1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 10… o iluminismo da Dra. Alçada

Quando se pensava que já estavam quase esgotadas as ideias pseudo-milagrosas deste Ministério da Educação, eis que surgiu mais uma: a passagem de um aluno do 8º para o 10º ano mediante certas condições.

Duas notas importantes que há a reter:

1. Esta passagem do 8º para o 10º ano não é um dois em um, mas um dois em… zero. Isto porque esta oportunidade é dada nada mais, nada menos, que aos alunos do 8º que ficam retidos. Ou seja um aluno que no ano seguinte deveria estar a frequentar o 8º ano, passa para o 10º ano. De facto, os malabarismos da “reforma” educativa em curso são dignas de um número de circo…

2. Não é, contudo, uma progressão automática. Para que isto suceda, para que o aluno passe de ano é preciso que o aluno tenha aprovação a TODAS as disciplinas do 9º ano através de provas escritas, seja nos Exames Nacionais de Português e Matemática, seja nos exames de equivalência à frequência das outras disciplinas (que já existem na actualidade, mas para quem frequenta o 9º ano e não faz as disciplinas necessárias)

Vamos então ingenuamente acreditar que é apenas isto e que não há mais nenhum truque na manga. Ou seja, que os exames não vão ter características especiais, não vão ser mais simples e que vai haver uma avaliação verdadeiramente rigorosa, sem directrizes, nem pressões às escolas para que os alunos acabem por passar. Sendo assim, esta medida não é facilitista, é apenas… estúpida. Acreditar que alunos de 15 ou 16 anos, que acabam de reprovar no 8º ano, estão aptos para, no espaço de um mês, terem aprovação a TODAS as disciplinas, incidentes em matérias do 9º (não só, mas principalmente) que eles nem sabem o que são, com realidades e conceitos totalmente desconhecidos, ultrapassa e muito o patamar idílico. É, pelo menos, próprio de uma tutela que, dentro das fronteiras dos seus gabinetes, vive num mundo zen e que não faz a mínima ideia do que são as escolas hoje em dia. Isto já não é propriamente uma novidade, mas fica mais uma forte confirmação.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

7 respostas a 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 10… o iluminismo da Dra. Alçada

  1. Vera diz:

    Eu nem sei o que hei-de pensar, dizer ou escrever.
    Eu, que todos os dias penso como se há-de dar a volta ao nosso sistema educativo que anda a formar estudantes com um nível cada vez mais baixo, fiquei hoje completamente incrédula quando ouvi esta notícia na rádio e quando ouvi o Primeiro Ministro a responder à pergunta do Dr. Paulo Portas no debate quinzenal da AR.
    Sinceramente, gostava de poder dizer ao Sr.PM o que se passa nas Escolas Oficiais. O que é que os nossos Alunos não aprendem, as dificuldades que encontram quando saem do 3º ciclo para o secundário. Estamos a nivelar cada vez mais por baixo e a não estimular a vontade de aprender e de conhecer cada vez mais. As escolas não precisam de ficar “atafulhadas” destes Alunos cujo interesse pelo conhecimento e pela escola é nulo e que só lá andam porque é obrigatório até ao 9º ano e qualquer dia até ao 12º. Estes Alunos só impedem Professores e Alunos interessados de desenvolver trabalho.
    Estou sentada…atónita…à espera de perceber.

  2. Ana Rita diz:

    Os exames não precisam de ter características especiais, não precisam de ser mais simples, basta terem o mesmo grau de dificuldade que tiveram as provas globais de matemática deste ano e até um aluno do 4º ano passa rapidamente para o 10º.

  3. Os alunos com 8º ano e mais de 15 anos têm a escolaridade obrigatória concluída. Ponto final. Exames sobre matérias desconhecidas?

  4. Sim, exames sobre matérias desconhecidas. Quem está a frequentar o 8º, não conhece as matérias do 9º ano…

  5. Pisca diz:

    De certo modo está aqui a recuperar-se algo que existiu penso que até 1974.
    Uns chamados exames trimestrais para quem estivesse no serviço militar e quisesse concluir o então chamado 5ºano liceal, com as áreas de letras e ciências, ou ir mais além até ao 7º da época
    O aluno ia fazendo umas explicações particulares, o negócio estava montado por tudo o que era lado, e lá se ia propondo a exame, depois lá ia passando porque havia que ajudar quem estava na tropa.
    Um dia vi e ouvi uma sublime oral de Francês, onde depois de muita luta da examinadora, ao fim de quase 15 minutos de tentativas, conseguiu a proeza de arrancar uma palavra ao examinando, “Adamo”, o nome do cantor, mas que custou isso custou o que nem sonham, claro que depois de tão brilhante dedução o examinando devidamente fardado, foi aprovado
    Claro que também houve quem aproveitasse estas benesses e tivesse feito um percurso académico impecável

  6. Zé Miguel diz:

    É impressionante o ponto a que chega a loucura pelos números e pelas bom estatísticas. Esta Ministra da Educação já perdeu o seu estado de graça! Depois do anúncio do fecho de 900 escolas, por critérios puramente económicos, apresenta agora esta ideia completamente idiota que só tem um único propósito reduzir estatisticamente o insucesso escolar nas escolas.

  7. Manuel Reis diz:

    Eu quando leio algum comentário sobre um qualquer assunto, parto sempre do principio que o comentarista está a dar a sua opinião sobre algo que entende.
    Mas tenho que mudar de ideias, ao ver tudo o que se tem escrito sobre um tema que tem a ver com os exames do 9º ano ou 3º ciclo.
    Em primeiro lugar, é totalmente descabido o enfoque dado pelo jornalista, ao escrever em letras garrafais que o Governo quer passar alunos do 8º ano directamente para o 10º.
    Este realce, dá a entender que só agora é possivel um aluno concluir um ciclo de estudos sem passar por todos os anos intermédios, quando isto acontece desde que há exames, (basta ler os regulamentos de exames ao longo do tempo) sempre foi possivel a um jovem com o 6º ano (ou 7º ou 8º), candidatar-se aos exames do 9º ano e assim concluir o 3º ciclo, bastava para tanto que estivesse fora da escolaridade obrigatória e não estivesse matriculado no 6º dia do 3º período. Portanto isto não é nenhuma medida recente, nem sequer ouvi alguma contestação ao longo dos anos…
    A única novidade deste ano tem a ver com a nova lei da escolaridade obrigatória que é de 12 anos (até aos 18 de idade), tendo começado por abranger os alunos matriculados em 2009/2010 no 7º ano. Ora, em 2010/2011 este limite abrange os alunos que se matricularem no 8º ano. Sendo assim foi pensado pelos serviços que seria de dar uma oportunidade extra aos alunos que reprovassem por frequência no 8º ano e que estivessem já fora da escolaridade obrigatória actual (15 anos), de permitir que fizessem também exames do 9º ano na qualidade de autopropostos, à semelhança do que já acontece com os do 9º ano e com aqueles que anularam a matricula antes do 6º dia do 3º período… Foi só isto, uma medida certamente sem qualquer relevância e nº de alunos abrangidos, mas que salvagurada algum aluno que tenha tido algum problema imponderável no seu percurso escolar e que tenha capacidade para ultrapassar uma meta dificil…
    É simplesmente este o assunto que tanta celeuma levanta neste momento, na maior parte dos casos de forma leviana e gratuita e noutros casos com objectivos nitidos de atingir o Governo, que tenho a certeza, não mexeu uma palha para que isto acontecesse, pois certamente nem o 1º Ministro ou até a Ministra da Educação alguma vez foram confrontados com um problema que na prática terá um efeito irrisório em termos estatisticos de retenção ou abandono escolar. Aliá tenho a certeza que o funcionário ou equipa que teve a ideia de propor esta medida já deve estar completamente arrependida de ter pensado no assunto…

Os comentários estão fechados.