Mundial “Africano”, o grande mal-entendido


O costamarfinense ou o ganês que desembarca em Joanesburgo não tarda a descobrir, por trás destes ardentes testemunhos de fraternidade, uma realidade infinitamente mais complexa. Pode ser resumida deste assim: “Ao mesmo tempo que deseja ser um país completamente africano, a África do Sul sonha ser um país inteiramente diferente”. Decididamente voltada para a Europa e para a América, em grande parte pelo facto do peso económico e cultural da sua minoria branca, o seu longo isolamento durante a ditadura racista pesa ainda hoje sobre ela. O sul-africano médio conhece bem o Botswana, o Zimbabwé, Moçambique e os seus outros vizinhos, mas – muitas vezes fiz essa experiência, até na cosmopolita Joburg (Joanesburgo) – se, em conversa, se falar em Dakar, Ouagadougou ou Tunis, o taxista ou o comerciante fica perdido. Efectivamente, damo-nos conta com estupefacção que o afro-pessimismo foi uma arma terrível ao serviço do apartheid. A sua propaganda dizia constantemente aos negros que a sua situação, apesar de má, era ainda melhor que a dos países onde reinavam tiranos loucos como Idi Amin e Bokassa. Separados do mundo, os habitantes da Cidade do Cabo ou de Tshwane/Pretória só recebiam imagens de uma África faminta, mal educada e cruel. Em suma, tinha-lhes sido dado um certo olhar ocidental, redutor e deformador, e eles não procuraram ver mais além… Certamente que estas mentiras não impediram que o apartheid se desmoronasse, mas deixaram marcas profundas na consciência colectiva sul-africana:
A norte do Limpopo, começa para os negros o mundo obscuro daqueles que, ainda mais miseráveis que eles, querem vir arrancar-lhes o pão da boca. Um tal estado de espírito pode causar danos terríveis: em Maio de 2008, os revoltas xenófobas da “township” de Alexandra fizeram 62 mortos.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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