«Operário» em desconstrução

O camarada Jerónimo deu uma entrevista ao jornal i. A exemplo de outras, é mais uma entrevista que ajuda a criar um mito em torno de Jerónimo de Sousa. O mito de que ele é, ainda, um operário.

Não se percebe o rigor jornalístico que leva a que se pergunte o ordenado auferido por Jerónimo – ideia logo reforçada pela referência de que se trata do único líder partidário que é operário – e que não permite que se pergunte há quantos anos não o é de facto.

Jerónimo é apenas a face visível do grupo que tomou de assalto a direcção do PCP. Grupo que é responsável pela saída de várias centenas (ainda por apurar) de militantes. Uns pelo seu pé, outros empurrados de forma meramente administrativa. Uma purga disfarçada.

A história do que aconteceu no PCP, ao longo dos últimos 12 anos (a seguir à aprovação pelo Comité Central do documento intitulado «Novo impulso», em 15/02/1998) ainda está por escrever. Aqui e ali vão surgindo alguns contributos. O artigo de Domingos Lopes, publicado no Público a semana passada, é um deles e pode ser lido, na íntegra, neste post do Spectrum.

Imagem de uma fábrica, no tempo em que Jerónimo de Sousa era operário

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16 Responses to «Operário» em desconstrução

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  2. RML diz:

    Esta posta é uma delícia. Entre outras coisas boas, não permite que se saiba que na entrevista se diz, logo no primeiro parágrafo, «apesar de não trabalhar na fábrica há 35 anos».
    Só se destaca o que interessa, o que é evidente e natural (e atenção, acho bem que se faça isso…). Agora, para o objectivo, tanto fazia dizer que era ou não era, ou ser só uma notícia de agenda.
    É correcto que a história do PCP destes últimos 20 anos ainda está por fazer, nomeadamente em relação à tomada de assalto à direcção.
    Muito bem!

  3. Vítor Dias diz:

    Carlos Guedes, espantosamente, andou anos pelo PCP e não conseguiu perceber que, em relação a muitos quadros funcionários do PCP ou em tarefas de dedicação exclusiva ao PCP, nas suas biografias enquanto membros do Comité Central quando consta a menção e «operário», «empregado» ou outra coisa qualquer não se está a dizer que essa é a sua profissão actual mas sim a dizer que essa é, de alguma forma, a sua origem social ou a sua profissão anterior.
    E não se venha dizer que essas classificações são para melhorar em certo sentido as estatísticas sobre a composição social dos dirigentes porque eu conto já, sem nenhum problema, o meu caso: é que eu, quando fui eleito para o Comité Central em 1979, fui apresentado como «empregado de escritório» (logo, entrando para a percentagem global de «trabalhadores» ) e sempre achei que isso é que estava certo pois antes de ser funcionário do PCP tinha sido essa a única profissão que exercera durante cinco ou seis anos. Pois, quando fui reeleito quatro anos depois, já fui apresentado como «intelectual» ( o que, nas fórmulas do PCP, significa não membro da chamada «inteligenzia» mas pessoa que realiza um trabalho de natureza predominante intelectual). É que suponho que os meus camaradas entenderam que o facto de ter andado na Universidade aliado a outras caracteristicas pessoais justificavam essa mudança.

  4. Manuel Monteiro diz:

    E um intelectual que milite no PC há 35 anos deixa de ser intelectual, o Cunhal, por exemplo? Ou queriam que o Jerónimo fosse de novo para a fábrica para que os intelectuais “renovadores” reinassem à vontade? Já o Lenine dizia que a ideologia proletária tinha que ser teorizada por elementos não-proletários porque os operários não tinham condições, devido às suas condições de vida e trabalho, de as elaborar. E isso tem sido uma tragédia. Na revolução são os operários que dão o corpo ao manifesto, mas depois o poleiro do poder, na sociedade e nos partidos, é ocupado por intelectuais.
    Quanto à grande inteligência dos renovadores veja-se o que se passou aos pcs europeus sob a direcção dessas luminárias: desapareceram todos. Resta o PCP e o PC grego.
    Estas minhas observações não implica concordância com a linha do PC, pois que me situo à sua esquerda, agora entre este PC-com baes operárias e populares- e um BE2 prefiro mil vezes o Jerónimo e companhia

    Manuel Monteiro

  5. Carlos Guedes diz:

    Tem razão, RML. De facto está lá o que diz. O que torna ainda mais estranho o facto de se continuar a insistir que o homem é um operário… Acredite que a omissão não foi propositada.

  6. RML diz:

    Acredito que não, como também disse. É uma escolha, e tão legítima como qualquer outra. Mas vá, para ajudar a clarificar a minha posição, um possível critério jornalístico que permite perguntar uma coisa e não outra é uma informação não vir na introdução e a outra sim.

    De qualquer forma, o problema não é esse, admitamos…

  7. CD diz:

    Posta absolutamente lamentavel. Tendo “passado” pelo PCP nada percebeu e nada percebe, sobre a consciência e o papel, a disciplina, solidariedade, coerência e disponibilidade intrínseca e única das classes mais exploradas, sobretudo os operários. Nunca foi incompatível a convivência e a interacção entre os intelectuais e outras de camadas sociais com interesses comuns.
    Quanto ao tomar de assalto, de certo é a expressão mais adequada, aos que quiseram impor a toda a força, outros caminhos e uma certa social-democratização do PCP. Muitos sairam amuados, parecendo os miudos quando perdem à bola… e parece não terem resolvido bem essa saída…
    Há coisas a debater e a ultrapassar, mas este declive ardiloso para concluir coisa distante, além de ser insultuoso, é tipica de quem está atravessado e pouco interessado em contribuir para respostas que deêm mais força aos explorados, face à desgraçada ofensiva que está em curso contra os povos de todo o mundo.

  8. augusto diz:

    Manuel Monteiro já tinhamos percebido isso…

    Aliás quem foi militante do PCP(R) e da UDP, e viveu os anos de brasa de 74 e 75 , na Cergal, na Lisnave, ou mesmo nos quarteis, não pode deixar de saudar a tua ” coerência”.

    Pois eu entre as tuas bases ditas operárias, ( desconhecia, que os operários que militam no BE , sejam burgueses vendidos ao capital, como já li em escritos do PCP), ou populares, ainda prefiro a liberdade critica, a irreverência e a capacidade de propor alternativas de esquerda do Bloco.

    Gostos….a cada um a sua coerência….

  9. JP diz:

    Que post mais primário.

    Diga lá em que é que se baseia para dizer que a direcção foi tomada de assalto. Sabe alguma coisa que os restantes não saibam ou está só a mandar “postas de pescada”?

    E quanto ao Jerónimo, da totalidade da entrevista foi o facto que mais o marcou? Não tem mais nada a dizer em relação ao resto?
    Eu sei que a situação do país (onde nada há para discutir ou para preocupar) não é tão importante como a profissão do Jerónimo mas ainda assim, poderia ter ocupado uma linha. Ou mesmo duas.

    Fraca figura…

  10. Manuel Monteiro diz:

    Augusto
    Não sei porque colocas a minha coerência entre aspas
    Respeito muito os operários do BE, de alguns sou amigo, assim como de outros trabalhadores e intelectuais, que foram meus camaradas no PCP(R). Também há alguns, esse tal de Chora, que me deixam furioso. Agora o que eu não suporto é a linha social-democrata do BE e a exibição dos seus dirigentes nas tribunas de que disfrutam e que não passam de paleio reformista.
    Então, Augusto, para que fiques mais satisfeito, direi que as bases do PC e do BE são a minha familia política, só que com outra política.
    Aquela, sabes, aquela que fez de nós rebeldes, revolucionários, odiados pela burguesia que nos fechava os meios de comunicação, mas amados por uma grande parte do povo…
    Por defender a revolução aos 20 anos chamavam-me esquerdista. Por defender a revolução aos 62 chama-me utópico e idealista. Tu que, pelo escreveste acima conheces a minha história política, bem lá no fundo, sabes que tenho razão. Andas é iludido com essa história dos debates democráticos e tal. Se quiseres aderir à minha organização, reuno o cc- que só tem um elemento, moi- e vamos para a rua dizer aquilo que preconizava o Miguel de Unamuno “VAMOS FAZER UMA ENORMIDADE…”
    Com um abraço de amizade

  11. rms diz:

    Lamento que esta posta tenha surgido no 5Dias. É digno do 31 da Armada ou do Arrastão. Miserável.

  12. José Manuel Vieira diz:

    O 25 de Abril foi há 36 anos !
    Ainda há mentalidades destas ???????…

  13. Manuel Monteiro diz:

    José Manuel Vieira
    E o que tem a ver o cu com as calças?
    Manuel Monteiro

  14. augusto diz:

    Manuel Monteiro estás com 62 e eu com 59 se calhar estes 3 anos fazem toda a diferença, é que eu sinto-me muito bem no BE, e comigo cá pelas minhas bandas, estão velhos camaradas do CARP e da URML (lembras-te) e não nos sentimos nada sociais-democratas, como tu afirmas, mas sendo de esquerda continuamos inquietos, esquerdistas , e com o mesmo espirito de revolta dos nossos 20 anos.

    E que raio com uma memória lixada , é que não esquecemos o que nos fizeram nos anos da ditadura, assim como nos anos de brasa de 74 75, é que sabes, nunca gostei que me dissessem que fazia parte da UDP-CIA

    Um abraço,e certamente vamo-nos encontrando por aí, onde importa, na luta diária do povo contra as injustiças.

  15. Carlos Vidal diz:

    Um post, ou uma coisa, de muito mau gosto.
    Não entendo.

  16. Manuel Monteiro diz:

    Carlos Vidal
    Isto é uma pequena diversão, um pouco à margem dos grandes problemas teóricos, mas, porra, a luta de classes também passa por estes episódios, por assim dizer… familiares.
    Tem paciência e venha de lá essa teoria mais a condizer com os tempos que passam
    Augusto
    Boa luta, meu vellho mas sempre jovem esquerdista
    Quanto ao insulto UDP-CIA, nós respondiamos chamando-lhe social-fascistas, lembras-te? Eram tempo exaltantes…
    Manuel Monteiro

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