Para que serve a economia?


Em qualquer domínio das ciências, quando alguma coisa corre mal tenta-se uma solução nova. Só na governação económica é que se persiste em ensaiar as mesmas políticas que levaram à catástrofe.
Segundo o gabinete de estatísticas da União Europeia, a taxa de desemprego passou dos 10,4 por cento em Janeiro e Fevereiro, para os 10,6 por cento em Março e 10,8 por cento em Abril.
O valor de Abril compara com os 9,2 por cento registados um ano antes.
No mês em análise, Portugal passou a ocupar a quarta posição dos países da União Europeia (UE) com a taxa de desemprego mais elevada, segundo os cálculos do Eurostat.
No primeiro lugar da lista estão a Letónia (com 22,5 por cento), Espanha (com 19,7 por cento) e Eslováquia (com 14,1 por cento).
O Eurostat estimou, para o conjunto dos 27, a existência de 23,32 milhões de desempregados, dos quais 15,86 concentrados na zona euro.
A taxa de desemprego nos jovens (com menos de 25 anos) chegou, por sua vez aos 20 por cento na zona euro (19,3 por cento em Abril de 2009) e 20,6 por cento na UE (19,12 por cento em termos homólogos).
Em Portugal, a taxa de desemprego nos jovens alcançou os 22,2 por cento (19,4 por cento em Abril de 2009).
Também segundo o INE, o desemprego oficial e o efectivo continuam a aumentar em Portugal de uma forma significativa. No 1º Trim. 2010, o número oficial de desempregados atingiu 592,2 mil, e a taxa oficial de desemprego alcançou 10,6%. Mas o número efectivo de desempregados, também calculada com base em dados publicados pelo INE, atingiu 729,3 mil desempregados, e a taxa de desemprego efectiva subiu para 13%, o valor mais elevado verificado depois do 25 de Abril.

Recentemente, o presidente do conselho de administração da PT, Henrique Granadeiro, disse ufano que a empresa tinha 4000 empregados a mais. Sinalizando para os mercados com uma vaga de despedimentos que certamente fará subir as acções e os lucros virtuais da empresa. Não será que o único emprego a mais que existe na PT é daquele que advoga desperdiçar a vida e o talento de 4000 pessoas?
A economia dominante e os tipos a quem ela serve defendem que a economia deve servir para aumentarem os lucros das grandes empresas e para que haja um crescimento da capitalização bolsista. Querem-nos fazer crer na teoria do chuveiro: se crescerem muito os lucros para os ricos alguma gota cairá sobre os pobres. Na falta, previsível, de ordenados chegará em esmolas. Estranho sistema que aumenta os seus rendimentos despedindo e fechando empresas.
Desde os anos 80 que esta conversa apenas aumentou os lucros dos do costume e cavou ainda mais o fosso entre os muito ricos e os muito pobres no mundo desenvolvido.
No meio do ilusionismo das notícias do costume e do fogo de artifício da ideologia, querem fazer-nos esquecer que a economia tem de servir para garantir condições de vida das pessoas. É fácil de perceber que isto depende da produção e, sobretudo, do emprego.
Fala-se no défice, mas o maior défice no nosso país é o social. O crescimento das desigualdades e o desperdício da capacidade de milhões de pessoas é o maior problema económico que temos.
Neste país faltam demasiadas coisas. Existem quase um milhão de pessoas que estão desempregada. Essas pessoas deviam estar a contribuir para produzir o que falta e podiam ter uma vida muito melhor do que este sistema decidiu para elas.
Uma alternativa de esquerda ao regime do centrão (PS/PSD e dos seus congéneres europeus) tem de construir um programa baseado no emprego e no desenvolvimento. Um programa que para vencer tem de convencer. ‘O maior feito do diabo é ter-nos convencido que não existe’, dizia Baudelaire. O maior triunfo do capitalismo é ter-nos amputado os limites do pensável e ter-nos convencido a todos que apenas este caminho, de crise para a maioria e de lucros para muito poucos, é possível.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

6 Responses to Para que serve a economia?

Os comentários estão fechados.