“DESENHO ANTIGO”

 

(Desenho de Columbano)

Almada é certamente um pintor sofrível, talvez um interessante muralista (Gares), mas ainda assim com um pendor decorativo que me causa muitas dúvidas (o resto é pouco: vitrais na Igreja de Fátima, à Av. de Berna, decoração de fachadas na Universidade de Lisboa, o “Começar” da Gulbenkian.…). Em contraponto, sempre o achei um enorme escritor, um genial panfletário (e não me refiro ao “Manifesto anti-Dantas”) e um genial manipulador de palavras no plano do aforismo; é célebre aquele que diz “O povo completo é aquele que tiver reunidas todas as qualidades e todos os defeitos; coragem portugueses….” e não vale a pena repeti-lo até ao fim. Outro diz, “não sou pessimista nem optimista, não há nenhum mal-entendido entre mim e a vida”. Tentou definir o desenho num outro belo aforismo (belíssimo, apesar de eu com ele não concordar): “Os olhos são para ver e o que os olhos vêem só o desenho o sabe”.

Num catálogo de uma colectiva de amigos (“Le Premier Dessin”, Gal. Carlos Carvalho, 2005), tentei trocar a frase, e deu: os olhos não são para ver e o que os olhos não vêem só o desenho o sabe (sim, desde Bergson a Merleau-Ponty sabemos que é antes o corpo “integral” que vê, e não somente os “olhos”). Bom, mas também poderia definir o desenho, a partir do conhecido aforismo citado, de outra forma (e não estou a brincar com as palavras): os olhos são para ver e o que os olhos vêem, o desenho nunca o saberá. Ou seja, o desenho, e aí a sua magia (palavra de que não gosto muito, mas fica), é uma forma de “não-saber”, e é um “não-saber” que, apesar disso, se realiza, se efectiva, se conclui, imparável.

Podemos tomar o desenho como a potência da obra (escultura, pintura, instalação, filme…), como uma sua anterioridade. Mas não creio nisso como valor absoluto. Porque há no desenho uma quase total autonomia em relação à obra “acabada”. É isso que fascina: “não-saber”, praticar este “não-saber” como se de um “saber” se tratasse, prolongá-lo ao ponto dele ser a obra e não o seu momento preparatório. É por isso que um desenho encanta: porque é uma forma de tactear, procurar, iniciar, uma “ignorância” especial e acabada.

Vem isto a propósito de uma exposição que veremos na Galeria da Faculdade de Belas-Artes, Lisboa, de 16 de Junho a 31 de Julho. Chama-se “Desenhos Antigos na Colecção da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa”, e é algo a não perder sob qualquer pretexto.

O “Nu Masculino” de Columbano que figura no cartaz é uma das obras emblemáticas da exposição (organizada pelo pintor Alberto Faria). Há outros destaques, entre os 34 desenhos: autores: Columbano, António Ramalho, Luciano Freire (o homem que restaurou os “Painéis de S. Vicente”, notável trabalho, polémicas à parte), Veloso Salgado (genial, na minha opinião, pintor de História), o arquitecto José Luis Monteiro (Estação do Rossio), ainda Soares dos Reis e Malhoa e um momento muito interessante (que acompanhou muitos de nós, estudantes da casa, pois os desenhos figuraram muito tempo nas paredes da Secretaria): os trabalhos para o concurso de professor de Desenho Antigo e Modelo Vivo de quem disputou então o cargo (1934): nem mais nem menos que Leopoldo de Almeida (Padrão das Descobertas) e Francisco Franco (Cristo-Rei), de que saiu vencedor Leopoldo. Anunciava-se já aqui a Exposição do Mundo Português, mas isso é já outra história. Passem então pela galeria da FBAUL na próxima quarta-feira (ou até 31/7).

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

16 Responses to “DESENHO ANTIGO”

  1. De passagem... breve passagem... diz:

    Caro mestre,

    Gostei muito deste post!

    Os seus posts sobre arte são os meus favoritos. (Se me permite a “heresia”, os seus posts políticos são muito maniqueístas e dicotómicos, não quero dizer com isto que não respeite a defesa das suas ideias).

    Gosto de Almada e, no meu caso, refiro-me também ao contundente “Manifesto Anti-Dantas”.
    Excelente novo aforismo: “os olhos são para ver e o que os olhos vêm, o desenho nunca o saberá.” (“vêem”: corrija lá! Não sou só eu que dou gralhas…)

    Cumprimentos (Ah, e não se atormente… voltei aqui – à caixa de comentários – de passagem, numa muito breve passagem… :mrgeen: ).

  2. De passagem... breve passagem... diz:

    Onde se lê: Cumprimentos (Ah, e não se atormente… voltei aqui – à caixa de comentários – de passagem, numa muito breve passagem… :mrgeen: ).

    Leia-se (ou se leia? private joke): Cumprimentos (Ah, e não se atormente… voltei aqui – à caixa de comentários – de passagem, numa muito breve passagem… :mrgreen: ).

  3. Carlos Vidal diz:

    (Duas pequenas gralhas “corrijidas”. Irritantes.)

  4. Concordo: Almada Negreiros foi um genial panfletário, escreveu muito bem, pensou sempre criativamente.
    Orpheu + o texto de apresentação de Amadeo + conferências + livros + artigos em jornais e revistas, etc.

    Discordo: porque foi um muito bom pintor. E extraordinário desenhador !!

    Pena, e volto a concordar, um pouco “decorativo”, a partir do momento em que teve de “atender” aos apelos/encomendas do Estado Novo, de António Ferro…
    No entanto, sempre irreverente ! Se se quiser, permanentemente independente (parcimonioso q.b.) perante tudo e todos.
    Óptimo muralista, com o “Começar” como obra fora-de-série; e todo o seu esplendor, à época, na Gare de Alcântara.

    Almada Negreiros foi, por toda a sua Obra, uma das grandes personalidades portuguesas do Séc. XX !
    Possuiu e manifestou uma inteligência rara !

  5. Concordo em absoluto com a sua apreciação acerca do Almada e julgava que era o único a gostar do Veloso Salgado…

  6. Carlos Vidal diz:

    Caro Donatien,
    Claro que não é o único a gostar do Veloso Salgado.
    Quarta, visite-lhe então alguns desenhos.

  7. bô crê dá mi pão di milho?

  8. Nha pretinha!!! Cantá! bô cha mô ouvir bô voz!
    Sorri, bô chá mô ouvir bô sorriso!!!

  9. Carlos Vidal diz:

    Oh prof diga alguma coisa de jeito.

  10. De passagem... breve passagem... diz:

    Mestre,

    É verdade:
    “(Duas pequenas gralhas “corrijidas”. Irritantes.)”
    Duas pequenas gralhas, muito comuns, mas, de facto: “Irritantes”.

    Ora, eu consigo ser isso tudo… e muito mais… Consigo ser gralha… consigo dar gralhas… consigo ser pequena… e até imagine, SÓ, consigo ser Irritante… e o cúmulo dos cúmulos é que consigo ser isto – TUDO – e muito mais… em simultâneo 🙂

    Não é qualquer uma que consegue proezas destas!

    Cumprimentos :mrgreen:

  11. a converseta que deveria ser sobre o desenho antigo vai para o almada e moderneirismos afins, ora bolas senhor doutor juíz, vou ali já volto.

  12. Pim! diz:

    Caro almajecta,

    Gostei muito de o ler o seu comentário tão desenvolvido e completo acerca do tema “Desenho Antigo”. A parte em que dissertou sobre a qualidade do traço no desenho Academia de Nu Masculino de Columbano Bordalo Pinheiro foi muito instrutiva e enriquecedora. E a análise das obras de António Ramalho, Luciano Freire, Veloso Salgado e Malhoa, apesar de sintética, foi excelente. Senti que valeu mesmo a pena ter lido o seu comentário de 16 de Junho de 2010, 0:02 (fiquei um pouquinho mais culta, dentro das minhas fracas capacidades, é claro!).

    Deixe-me parabenizá-lo, pois é raro encontrar génios com a sua capacidade reflexiva e crítica.

    Na parte que me toca (e me tocou ao longo dos meses, enquanto “comentadeira excêntrica”), sensibilizou-me a atenção que lhe mereci. Conheço-me desde que nasci e sei bem que não mereço tamanho investimento do seu precioso tempo.

    Muito Grata.
    Felicidades. Muitas!

    Pim! (Viva Almada Negreiros!)

    (PS: Ó Carlos Vidal, ó Mestre, ó Doutor, ó Por Quem Sois…, deixe passar este panegírico-laudatório à amorável Grande Alma, o almajecta esforça-se tanto… merece! Sejamos justos…)

  13. Querida Pim: serve a glocal para a dilucidar em blog ajornalado do conteúdo neo-real do desenho tradicional, antigo e assim.
    Pelo que está convidada para a exposição com direito a catálogo e visita guiada.
    Qualidade do traço? Mais uma fã da linha, da linha e do gesto, da atitude em si, não?
    A menina vem prá blogage para se cultivar?
    Pensa que isto é o ensino democrático popular e estatizado?
    Não queria mais nada?
    Jesus Maria José, Nossa Senhora nos acuda destas assassinas do moderneirismo.
    Continue a aprender com o grande Joaquim Bravo, fico agradecido p’la leitura.
    Beijos do seu professor.

  14. grand'alma diz:

    Arrima-lhe ó professor, as pobres querem educação à borla.

  15. olhe que não olhe que não grande alma, a dita parece mais preocupada com a reflexão, a crítica e a justiça como condição da atenção e dedicação amorável, tudo em nome da academia modernista e do seu grande promotor (o pequeno de Tomar), bem entendido.
    Carlos, já agora pode referir a propósito a grande linguagem de desenho criada pelo genial Angelo, coisa em bom, original, diferente e criativa.

  16. Quase esquecia.
    Carlos, pode também referir esse outro grande desenhador Renascentista Veneziano do Porto em ilustração colorida, hoje mais azeda e taciturna.

Os comentários estão fechados.