Bom, até poderei votar Alegre contra Soares (se este insistir no costumeiro ressabiamento vociferante – que me parece imparável e um contributo inestimável para a vitória de Alegre)

Vejamos. Uma confissãozita inconsequente. Confesso que a personagem Manuel Alegre, mas nunca o político com o mesmo nome, me é algo simpática. O seu gosto e prazeres, ou o gosto por prazeres meio aristocratizados, como a pesca, ou a caça e os touros (e aprecio mais estes que as duas actividades primeiro citadas, para as quais não tenho nenhuma paciência) têm a sua graça. Já sobre a sua poesia não tenho muito a dizer: fica menos mal cantada por Adriano Correia de Oliveira (voz de sempre, voz comovente e imbatível de emoção e cortante denúncia). Lida, ao lado dos que devemos ler, lida ao lado de Ruy Belo, Joaquim Manuel Magalhães, Gusmão ou Herberto não sobrevive. O “assim-asssim” da Agustina peca um pouco por excesso. Mas não é isso que aqui está em causa.

A pessoa é-me simpática, a sua trajectória política pós-25 de Abril não me é nada simpática. Foi uma trajectória na sombra de um partido formado contra a esquerda portuguesa, contra a verdadeira esquerda de emancipação (eu não estava lá, mas desconheço em pormenor porque é que no encontro de constituição do “PS” Salgado Zenha, a sua figura mais capaz, votou “contra”). Claro, o anticomunista M. Soares chefiou logo a coisa. E recentemente, numa entrevista ao “Expresso”, confessou mesmo achar estranho ser ele o “chefe” considerando a sua menoridade cultural e intectual em relação aos outros: a Zenha, por certo, como a Cardia, claro, entre outros. De Zenha veio mesmo a separar-se por causa de Eanes (uma figura eticamente irrepreensível, mas com quem não me identifico ideologicamente), como em 2006 de Alegre (que o humilhou eleitoralmente).

Soares apareceu e aparecerá sempre como o coveiro do 25 de Abril, o homem de Carlucci, o novembrista coveiro do “socialismo” (mesmo em versão “pseudo-social-democratizante” nórdica, na versão soarista, evidentemente), o inventor da “gaveta” que nunca existiu porque nele nunca existiu socialismo nenhum. O seu mítico prestígio internacional foi totalmente desmentido quando perdeu a presidência do Parlamento Europeu para uma desconhecida Nicole Fontaine, a quem, como a Zenha, tratou de forma mesquinha, chamando-lhe “dona de casa”.

Agora, escreveu isto no “Diário De Notícias” de segunda-feira:

Manuel Alegre declarou-se candidato à Presidência por decisão própria e sem consultar o PS. O Bloco de Esquerda, logo a seguir, resolveu, pela boca do seu líder, apoiá-lo. Ao contrário do PCP, que, desde logo, deu a entender ter um candidato próprio. O PS ficou silencioso mas, a pouco e pouco, tornou-se claro que uma parte dos seus militantes e dos seus eleitores habituais não apoiavam Alegre. Eu fui um deles. Por razões exclusivamente políticas.

É evidente que ninguém, ninguém mesmo lê isto sem se rir. E por vários motivos: primeiro, a última incrível frase, “por razões exclusivamente políticas”. Repito, porque me apetece: “por razões exclusivamente políticas”. Mesmo se tal correspondesse a algum átomo de verdade (para usar uma expressão de Marx, aquele que faz sono ao sr. Soares), teríamos de rir ainda com mais força: aliás, à citação acima Soares acrescentou que tal apoio seria um erro fatal e trágico para o PS. Oxalá fosse, mas não será: o PS é uma máquina de poder muitíssimo bem organizada. O “S” não está lá a fazer nada de nada. Claro, aquilo é só máquina de conquista de poderes (o partido de Jorge Coelho, e está quase tudo dito), em contraste com o PSD, que também o é, mas desorganizadíssima. E é esta a diferença única entre os dois “partidos”.

Releia-se o que disse Soares. Então é o ex-candidato do PS que, com toda a máquina do partido por detrás de si não passou dos 14% !!!!! de votos que vem dizer algo e adjectivar o apoio a Alegre?

É aquele que sabe nem valer eleitoralmente 14% (bom, chegou lá com uma “máquina total” atrás de si, apenas) que vem dar o alarme?? Haverá pior mensageiro para esta mensagem, e melhor notícia para Alegre?? Creio que não. O sr. 14% não deveria comentar mais este assunto de presidenciais – levou o PS abaixo dos mínimos históricos de Almeida Santos (se não estou em erro, os mínimos do partido pertencem ao óbvio A. Santos; mas como esta nunca foi a minha “família” posso estar enganado).

Quer isto dizer que simpatizo com a candidatura de Alegre e ele poderá ganhar? Nem pensar, não às duas coisas: nem simpatizo, nem ele ganhará.

Ao ter agora aparecido como o “candidato do PEC” quando antes fora graciosamente “rebelde”, obviamente que Alegre acaba a desagradar politicamente tudo e todos, e caminha – digo eu – para um máximo de 16 ou 18% de votos com derrota garantida à primeira volta. Não creio estar a enganar-me (Nobre ficará pelos 5 a 8%, não mais; o candidato do PCP poderá surpreender, e espero que surpreenda, pois é o meu candidato).

Mas qual foi, digamos, o momentum de Alegre? Foi até ao final de 2008; mais ou menos por essa altura escrevi aqui um post intitulado “O que eu desejo para a esquerda em Portugal”, onde referia que o PS era o principal inimigo de qualquer coisa ou alternativa que se chame ou mereça o nome “esquerda”, desde as mistificações da Alameda às alianças com o CDS e bloco central, desde as vitórias de Soares (e visitas a Belém de Berlusconis e Cia.) até à ascensão de J Sócrates. Se esse partido é “o” inimigo, então porquê lá continuar militante? Pela equívoca contabilidade de lá captar eleitores? Quantos? Que percentagem? Escassa. Nula.

A Alegre caberia entre 2007 e 2008 romper e fragmentar o PS, retirar de lá quem se identificasse com mínimos (mínimos e reformistas) argumentos de esquerda (serviços públicos dignos, sector público estratégico, educação, saúde e prestações sociais…), juntar-se em movimento cívico a vozes e movimentações da área do Bloco de Esquerda ou do PCP. Não se desfiliou, não cumpriu a sua missão, agora é muito tarde.

Mas… há o factor “Soares” e a antipatia automática que suscita na sociedade portuguesa. Única esperança para Alegre.

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17 Responses to Bom, até poderei votar Alegre contra Soares (se este insistir no costumeiro ressabiamento vociferante – que me parece imparável e um contributo inestimável para a vitória de Alegre)

  1. Concordo com grande parte do texto, incluindo a previsão eleitoral para as Presidenciais (embora ache que Alegre vai ter um resultado ligeiramente melhor). Mas discordo de um pormenor: “A Alegre caberia entre 2007 e 2008 romper e fragmentar o PS”. Não julgo que tivesse de sair do PS e concordo com alguns motivos para não o fazer: é, para todos os efeitos, um histórico do partido e não lhe seria fácil deixar o Partido “Socialista” entregue definitivamente aos bichos, sem oposição interna ou vozes incómodas.

    Quantas vezes nos mantemos em estruturas com as quais não concordamos, apenas porque ainda acreditamos que conseguiremos mudar alguma coisa e/ou porque ao sairmos estamos a satisfazer os seus dirigentes? No meu caso, se me mantiver sindicalizado no SPGL da FENPROF (depois dos erros “ingénuos” dos últimos anos), será apenas e só por causa disso…

  2. Carlos Vidal diz:

    Compreendo, João Torgal, e tendo a concordar com algumas hipóteses de transformação “desde dentro”.
    Acontece que no “PS”, objectivamente, nada há a fazer “desde dentro”. É uma organização tentacular de poder e distribuição de poderes, não estou certo de que seja um partido político.
    Não se está no “PS” por interesse político. Aquilo nada tem a ver com política.

    Acontece que, feitas as contas, Alegre poderia ter um score maior se hostilizasse abertamente o “PS”, de lá poderia sempre retirar uma percentagem interessante de votos/eleitores.
    Desse modo, entraria com (mais) facilidade no eleitorado do BE.
    E tinha chances no do PCP (como teve).
    Mais facilmente se poderia abeirar dos 20% (ou um pouco mais).
    Além de que seria eticamente valioso, partir o “PS” em nome de uma ideia limpa de social-democracia (assunto que não me preocupa em demasia, pois não sou social-democrata).

  3. Carlos Vidal,
    Passei uma quase noite a ouvir o Adriano Correia de Oliveira a contar-me como surgiram algumas das suas cantigas, e se já tinha apreço pela obra e pela pessoa do M.A., a coisa assim ficou. Quando M.A. se transformou em braço direito de M.S. para algumas patifarias, como a de como S.de Estado ter levado a efeito uma maldade que, nas circunstâncias em que se verificou só muito poucos o conseguiriam, o fecho do Século, que M.S. sempre quis, reforcei uma certa tristeza por ver o M.A. a prestar-se a este tipo de papel. Aquando da candidatura de S.Z. à P.R., M.A. escolheu o mesmo lado de sempre, mas com uma pequena particularidade, é que se gabou aos sete ventos que estava do lado do seu grande amigo M.S.. Ora, como ando na vida e na política com a ética debaixo de um braço e a memória debaixo do outro braço, vou aproveitar estas eleições presidenciais para cumprir três desideratos éticos e de memória:lembrar um tempo, votar na memória de S.Z., pagar uma dívida a um amigo que entretanto morreu e a quem eu num certo momento convenci a votar M.S. por receio da vitória caceteira de F.A. Esse amigo votou tão convencido em M.S., que fez questão de me dizer após o ter feito que tinha votado em mim e não no M.S.
    Que bom que vai ser!

  4. Justiniano diz:

    Caríssimo Vidal,
    Nestes tempos de dificuldade agarram-se todos ao princípio da utilidade, à máxima convolação possível, mas não o fazem por prudencia, uma vez que se desobrigaram de toda a virtude, apenas para aproveitar um qualquer efeito útil.
    Mas, caro Vidal, depreendo, de o que nos tem dito, que a coisa esquerda não tem esperança nesta eleição e que o outro lado, da quase esquerda, quase direita, se entrincheira, por detrás de uma aparente unidade, em volta do nosso actual presidente, sabendo-o sem força, sem prudencia, rodeado de temores, asténico, tibiez, tudo tão redutoramente utilitário como a coisa que descreve.
    Tempos difíceis, estes, em que todos querem entregar o destino ao acaso disfarçado de prudencia!

  5. closer diz:

    «o candidato do PCP poderá surpreender, e espero que surpreenda, pois é o meu candidato»

    Este, ainda está convencido que há amanhãs que cantam. Nenhuma queda de nenhum muro lhe abala as convicções. É uma questão de fé. Um dia ainda vai aderir às Testemunhas de Jeová…

  6. Gosto muito desta frase. Fez-me lembrar o Gracián:
    “Tempos difíceis, estes, em que todos querem entregar o destino ao acaso disfarçado de prudencia!”

    Como balanço deste triste “apocalipse triste”, a frase é correcta.
    Agora também se deve considerar que não é só Cavaco que representa a quase esquerda, quase direita (de facto é homem de nada politicamente: daí a justeza do seu “quase”).

    Mas, Alegre, é igualmente quase esquerda, quase direita.
    Importante: Alegre mantém a mesma distância que Cavaco em relação ao PEC (versões I, II, III…).
    Ambos acham que o PEC é uma inevitabilidade e que resta aos governos “falar verdade” que a comunidade “compreenderá”.
    Deus os junte.

  7. grandes referências à poesia das escadinhas do duque, vai vota conde.

  8. Bons nomes os meus, Jecta.
    Nem mais.
    Preferes o aristrocata (conde) de Águeda?
    Como aristrocrata, sim, interessante, como poeta, não.

    Mas, por influência de M. Soares sou mesmo capaz de votar no poeta.
    É que sou mesmo.
    Não tarda muito, registo o slogan: “Vota Alegre contra Soares!”

  9. Justiniano diz:

    Realmente, caro Vidal, até se me dá coisa de quase prosador com algum romantismo (Grácian, sim, mas também e de repente, agora que o diz, W. Blake ou a desesperança de Nietzsche, mas sempre longe de todos que a minha reduzida arte para tal não dá), é, sem dúvida, das inevitabilidades, como bem diz.
    Não a dos PECs, que é sintoma, mas as inevitabilidades que nos governam, com medo, acomodadas ao conforto, com a burguesia proletária e a burguesia senhorial mas, verdadeiramente, sem burguesia nenhuma!!
    Andou o Garret a cansar-se mas o Eça é que veio a saber(confirmar) que esta terra só dá nobres e plebeus!!
    Um bem haja,

  10. Justiniano diz:

    Bem verdade, caro Jecta! E se não é Conde, faça-se! Se lá não chegar é porque não se cumpriu, é plebeu!!

  11. Paulo Ribeiro diz:

    Carlos Vidal,

    Lamentalvelmente, ninguém se interessa pelas tuas preferências. Contudo, aposto, que o Benfica voltará a ser campeão. E tu?

  12. miguel dias diz:

    caro Vidal,
    lá isso do Alegre e do outro não me interessa para nada, por isso não comento.
    Mas tal como fizeste gostava de (re)sublinhar a frase do Justiniano, digna do jesuíta de quem, como sabes, sou grande admirador.
    É com comentadores destes que se avalia o calibre do bloguista. Quem nunca foi comentado pelo Justiniano não é nada nem ninguém.
    Um bem haja para ti, para o Alma, e, claro está, para o grande Justiniano, o melhor comentador da blogoesfera portuguesa.

  13. Niet diz:

    Carlos Vidal e Justiniano: Que sopro de doçura e de inteligência trágica vos anima. Não se cansem de o aprofundar. Tivemos o sublime momento Grácian- que fez vibrar Vidal( sabe que Sócrates,o grego, era filho de escultor?); e desfrutámos da transmissão polifónica indelével da imprecação de Maquiavel nos argumentos de Justiniano: ” querem entregar o destino ao acaso disfarçado de prudência “. Sabem V., de certeza iniludível como Nietsche, que o ” humano que quer depender de si-próprio- tem necessidade de conhecimentos totais, da filosofia “. Niet

  14. Carlos Vidal diz:

    Gracián, Maquiavel e Benfica.
    Estes comentadores amigos são fenomenais.
    Aos 2 primeiros dedico estudo, ao glorioso dedico festejos.
    E o poeta?

    O que faz? Uma ode?
    Talvez píndaro pindérico, mas bom homem, nada que se compare com o “dono” do Campo Grande.

    Como diria o Jecta, vota conde.

  15. assim como assim, será o sonho social total,
    a faca corta o doce e tal
    e
    a escultura é uma presença real.

  16. Estás perdido a ler Manuel de Freitas estou a ver, assim lá se vai o prego pregado pelo martelo.

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