Erro por erro, “de” por “de”

O João Carvalho e a Ana Vidal decidiram apontar os dedos virtuosos às incorrecções gramaticais do 5dias. Não vou pronunciar-me sobre as magnas questões que opõem o Delito de Opinião ao 5dias, mas não tenho paciência para quem, à falta de melhores argumentos, atira erros de português à cabeça do adversário. Quem aponta faltas aos outros com tamanha soberba deve exercer impecável probidade, sob pena de ter de sofrer o castigo ditado pela lei de Talião (a retaliação); ora assim a olho nu, o João Carvalho, que iniciou a série “Saber escrever” no Delito de Opinião, dá três erros em dois posts recentes: aqui, na frase “segundo alguns cientistas acabam de divulgar“, falta, naturalmente, “o que” entre “segundo” e “alguns”; no mesmo post, ainda há uma falta de concordância (as enzimas são femininas, e são por isso “necessárias“, o que faz também com que a soma das ditas com as ATPs dê “ambas”, e não “ambos“); e “fôra” não leva acento. Estes erros não desqualificam os posts do João Carvalho: com ou sem eles, a prosa do João Carvalho continuará a ser a prosa do João Carvalho, esforçada e maçadora, sem uma frase que descole da banalidade ou uma ideia capaz de se alçar acima do Trivial Pursuit; saber escrever não passa só pela ortografia, e eu espero que a blogosfera não se converta num lugar de exibição de dotes em que os meninos mostram que tocam piano e escrevem impecáveis redacções em português: o mais genial blogger português é procurado pela Interpol por atentados sistemáticos à gramática, e no entanto (ou “pour cause”) revolucionou a forma como pensamos a linguagem e escrevemos. Também dei uma vista de olhos pela obra da Ana Vidal, essa “refência” das letras pátrias que quer alfabetizar o 5dias de forma benemérita, e encontrei, claro, gralhas e erros, porque nem a grande Ana Vidal é imune a gralhas e erros; mas dei com um mais saboroso que os outros: o “de” em falta que tão piedosamente apontou ali ao Nuno está a mais aqui neste seu post – com grande pena de todos nós, que a julgávamos imaculada e pura, acima dos erros que afligem os mortais. Não tem de quê.

Adenda: pede-me a Ana Vidal que lhe diga onde estão os erros e gralhas no post linkado. Aqui vai: “sobressairam” leva acento; “entre duas potências capazes de destruir-se mutuamente” (capazes de se destruírem mutuamente); “A mim conquistou de vez” em vez de “conquistou-me”; para não falar daquele “a canção fala-nos”, gramaticalmente kosher mas de gosto questionável. O “de” está a mais na frase “Mas tenho pena de que o ADN dos portugueses não seja um bocadinho mais parecido com o deste homem (…)“, que me parece um sintoma de hipercorrecção. Repito que não acho graça nenhuma a catar erros em posts, nem me parece que os erros devam servir para desqualificar a prosa, mas acho menos graça ainda a mestres-escola holier-than-thou.

Adenda 2: A Ana Vidal concede que “sobressairam” leva acento (e eu concedo que seja gralha, nunca afirmei o contrário), diz que “as opiniões divergem” no ponto 2 mas que há “eruditos e leigos em sites da especialidade” que defendem o direito inalienável de “duas potências [serem] capazes de destruir-se mutuamente” (e se essa doutrina, que a Ana não cita, fala mais alto que o ouvido, temos pena, mas não a podemos ajudar), insinua que eu desconheço figuras de estilo (by the way, Ana, “a canção fala-nos” não é uma metáfora: quando muito é prosopopeia ou animismo, mas não deixa de ser um recurso preguiçoso), admite finalmente que é no ponto 3 “que a porca torce o rabo” (concedendo implicitamente que nos restantes as correcções são limpinhas – e eu, para a troca, concedo que o ponto 3 é discutível), e insiste no “de” excedentário – e eu tenho pena que o ouvido da Ana lhe falhe novamente, mas aqui vão alguns exercícios que a podem ajudar. Escolha entre as alternativas seguintes a que lhe parece correcta: “tenho pena de que ele tenha morrido” / “tenho pena que ele tenha morrido”; “tenho pena de que a Ana Vidal não tenha ouvido para a gramática” / “tenho pena que a Ana Vidal não tenha ouvido para a gramática”; “tenho pena de que a Ana Vidal não saiba português suficiente para ela, quanto mais para corrigir os outros”; “tenho pena que a Ana Vidal não saiba português suficiente para ela, quanto mais para corrigir os outros”; “tenho pena de que a Ana Vidal insista nesta questiúncula dos erros sem perceber que that’s entirely beside the point” / “tenho pena que a Ana Vidal insista nesta questiúncula dos erros sem perceber (etc)”;  mas “tenho pena de ter mais que fazer e não a poder ajudar”. No hard feelings, though.

P.S. A “refência” era uma gralhazita que lhe escapou neste post (“é um músico de refência“).

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

25 respostas a Erro por erro, “de” por “de”

  1. Pingback: Os anónimos não respeitam ninguém at Aspirina B

  2. Manuel Monteiro diz:

    Prof. Carvalho
    Profª Vidal
    Prometu que quando pustar hirei ater por estas vandas o decionariu do portogues…
    Já agora como se escreve penis em calão? É que queria mandarvos para o dito cojo…
    Manoel Montero

  3. Antonio Mira diz:

    Pois, agora percebo o que me tem acontecido nalguma posta… Lástima que quem mo lembrou nos comentários (desconfio que parente doutros blogues) não soubesse pontuar bem as frases… Mas obrigado na mesma, não deixem de apontar o dedo. (Ora o de chamar de merda é, sim, um bocadinho mais feio…).

  4. Ricciardi diz:

    Bom, muito bom. Resposta adequada e elequente.

    Parabens.

    RB

  5. Renato Teixeira diz:

    Pl’a boca more o pexe.

  6. antónimo diz:

    e sabram iscrever ética?

  7. “O mais genial blogger português. ” Ai está… nem é erro e nem é gralha, mas sim uma frase optimista.

  8. c diz:

    adoro ler o Mira. dá tantos erros de sintaxe em português que até arrepia. fala igualzinho a mim , labrega. parece que retornei à terra. e sabem , muita gente procura a perfeição , outros nascemos assim directamente galegos. e com música nas palavras.
    (agora , o não sei que valupi arrimarse à Morgada para dar uns pontos à sua luta de anónimo que lucra ? que nojo! )
    Morgada , toma um banho de uvas.

    • Morgada de V. diz:

      Há mais coisas no céu e na terra que a vã sintaxe, Horácio: quem me dera algum dia escrever galego ou castelhano como o Antonio Mira escreve português.

  9. Pedro Penilo diz:

    Porrada! Porrada!

  10. Renato Teixeira diz:

    Morgada, esse comentário a propósito do Mira extravasa as fronteiras do elogio e resvala para um engate descarado. Saudades do cipriota? 😉

  11. Renato Teixeira diz:

    Então? Tunisino? Italiano? Só lembro que era fotógrafo e que foi numa posta a meter nojo a quem está ancorado na parvónia e só pode sair dela ou em trabalho ou 22 dias por ano.

    • Morgada de V. diz:

      Coitadinho do Renato. Tens de reler as minhas obras completas (15 posts, unabridged): a personagem a que te referes era belga, e foi na Sicília. Agora vou dormir, boa noite a todos.

  12. Renato Teixeira diz:

    Essa terra tem mais do que batatas fritas e chocolates? Daí a confusão. Fiquei pela Sicília que no fundo é magrebina.

  13. Renato Teixeira diz:

    “mestres-escola holier-than-thou”! Agora é que vais deixar a Vicentina baralhada. 🙂

  14. neomiro diz:

    Quem me dera a mim, receber uma atenção assim tão esmerada no meu blog! – Creio ter sido limpinha esta frase (claro que blog, também pode ser escrito desta maneira: blogue) – Este comentário é mais a título de parvalheira do que outra coisa.

  15. É no que dá distribuírem Magalhães à criançada…

  16. Ana Vidal diz:

    Venho retribuir a visita, Morgada. E vou já embora, que li lá para cima um toque a rebate para a porrada. Ora então muito bom dia a todos, e que a paz do Senhor esteja convosco.

  17. Folgo ver que já não nos considera uma lixeira, Ana.
    A porrada do Pedro Penilo é metafórica, nada tema.
    Obrigada pela visita, volte sempre.
    m.

  18. Pedro Lourenço diz:

    Morgada,

    Case comigo!

  19. Ana Vidal diz:

    Folga mal, Morgada, porque eu não disse isso. E vejo que tem muito tempo, afinal, para mais adendas inúteis e repetitivas. Cheguei a pensar que era engano de um copy/paste a despropósito, tantas são as variantes da invariável ladainha. Porque não poupa os doutos leitores desta casa de eleitos às minhas menoridades linguísticas?
    Enfim, tenho pena “de que” não tenha enterrado o machado de guerra, a não ser em inglês. Mas hei-de sobreviver.

  20. Antonio Mira diz:

    “muita gente procura a perfeição , outros nascemos assim directamente galegos”

    (olha que ser galego é a maneira mais perfeita que encontro de existir) 😀

  21. Jojo diz:

    Ana,
    Não case comigo!

  22. Ana, a adenda está aqui desde esta manhã, antes de eu ter passado pelo Delito: limitei-me a dar-lhe a tréplica, não tenho a menor intenção de lhe mover guerra nenhuma.

    Pedro, how sweet. Os meus princípios religiosos não me permitem infelizmente dar o nó, mas podemos sempre optar por um namoro prolongado.

Os comentários estão fechados.