Josué

He who despises himself nevertheless esteems himself as a self-despiser“. O aforisma é de Nietzsche, e se a P. o tivesse lido, encontraria mais uma razão para se autoflagelar. Não que elas lhe faltem. Proibir-lhe os grandes moralistas seria aliás profiláctico, porque ela julga sempre que estão a pregar para ela. A minha amiga não ouve Deus em estéreo nem sofre de paranóia, mas para todos os efeitos é ela que está na mira dos dedos em riste. Enfim, uns sofrem de mitomania, a P. julga-se a pior sacana do mundo. Felizmente para nós, é não praticante, mas o potencial de maldade que julga ter em si é suficiente para a condenar no tribunal da consciência, uma pena que a priva de um dos maiores prazeres da vida: enquanto as pessoas normais se deleitam com as perversões do mundo, retirando dos maus exemplos a prova da sua superioridade moral, ela expia como pode a culpa colectiva. Exemplo: eu, morgada de V., li a Solução Final enfiada numa cama quentinha no Oxfordshire, a devorar páginas de mortos e os bombons que sobraram do Natal, dois prazeres que recordo very fondly; ela, a quem recomendei o livro, percorreu os campos de extermínio com a horrível suspeita de que, em circunstâncias favoráveis, se comportaria, se não como um Eichmann de saias, pelo menos como uma daquelas aldeãs lituanas que denunciavam os Juden escondidos nos palheiros, e só por isso chorou como uma nazi arrependida. “N’exagérons rien”, pico-a eu, que acho que é preciso mais do que a teoria para conseguir a carta de condução de pesados; “Talvez pudesses, assim loira e baixinha, começar por fazer de Mädchen ariana e deixar-te fotografar com o Führer”. Foi aí que ela decidiu confessar-se: “Tu gozas porque nunca te contei do Josué”. E contou-me a história edificante que passo a contar-vos, se quiserem ter a bondade de clicar no link que se segue.
Onde é que íamos? Ah, a confissão de P. Se as reguadas inculcassem gramática, Josué era hoje doutorado em Línguas e Literaturas Modernas. P. não sabe se é: perdeu-o de vista há um quarto de século, quando ele deixou a escola primária e não voltou a dar à costa em nenhum ciclo nem liceu da zona. Ele sentava-se ao lado dela, e por isso tocava-lhe sempre na troca de ditados. A coisa funcionava como uma linha de montagem em que todos participavam no esforço de produção do saber: a professora ditava; os meninos escreviam; a seguir trocavam os cadernos e corrigiam os textos uns dos outros; finalmente, a mestra retomava o comando das operações, recolhendo os cadernos e castigando quem tivesse erros na prova.
P. não se recorda da tabela de equivalências (uma reguada por falta? Cinco erros para uma palmada?), mas lembra-se que Josué era sempre o vencedor daqueles torneios florais: ninguém levava tanta reguada como ele. Em contrapartida, a minha amiga era sempre imaculada – P.: zero faults! -, e mesmo se assim não fosse a aura de filha de família poupava-a aos castigos corporais: tirando um puxão de orelhas quando foi apanhada a desenhar uns smileys pacifistas nas unhas, em pleno exercício de Matemática, nunca provou o gosto acre da palmatória. Josué era de um lugarejo próximo, acumulava a escolaridade obrigatória com o pastoreio, em regime de part-time, e era pobre e feio a tempo inteiro. “Eu deixava-o sempre copiar por mim e corrigia-lhe a maior parte dos erros. Mas ele era tão inacreditavelmente burro que nem a copiar ia lá, e sobravam sempre erros suficientes para um arraial de porrada”. Por esta altura eu, que apesar de vir para este blogue mandar umas bocas também sou capaz de empatia, estou horrorizada em partes iguais com a cumplicidade à força de P. e a sorte do pobre Josué. “Mas tu ajudáva-lo, corrigias-lhe a maior parte dos erros…”. “Sim, mas repara: não todos os erros – por uma questão de verosimilhança: a Dona B. nunca acreditaria que o Josué não tivesse pelo menos meia dúzia.” P. recorda o sorriso orgulhoso de Josué quando ele lhe devolvia o caderno, “sem erro nenhum!” (mas se os houvesse, Josué não saberia), e penaliza-se até hoje por ter compactuado sem um ai com o terror imposto pela mestra.
“Sabes o que é pior? Eu não tinha medo da prof., mesmo em pequena percebes que gozas de imunidade (se ela me tocasse tinha logo os meus pais à perna), e para mais eu era rebelde q.b.; então por que é que nunca protestei? Bastava devolver o caderno em branco: ‘Corrija V., a mim não me pagam para isto'”. P. tem os olhos virados do avesso, como se olhasse para um ponto fixo algures atrás do cérebro. “Sabes por que é que nunca protestei?”. Abano a cabeça. “Porque nunca me ocorreu! Até muitos anos mais tarde, nunca me passou pela cabeça! Não achas abominável?”.
“Ouve, a tua professora era uma besta, tu eras miúda, não tens culpa nenhuma. De qualquer forma, o que pensas que terias conseguido com esse gesto, além de boa consciência? No pior dos casos, a professora mudava o Josué para uma tutora menos complacente; no melhor e mais inverosímil, convertia-se às modernas técnicas pedagógicas e abolia os castigos corporais; mas achas mesmo que em algum dos cenários o Josué teria tido alguma hipótese depois de deixar a escola? Pensas mesmo que ias reescrever as condições históricas de produção de drop-outs, e safar o Josué das cabras dele?”. Ela hesita antes de responder, os olhos muito abertos. “Não”, concede finalmente, e eu percebo pelo rubor que isto também não lhe tinha ocorrido.

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