Faz-me um post

moi: Hey Jude
ando com uma dúvida de monta
estás aí?
Joana:  estou
dize
moi: de repente a malta dos blogues começou a conjugar uns verbos de forma reflexa
mas se calhar isto já se fazia antes de eu sair do país
tb só há uns anos é que aprendi a escrever órgão com dois acentos
Joana:  exemplos?
moi: “a mim não me faz sentido” “faz-me sentido olhar para as coisas de outra forma”
Joana: manias de lisboa
moi: é horrível
hoje, no 31 da Armada, um fulano diz:
Uma vez que não tenho os talentos de outros para intuir com minúcia a solução de um problema que não se nos aparece, de todo, como óbvia (…)”
não se te parece absurdo?
Joana: são manias
parece-se-nos-lhes mais bonito
moi: pois parece-se-lhes!
é-me incrível!
Joana: tel
mãe
(…)
moi: mas olha, porra
Joana: diz, raios
moi: o google tem 226 mil hits com “não me faz sentido”
assim, entre aspas
Joana: valha-me-lhes deus
moi: se calhar isto é um daqueles barbarismos com pedigree
usados por Eça, ou assim
não me sejas palerma!, já dizia o Quincas Borba ao Brás Cubas
(curiosamente, no filme não diz)
(eliminaram o reflexo)
(e aí já se me parece mal)
(espera aí que já te mando o linkinho)

Joana: ok-te
sai-se post?
moi: pá, não me faz sentido escrevê-lo de barriga vazia
aliás, poucas coisas me fazem sentido de barriga vazia
Joana: isto dos reflexos tem potencialidades limitadas
já não me divirto tanto-lhes como antes-me
podemos falar um bocadinho de mim?
moi: sorry
chegou a A.
vamos jantar ao indiano
Joana: ohhh
diz-lhe q eu ia mesmo agora falar mto de mim
e bem
moi: eu digo-lhe, mas não sei se o problema se lhe aparece grave
Joana: mas pode ser que lhe faça sentido
moi: duvido-me
Joana: beijo-lhe!

Nota: as gralhas foram corrigidas para facilitar-lhes o sentido; a fim de evitar a redundância, eliminaram-se também as tiradas extemporâneas que atestam a lentidão técnica de uma das partes e todos os ahahahahahhahah-te-se-mes.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

14 Responses to Faz-me um post

  1. LM r diz:

    A bem da verdade, o til não é um acento. É um sinal de nasalação.

  2. Antonio Mira diz:

    E que o universo do blog é-nos precisamente umbiguista. O importante não é que a solução pareça óbvia… é que ME parece óbvia. Sujeito da frase? Eu. Complemento? Eu. Predicado? Eu. Orações subordinadas afirmativas ou negativas? Os comentários, se houver.

    Ah! As pequenas janelas ao mundo que são os blogues… 😉

    (Aproveito para protestar energicamente pelo facto de em Portugal falarem de Umbigo e não de Embigo. Sei que tem mais sentido etimológico, mas perde-se um -e de Eu tão sugestivo…)

  3. Pedro Penilo diz:

    Bravo! Bis!
    (por favor, mandem-se-nos uma frota humanitária, socorro-lhe, -se-me.)

  4. joão viegas diz:

    Post espectacular !

    Isto não é de hoje. Nos meus tempos de faculdade era classica a pergunta : “O que se lhe oferece dizer sobre esta matéria ?” (e quem respondesse : “Ora bem, que ensinados por avantesmas a falar desse modo, não admira que os juristas portugueses sejam incapazes de construir um raciocinio claro…” era chumbado !).

    Não sabia que o Bras Cubas existia em filme… Vale alguma coisa (o filme) ?

  5. xatoo diz:

    a água de hoje está-se-me a sentir mais fria do que se sentia ontem, e ela a mim, porque está-se-lhe a sentir-me mais quente
    este é o grande problema de hoje
    nem mais
    cadê os posts relevantes?

  6. JMJ diz:

    a mim parece-me que estou-me a ficar-me cada vez mais um fã de si, minha senhora, e de tudo o que nos escreve-nos.

  7. antonio diz:

    Subscrevo inteiramente o dito do “orador” anterior.

    😉

    • Morgada de V. diz:

      LM r, a vida não seria mais simples se promovêssemos o til a acento e parássemos de ensinar às crianças que não há dupla acentuação em português (fonte dos meus erros de juventude)? É uma sugestão.
      Antonio Mira, bem visto – como é que se diz “e a carapuça serve-nos a todos” em galego?
      Pedro Penilo, logo que se nos apareça possível.
      João Viegas, esse exemplo não se nos choca o ouvido, mas tem muita razão nisso que diz da ininteligibidade dos juristas (e contra mim falo-me), anda por aí muita tolice. A esse título, quero aproveitar para condenar com a veemência que se me impõe o clássico “Fulano de tal, melhor identificado a folhas tantas” (para fugir ao “mais bem”, que se lhes aparece errado).
      xatoo, percebo, não se lhe aquece nem me arrefece.
      Daniel Santos, a mim me não, mas tenho realmente curiosidade, porque nunca tinha visto “faz-me sentido” até recentemente. É uma especificidade sulista?
      JMJ e antonio, céus-me! Eu canto atrozmente, mas tanta simpatia vaut bien un fromage…
      Bom fim-de-semana a todos.

      • Morgada de V. diz:

        P.S. Tb não sabia que havia um filme, João Viegas, descobri-o quando procurei o texto no google, e não sei que tal se safa (mas tenho pena que tenham deturpado aquele “Ânimo, Brás Cubas; não me sejas palerma”, era absolutamente memorável).

  8. Antonio Mira diz:

    É a primeira vez que ouço a expressão, assim que eu faço como que estou pensando uma tradução enquanto pesquiso como um doido na net e pergunto a pessoas que sabem mais do que eu.

    Efectivamente, a carapuça é pra todos. A gente que é bonita cura o narcisismo colocando fotos no facebook ou no flirck… a outros só nos resta o ir mandando umas bocas pra quem queira ouvir… XD

    Aproveito para dizer que em português do norte temos o pronome de solidariedade, que serve para “incluir afectivamente” à pessoa com quem falamos (acho que não existe no galego do sul). São-vos as maravilhas das gramáticas!

  9. Maravilhoso, o pronome de solidariedade! No exemplo que encontrei no google, “roubáronme o coche” (roubaram-me o carro?) transforma-se em “roubáronmevos o coche”, o que eleva a colectivização ao expoente da loucura. Se descobrir o equivalente entre nós, não se lhe me esqueça de mo dizer.
    Tenha-lhe um bom dia.

  10. Antonio Mira diz:

    Não há correspondência portuguesa co pronome de solidariedade, nem no espanhol. É característico do cantinho.

    O caso do carro (coche) não seria assim, já que o pron. de solidariedade antecede o outro pronome (e, na norma oficial, não se separa do verbo por traço). Seria, portanto: Roubáronvosme o coche. No caso de falar só com uma pessoa: Roubároncheme o coche (porque o nosso OI é “che” para diferenciar do OD que é “te”).

    O dos pronomes éche um mundo incrível, não é?

  11. Morgada de V. diz:

    Ó lá se éche.

Os comentários estão fechados.