Jamor


O Estádio Nacional foi uma criação de Salazar, levada a cabo pelo seu visionário ministro das Obras Públicas Duarte Pacheco. Construído exactamente no decorrer da 2ª Grande Guerra, o Estádio Nacional e toda a sua área envolvente pretendia ser um marco na afirmação do poder do Estado fascista à imagem e semelhança do que faziam Hitler e Mussolini, respectivamente, na Alemanha e Itália.
Para projectar este Estádio e todo as suas áreas desportivas adjacentes foram seleccionados (julgo que terá sido por concurso) Francisco Caldeira Cabral, Jorge Segurado e Miguel Jacobetty Rosa (a quem é atribuída a autoria do Estádio). Independentemente, do forte cunho ideológico, estes foram (e são) projectos emblemáticos para o estudo da nossa história e da nossa cultura.
Hoje, visitei pela primeira vez o chamado “Complexo Desportivo do Jamor”. Não faço ideia quem o terá projectado ou quem terá sido o promotor de tamanha aberração.
O novo complixo, chame-mos-lhe assim – sem respeito e sem maiúscula, falha totalmente na sua implantação e na escala urbana. Não fosse a sua enorme extensão desapareceria pela imponência da arquitectura fascista e da sua estruturação viária.
Os edifícios que foram objecto de uma intervenção, com particular preponderância nas piscinas, pecam por um excesso de formalismo pós-moderno copiando todos os tiques da arquitectura portuguesa dos anos 80 (desde as cores terra, caixilhos azuis e vidros espelhados). O edifício das piscinas é um desastre no que diz respeito aos seus interiores: da luz titubeante às proporções dos seus corredores (que fazem lembrar as agências bancárias, mais uma vez, dos anos 80).
Os novos espaços exteriores deste complixo são ainda mais desastrosos. As pontes de betão com pavimentos e guardas de madeira, em poucos anos, já estão num elevado estado de degradação. Felizmente, os ares oceânicos, encarregam-se de destruir rapidamente as ingénuas e românticas experiências, de ignorantes autores. A sinalética mantém o nível do overdesign apontando o óbvio e escondendo a saída.
Mas que não se entenda este texto como um apelo a que não visite o complixo, bem pelo contrário. Não acredito que resista muitos anos, e é um excelente exemplo do pato-bravismo nacional alicerçado num novo-riquismo autoritário.
Visite-o, até porque foi você que o pagou!

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13 Responses to Jamor

  1. António Figueira diz:

    Tiago,
    Haja alguma coisa que nos une no terreno desportivo: tens carradas de razão: o “complexo desportivo do Jamor” é um gigantesco monumento de incultura – e uma agressão inqualificável ao histórico Estádio Nacional.
    Abraço, AF

  2. miguel serras pereira diz:

    Perfeito, Tiago, sem mais. E parabéns pela concisão sem simplificação, pela elegância, sem mácula de overdesign, do raciocínio. Não posso dizer que conheça o seu trabalho como arquitecto, mas, se o estilo é o homem, a julgar pelo desta escrita, só posso lamentar essa minha ignorância.

    msp

  3. Vasco diz:

    Feiizmemente (ou não, porque é sinal de que certo clube tem ido lá menos vezes do que é normal) não tive oportunidade de ver o complixo. O meu falecido avô trabalhou na construção. Era canteiro e dizia-me que todo aquele mármore deu um trabalhão.

  4. Tiago Mota Saraiva diz:

    Caríssimos, eu aconselho-vos seriamente a deslocarem-se lá. É um ícone contemporâneo e tive sérias dificuldades em poupar nos adjectivos.
    Vasco, com 60 anos de diferença à custa de inúmeras histórias de exploração, ambas as obras foram realizadas e pagas por todos nós. Uma em que se assumia um carácter marcadamente politico, ideológico e identitário ou o que se lhe queira chamar, outra, sem carácter, bacoca para lazer do rabanete mas, certamente, entendida pelos seus autores como apolítica – como está tão em voga dizer-se.
    As diferenças estão à vista.

  5. M isabel G diz:

    Tiago,
    Leu esta notícia de 25 de Maio?
    “BE questiona Governo sobre venda de terrenos do complexo desportivo do Jamor
    O Bloco de Esquerda pediu hoje explicações ao Governo sobre a venda “inadmissível” de 12 hectares de terrenos devolutos do complexo desportivo do Jamor para construção de acessos a um novo empreendimento urbanístico em Lisboa”
    (…)
    http://www.ionline.pt/conteudo/61622-be-questiona-governo-venda-terrenos-do-complexo-desportivo-do-jamor-

  6. Abílio Rosa diz:

    Mais trágico do que o Estádio Nacional salazarista são os estádios do Euro2004 promovidos pelo então ministro do Desporto, o omnipresente Engº Sócrates, que estão literalmente às moscas, e que mais tarde ou mais cedo, vão servir para as missas da IURD.

    Sempre será uma maneira de rentabilizar aquele «investimento estruturante» que encheu o bolso aos abutres do costume….

  7. Raul diz:

    Concordo, sem deixar de concordar com o Abílio Rosa…

  8. Raul diz:

    Com a a ressalva de que José Sócrates nunca foi ministro do desporto. No entant, nunca fui grande adepto do euro 2004. Apesar de nem todos os estádios serem maus. Mas não é disso que se trata…

  9. Tiago Mota Saraiva diz:

    Isabel, não tinha visto a notícia…

  10. agent diz:

    Se gostaram tanto assim do estádio, também recomenda-se uma visita ao espaço adjacente do estádio, uma espécie de mata, que serve de parque de merendas e de estacionamento só nos dias de jogos. Nos outros dias, o que lá se passa, também se passava no espaço do próprio estádio. Devido à notícia falsa e tendenciosa, de uma “jornalista de referência”, filha de um “advogado de referência”, que saiu no Público, um senhor ministro da altura (nem vou dizer o nome, que se torna tudo ainda mais óbvio) decidiu encerrar o estabelecimento e colocar uns portões verdes do tamanho da vergonha da modalidade que lá se praticava. O que lá se praticava do lado que vos mereceu a visita e o que se lá pratica diariamente no outro, também pode ser obra/herança de Salazar. Chamemo-lhes assim – se bem que o homem não tinha as costas assim tãââoooo largas.
    Não, não falo de jogging.

  11. pluto diz:

    notas sobre o tema:
    1) o processo do estádio nacional, entre os anos 30 e 1944 tem mais sumo do que o clássico cenário fascista para paradas de regime. Estão documentados os outros projectos da época, um deles de Cristino da Silva, e a forma como o plano de Caldeira Cabral explica conceitos ainda hoje pouco compreendidos: ajuste da proposta ao lugar; aproveiramento de um anfiteatro natural existente, poupando nas infraestruturas; pedra e materiais de pedreiras na zona, para fugir à importação de cimento (à época produzido apenas no estrangeiro) etc…
    2) Os restantes monstros dos anos 90, à luz do amadorismo e pato-bravismo que os criou, além das falhas enunciadas ficam ainda mais ridículos se consultadas as razões enunciadas em 1938 (por Caldeira Cabral) para derrotar as megalómanas e estilizadas propostas a concurso. Um dos livros a consultar é “Do Jamor à Gulbenkian – Ensaio da Arquitectura Paisagista”… ou o título é parecido, duma antologia da história do paisagismo em Portugal.
    3) está em curso um plano de urbanização para a foz do jamor, entretanto… classicismo fascista dos 30´s, parolismo populista dos 90’s, como será o 3º acto ?

  12. Infelizmente, as intervenções recentes feitas no “Complexo” são todas desastrosas. Não é só a piscina. Falamos da Nave Coberta do Ténis dentro da zona de protecção e em cima dos jardins históricos da Quinta da Graça, da Nave Coberta de Atletismo em cima duma das principais linhas de água do complexo, do arranjo paisagístico das ilhas de canoagem com uma paleta cromática aberrante, do novo bar da pista de atletismo nº 2, que destruiu o edifício dos anos 40 existente no mesmo local e das obras do projectado campo de golfe, que arrasaram cerca de 24 hectares dos terrenos com maior valor ecológico do vale e fizeram subir 38 cm em média (é isso mesmo, em média) toda essa área, que é leito de cheias, classificado como zona adjacente e protegido por lei como tal…
    Temos vindo a intervir para pôr termo a este desastre. O que se perspectiva ainda é pior, com a urbanização do Alto da Boa Viagem (que vai implantar rotundas e viadutos na mata) e da foz do Jamor (Porto Cruz), com torres de 30 andares e um viaduto dentro do rio, à altura dum 1º andar, a prolongar a CRIL desde Algés até à Cruz Quebrada e daí até ao Alto da Boa Viagem.
    Já temos 2 acções em curso nos tribunais.
    Precisamos de ajuda!

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