Aniversário

Há uns anos a direita blogosfera local tentou assassinar Che Guevara pela segunda vez. A sua biblia era um artigozinho da Veja cheia de imprecisões históricas e de citações duvidosas. O artigo era preguiçoso, para colmatar lacunas e cimentar a falta de trabalho jornalístico, o escriba da peça dizia que as suas conclusões estavam alicerçadas na mais importante biografia de Che Guevara, do jornalista Jon Lee Anderson.
O azar é que o biografo leu o artigo e resolveu escrever ao diligente articulista da Veja. Fica aqui a polémica exemplo acabado quando a história dos vencedores se baba de ódio e resolve fazer como se todos fossemos cegos.

Caro Diogo,

Fiquei intrigado quando você não me procurou após eu responder seu email. Aí me passaram sua reportagem em Veja, que foi a mais parcial análise de uma figura política contemporânea que li em muito tempo. Foi justamente este tipo de reportagem hiper editorializada, ou uma hagiografia ou – como é o seu caso – uma demonização, que me fizeram escrever a biografia de Che. Tentei pôr pele e osso na figura super-mitificada de Che para compreender que tipo de pessoa ele foi. O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial, coisa que evidentemente não é. Jornalismo honesto, pelos meus critérios, envolve fontes variadas e perspectivas múltiplas, uma tentativa de compreender a pessoa sobre quem se escreve no contexto em que viveu com o objetivo de educar seus leitores com ao menos um esforço de objetividade. O que você fez com Che é o equivalente a escrever sobre George W. Bush utilizando apenas o que lhe disseram Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad para sustentar seu ponto de vista. No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado. Esteja à vontade para publicar esta carta em Veja, se for seu desejo.

Cordialmente,
Jon Lee Anderson.

Caro Anderson,

Eu fiquei me perguntando, depois de lhe enviar um email pedindo (educadamente) uma entrevista, por que nunca recebi uma resposta sua. Agora sei que a mensagem deve ter-se perdido devido a algum programa antispam ou por qualquer outra questão tecnológica. Também não recebi sua ‘carta’ – talvez pelo mesmo problema. Tudo isso não tem a menor importância agora porque você resolveu o assunto valendo-se dos meios mais baixos – um email circular. O que lhe fez pensar que tinha o direito de tornar pública nossa correspondência, incluindo a mensagem em que eu (educadamente) pedia uma entrevista? Isso, caro Anderson, é antiético. Vindo de alguém que se diz um jornalista, é surpreendente. Você pode não gostar da reportagem que escrevi; ela pode ser boa ou ruim, bem-escrita ou não, editorializada ou não – mas não foi feita com os métodos antiéticos que você usa. Eu respeito a relação entre jornalistas e fontes. Você não. E mais: parece-me agora que você é daquele tipo de jornalista que tem medo de fazer uma ligação telefônica (assim são os maus jornalistas), já que tem meu cartão de visita e conhece meu número de telefone. Se você tinha algo a dizer sobre a reportagem — e já que sua mensagem não estava chegando a seu destino — poderia ter me ligado.

Eu não sei que tipo de imagem de si mesmo você quer criar (ou proteger) negando os fatos que o seu próprio livro mostra, mas está claro agora que é a de alguém sem ética. Você pode ficar certo de que não aparecerá mais nas páginas desta revista.

Sem mais,
Diogo Schelp

Prezado Diogo Schelp:

Agradeço pelo sua ‘gentil’ resposta. (Soube que você é de fato uma pessoa muito ‘gentileza’; você mesmo o disse duas vezes em suas mensagens.) Só agora percebo, o mal-entendido entre nós nasceu exclusivamente por conta de meu caráter profundamente falho. Eu jamais deveria ter presumido que você recebera meu email inicial em resposta ao seu ou minha segunda mensagem a respeito de sua reportagem, muito menos deveria ter considerado que você pudesse ter decidido ignorá-los. É evidente que você tem um sistema de bloqueio de spams muito rigoroso. Uma dica técnica: talvez devesse configurar seus sistema como ‘moderado’ e não ‘extremo’. Se o fizer, talvez comece a receber seus emails sem quaisquer problemas. Lembre-se, Diogo: moderado, não ‘extremo’. Esta é a chave.

Você me acusa de ser antiético, um ‘mau jornalista’. Questiona até se posso ser chamado de jornalista. Nossa, você TEM raiva, não tem?

Enquanto tento parar as gargalhadas, me permita dizer que, vindo de você, é elogio. Permita, também, recapitular por um momento a metodologia utilizada por você para distorcer as informações que o público de Veja recebeu:

Você publicou na capa e na reportagem uma grande quantidade de fotografias de Che, aproveitando-se assim da popularidade da imagem de Guevara para vender mais cópias de sua revista. Para preencher seu texto, você pinçou uma certa quantidade de referências previamente escritas sobre ele – incluindo a minha – para sustentar sua tese particular, qual seja, a de que o heroismo de Che não passa de uma construção marxista, como sugere seu título: ‘Che, a farsa do herói’.

Para chegar a uma conclusão assim arrasa-quarteirão, você também entrevistou, pelas minhas contas, sete pessoas. Uma delas era um antigo oponente de Che dos tempos da Bolívia. As outra seis, exilados cubanos anti-castristas, incluindo ex-prisioneiros políticos e veteranos de várias campanhas paramilitares para derrubar Fidel. (Um destes, o professor Jaime Suchlicki, você não informou a seus leitores, é pago pelo governo dos EUA para dirigir o assim chamado Projeto de Transição Cubana.) Percebi também que você prestou particular atenção no testemunho de Felix Rodriguez, ex-agente da CIA responsável pela operação que culminou na execução de Che. O fato de que você o destaca quer dizer que você o considera sua melhor testemunha? Ou terá sido porque ele foi o único que algum repórter realmente entrevistou pessoalmente? Os outros, parece, Veja só falou com eles por telefone. Mas como são rigorosos os critérios de reportagem de Veja!

Como disse em minha ‘carta aberta’ a você, escrever uma reportagem deste tipo usando este tipo de fonte é o equivlente a escrever um perfil de George W. Bush citando Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez. Em outras palavras, não é algo que deva ser levado a sério. É um exercício curioso, dá para fazer piada, mas NÃO é jornalismo. Dizer a seus leitores, como você diz na abertura da reportagem, que ‘Veja conversou com historiadores, biógrafos, ex-companheiros de Che no governo cubano’ passa a impressão de que você de fato fez o dever de casa, que estava oferecendo aos leitores um trabalho jornalístico bem apurado, que apresentaria algo novo. Infelizmente, a maior parte do que você escreveu é mera propaganda, um requentado de coisas que vêm sendo ditas e reditas, sem muitas provas, pela turma de oposição a Fidel em Miami nos últimos quarenta e tantos anos.

Minha questão não é política. Escrevi um livro, como você mesmo disse, que é ‘a mais completa biografia’ de Che. Há muito lá que pode ser utilizado para criticar Che, mas também há muitos aspectos a respeito de sua vida e personalidade que muitos consideram admiráveis. Em outras palavras, é um retrato por inteiro. Como sempre disse, escrevi a biografia para servir de antídoto aos inúmeros exercícios de propaganda que soterraram o verdadeiro Che numa pilha de hagiografias e demonizaçoes, caso de seu texto.

Não cometa o erro de me acusar de defender Che porque critico você. Serei claro: a questão aqui não é Che, é a qualidade do seu jornalismo. Sua reportagem, no fim das contas, é simplesmente ruim e me choca vê-la nas páginas de uma revista louvável como Veja. Seus leitores merecem mais do que isso e, se aparecerei ou não novamente nas páginas da revista enquanto você estiver por aí, não me preocupa. O que PREOCUPA é que, com tantos jornalistas brilhantes como há no Brasil, foi a você que Veja escolheu para ser ‘editor de internacional’.

Cordialmente,
Jon Lee Anderson.

Toda a polémica e a reportagem em questão podem ser lidas aqui

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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11 Responses to Aniversário

  1. Carlos Fernandes says:

    E o que andou a fazer o Dr. Guevara de la Sierna por Africa, esse ícone dos formatadinhos mentais da esquerda, a par de outros que tais para os formatadinhos da direita, esse santinho com ar angelical da foto do amigo Korda, que não, nunca matou ninguem a começar por companheiros e adversários políticos, e constando que foi ele que, aquando da sua ida a Africa, deu a ideia aos dirigentes dos movimentos independentistas da ida dos conselheiros militares cubanos, que tanta importância tiveram em Angola, e por cuja acção tantos soldados portugueses morreram, muitos dos quais discordando do regime salazarista, mas defendendo, como Norton de Matos, democrata e grão mestre da maçonaria, os territórios portugueses em Africa.

    Sai mais duas camisolas e três canecas com a foto do Che para os palermas da mesa 7, temos de chegar aos 2 milhões de facturação, este mês a empresa dá bonus extra se o objectivo se alcançar…

  2. Nuno Ramos de Almeida says:

    Carlos Fernandes,
    Mais um comentário ao seu nível. Inultrapassável.

  3. Carlos Fernandes says:

    Obrigado, N. Ramos de Almeida, pelo seu ímplicito e inultrapassavel elogio, algo aristocrata…

  4. Nuno Ramos de Almeida says:

    Carlos Fernandes,
    Temos que ser uns para os outros.

  5. Pedro Pousada says:

    O meu sogro que esteve em Angola no início da guerra fez-me um relato impressionante do que viveu e do que matou para defender os tais territórios portugueses, foi a primeira vez que ouvi um relato hardcore da experiência portuguesa na guerra colonial que parecia saído do Apocalipse Now: no Norte, depois dos massacres chegaram a um lugar onde todos os habitantes brancos tinham “sido cortados às postas”; de regresso, na picada, detectaram um grupo de brancos armados que se juntaram à coluna, mais à frente capturaram um suspeito e quando se preparavam para o interrogar um dos brancos que era o dono da fazenda onde tinham estado puxou de uma faca, cortou o desgraçado no peito, arrancou-lhe o coração e disse ” este ainda está quente!”, eles nem tiveram tempo de pestanejar, foi a primeira vez que assistiu a um homicídio; a resposta das tropas e dos colonos aos massacres da UPA foram verdadeiras hecatombes, ele recorda-se de pirâmides de corpos, de catterpilars a empurrarem os cadáveres para as valas comuns e de fazerem tiro ao alvo com os feridos (“eles gemiam e diziam, ó branco ajuda-me, e nós daqui dizíamos, onde é que estás? Acena, e eles, coitados mexiam os deditos, e nós pumba, um tiro e eles lá ficavam, como os outros”), lembra-se do corajoso Spinola enfiado numa Chaimite enquanto eles comiam com os tiros, de lançarem granadas para dentro de grutas onde se escondiam mulheres e crianças, de torturarem suspeitos dando-lhes com uma palmatória nas mãos até que estas inchavam, do médico da base que gostava de usar choques eléctricos nas sessões de tortura e principalmente em mulheres, dos prisoneiros que eram executados quando “tentavam fugir”, da porrada que davam aos “pretos” quando se cruzavam com eles nas ruas de Luanda; fiquei estarrecido mas digo-vos que ele insistia que ainda se tinham feito coisas piores, com o napalm, com a psico; ele dizia que quem os tinha endoutrinado na contra-subversão tinham sido os franceses. Fiquei elucidado.Se os portugueses tivessem realmente coragem de falar do que se fez em àfrica e até das políticas repressivas dos sucessivos governadores de Angola, entre eles Norton de Matos, morreriam muitos mitos, principalmente o do colonialismo de brandos costumes.

  6. RML says:

    Sempre que leio uma troca de correspondência acontece-me o mesmo, mas quando li a desculpa da carta perdida tive a certeza que estava a ler The Gossage—Vardebedian Papers do Woody Allen.
    Muito bom…

  7. Diga-se o que se quiser sobre Ernesto Guevara. Porém, um fuzilador não é um herói. Apenas alguém que matou outrém fora do que fosse um quadro de legítima defesa. Assassino, sem mais adjectivação.
    Quantos e quantos com as t-shirtzinhas ignoram o algoz sanguinário que esse Ernesto foi? Quantos?

  8. Nuno Ramos de Almeida says:

    Sim, uma guerra não é legítima defesa. E é por isso que você acha o presidente Obama um algoz, o país dele tem a pena de morte.

  9. Sou contra a pena de morte em qualquer caso, em qualquer circunstância. Constato em todo o caso que é diferente um Estado executar alguém que haja, v.g., cometido um homicídio hediondo, como, infelizmente, ocorre nos EUA. Idêntica pena de morte por mão estatal que ocorra, v.g., na China ou em país em que vigore a sharia já nem assume sequer esse carácter de ultima ratio que assume nos EUA pois que será aplicado às mais reles bagatelas ou desvios morais”.
    Agora, fora do quadro da legítima defesa, fora do quadro da prática de crimes hediondos, a morte de alguém por motivos políticos é, perdoe-me, imperdoável. Ernesto foi apenas mais um assassino. Para quê e por que razão insistir na sua heroicidade?

  10. Nuno Ramos de Almeida says:

    João Manuel Vicente,
    É interessante imputar ao Che esses alegados imensos fuzilamentos. Mesmo durante a guerra, só traidores e espiões foram liquidados. E Cuba vivia uma guerra civil. Muito poucos, comparativamente a outros países, em sítuações similares. Basta ver o que fez a democrática Grécia durante a guerra civil ou a aliada dos EUA Indonésia que matou um milhão de comunistas depois do golpe de Estado. É verdade que Che guevara está ligado a, pelos menos, um fuzilamento: foi morto dessa forma, por dar o corpo ao manifesto pelas suas ideias.

  11. Se pretende que eu critique expressamente o fuzilamento do próprio Ernesto, de imediato o faço, sem ambiguidade ou hesitação, pois que foi igualmente uma morte por causas ideológicas, um puro assassinato também.
    Critico, aliás, qualquer morte estatal ocorrida em tempos de paz por “delitos políticos”, tal qual têm ocorrido há décadas em Cuba.
    Mesmo em tempos de guerra, acredito e apelo ao tão desrespeitado “direito humanitário”.
    Mas o que me irrita é a não procura activa da verdade pelos portadores das tais camisolinhas do Sr. Ernesto, julgando ostentarem um paradigma da luta justa e leal por um ideal.
    Pergunto: conhecerão todos os dados? Quem de boa-fé patenteia por aí os inúmeros aproveitamentos comerciais da iconografia de Ernesto Guevara fá-lo-ia ainda acaso conhecesse, soubesse dos seus fuzilamentos manu propria? Isto mesmo que tais fuzilamentos tivessem sido de “espiões” e “traidores”, expressões estas que correspondem à roupagem eufemística típica dada àqueles a quem se acusa de delito político? Manteriam as camisolinhas?

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