Estaline bem nos avisou: atenção aos desvios de direita (em que os provenientes da “esquerda” são os piores)

(Sobre a estreia de Inês de Medeiros na blogosfera)

Bom, parece-me que a deputada (e ex-actriz?) Inês de Medeiros enfim se estreou esta semana no blogue dos deputados do PS, com um texto tão longo e banal que, confesso, o tentei ler dez vezes sem nunca ter chegado ao fim. Essencialmente, serve o seu texto para criticar aquilo que a deputada chama de esquerda à esquerda da sua “esquerda”, facto que não concebe poder existir e, a existir, só pode ser indigna (uma esquerda que, por acaso, é a minha). Às tantas pergunta pelas nossas referências deste modo: “só Alain Badiou?” Não, também, claro está, as referências do mesmo Badiou. Estas: Robespierre, Saint-Just, Babeuf, Blanqui, Bakunine, Marx, Engels, Rosa Luxemburgo, Lenine, Trotsky, Estaline, Mao Tse-Tung, Enver Hoxha, Guevara, Fidel…

Mas não era aqui que eu queria aportar (até porque a deputada considera esta lista proibidíssima!). Não era aqui que eu queria chegar, era a outro ponto do seu magnífico texto; leio-a, releio-a e quase não acredito:

Só não concebo nem aceito mais o domínio absoluto da lógica financeira que esteriliza o próprio pensamento económico. Não aceito a sua falta de visão. Não aceito mais esta permanente gestão do presente, este imediatismo sem projecto nem perspectiva. Sem ideias, sem valores, sem ideal. O permanente diktat de quem não tem qualquer problema em assumir que não é uma ciência exacta mas mesmo assim exige ser tratada como tal. “Não há outra solução” repetem incansavelmente. E sobretudo não aceito, como cidadã portuguesa e europeia esta total e absoluta ausência de pensamento politico no que ele tem de mais nobre.

Diz isto a deputada e eu não sei a quem se refere, pois diktat exclusivamente financeiro (e sem pensamento económico) é o do seu “partido” desde a sua fundação (anos 70, malvados anos 70). O défice, cara sra., o défice de 3% (!!). Essa obsessão única!

Poderia, a este propósito, citar António Vilarigues, ontem, sexta, no “Público”: “Andam por aí uns sujeitos que insistem em não nos explicar o porquê do limite de 3% do PIB para o défice das contas públicas. Qual é a lei que dita tal barbaridade?” Saberá Inês Medeiros responder. NÃO, por certo. Não sabe mesmo. Até porque o tempo em que o ex-presidente Sampaio dizia mais ou menos em nome do mesmo “partido” que “há vida além do défice” há muito morreu, às mãos de Teixeira e J Sócrates.

Mas afinal que partido é este em que tudo se pode dizer (como por exemplo fazer críticas à “gestão financeira corrente”, simular uma postura política crítica e, no fundo, não saber sequer o que isso é)? Este partido é a demonstração de que há um lugar, um “partido”, de onde tudo pode vir e tudo instalar-se; e se de lá tudo pode vir ou tudo instalar-se, o que devemos criticar acesamente é o “partido” em causa e não as pessoas. Os protagonistas não interessam, claro – já o sabia Estaline. O que interessa é este caldo de onde vêm ou se instalam Jorges Coelhos, Sócrates, Vitorinos, Vitais, Ricardos Rodrigues (e porque trabalhou com Pedro Costa e Rivette, poupo Inês a esta lista). Que “caldo de cultura” é este? Tinha razão Estaline (vê, Inês, uma referência) quando dizia que não são as pessoas, os nomes, o problema. O problema é o que ele chamava “desvio de direita” e eu chamo “caldo exótico de cultura” (o PS, em resumo). Caldo de oportunismo de fachada social-democrata. Não gostam do georgiano, pois cá vai, e sempre que necessário:

Erram igualmente os camaradas que na discussão do problema do desvio de direita orientam a sua atenção para aqueles que representam este desvio. Mostrem-nos, dizem eles, os homens de direita, digam-nos os nomes, a fim de que os possamos liquidar. Esta maneira de pôr a questão não é justa. De acordo, as pessoas desempenham um certo papel. Mas não se trata aqui de pessoas; trata-se das condições, das circunstâncias que engendram o perigo de direita (…). [Discurso de 1928]

Resumindo, o problema não é J Sócrates, é mesmo o PS todo e a sua “escola”.

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