graus de interdependência entre centro e periferia no contexto da divisão global do trabalho e da repartição do bem-estar social. Para além de justiça social global, o BSS tem ido mais longe na temática pós-colonial, trabalhando nomeadamente os conceitos de justiça epistémica e de pensamento pós-abissal – cujo objectivo é precisamente dar visibilidade ao outro lado da linha, que mais do que por motivos ideológicos, muitas vezes omitimos por pudor. De resto, eu nunca neguei as classes, ora essa. Estão vivas e recomendam-se.

    Manuel Monteiro, o dito também serve para si. Se tem impulsos bombistas, reúna esforços com a resistência islâmica. Mas francamente eu tenho mais que fazer.

  7. Manuel Monteiro diz:

    Tiago Ribeiro
    Eu sei que tem mais que fazer: elaborar teoria da treta para embalar meninos…
    Quanto a misturar os meus impulsos bombistas com a resistência islâmica, alto aí, camarada Ribeiro; se pretende despachar-me do alto da sua superiodade intelectual, aceita-se. Agora que venha, a pretexto desta pobreza franciscana do seu texto, meter ao barulho uma coisa séria e digna como a resistência dos povos árabes é que revela o mais rasteiro cretinismo.
    Manuel Monteiro

  8. Tiago Ribeiro diz:

    É, Manuel Monteiro. Tem razão no que diz, mai’la coisa séria e digna. Mas, pelas alminhas, não me chame camarada.

  9. Manuel Monteiro diz:

    Ai, o querido, ofendeu-se com essa do camarada?
    Mas quem é que que me manda juntar-me ao rebotalho?
    Manuel Monteiro

Os comentários estão fechados.