Entre o movimento negro e marxismo: genealogia intelectual de uma época


Esta semana vou continuar a divulgar o site de cultura contemporânea Africana Buala, desta vez com um artigo de António Tomás, autor de uma excelente biografia de Amilcar Cabral.

Escrever uma biografia sobre Amílcar Cabral obrigou-me naturalmente a reconstituir a história intelectual do período por ele vivido. Foi preciso fazer uma arqueologia das suas ideias. Este texto é pois a contribuição para a biografia intelectual, não de Amílcar Cabral, mas da sua época. E o meu principal guia é o angolano Mário Pinto de Andrade. Com “As Origens do Nacionalismo Africano” (Dom Quixote) torna-se o primeiro nacionalista e o único africano do ex-espaço colonial português a empreender uma sistematização da formação do pensamento nacionalista nas colónias. Porém, MPA não consegue levar a sua tarefa de traçar as origens do nacionalismo africano até ao fim, e não considera o livro pronto para publicar. Contudo, o documento foi encontrado no seu acervo, depositado na fundação Mário Soares, e tenho a certeza que se justifica plenamente a publicação de tal livro, ainda que inacabado, dada a escassez de material sobre este assunto.

Mário de Andrade começa por desenvolver aquela a que chamaria a primeira fase do nacionalismo africano, ou seja, o protonacionalismo. Apresenta mais as práticas e enumera os elementos de força do discurso nativista: auto-estima racial e resgaste dos valores africanos. Nesta primeira fase do nacionalismo participam, muito curiosamente, os pais de nacionalistas africanos da geração, como José Cristiano Pinto de Andrade, Juvenal Cabral e Ayres do Sacramento Menezes. Trocam correspondência com outras organizações da diáspora africana, na Europa e na América, fundam jornais e associações, mas não vão além disso. Mário de Andrade explica que o problema desta geração é não ter conseguido ultrapassar a contradição entre ser negro e português. Portanto, os membros desta geração, embora tenham sentido o apelo da raça, que é a expressão que usa, quando chegou a altura de optar entre serem negros ou portugueses, escolheriam o segundo termo. E tiveram de escolher quando Salazar chegou ao poder e fechou um período de quase vinte anos de liberdades republicanas, anos de muita efervescência política, pelo menos para a diáspora africana em Lisboa, em que se havia autorizado a fundação de várias organizações em que militavam os membros desta geração.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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