Uma escola exemplar no fim da linha?

“Ao abandono de um país” – trabalho fotográfico de Hélio Gomes

O Tiago já tinha dado o alerta para a prenda sinistra que o Governo preparou para dar aos vindouros no Dia da Criança. Se a intenção já era vergonhosa, a argumentação de Isabel Alçada é mentirosa e um insulto a quem não viva do que se conta nos livros de aventura. Diz a ministra: “A intenção do Ministério da Educação é que todas as crianças portuguesas beneficiem de escolas com todos os requisitos que a Educação do século XXI exige: salas com equipamentos adequados, espaços de biblioteca, refeitórios e espaços para o exercício de desporto”. O seu Secretário de Estado, João Mata, completa o embuste dizendo que se pretendem encerrar unicamente “escolas  de insucesso, isoladas e sem condições e sem recursos adequados ao sucesso escolar”. Quando sabemos que o único argumento é o financeiro as boas intenções têm a perna curta e devem ser desmascaradas.

São cerca de 15 mil os alunos e famílias afectadas com um impacto social impossível de medir. Se a medida é aberrante na sua generalidade, quando se desce ao terreno concreto ela revela o lado mais obscuro do PEC e da austeridade que nos querem impor.

A Comissão de Pais de uma escola modelo, no Alentejo, fez chegar ao Cinco Dias um caso concreto, que passamos a contar na primeira pessoa. Se dúvidas haviam quanto ao carácter deste Governo, que se dissipem. Passámos do socialismo liberal para o socialismo demencial. Não há outra leitura possível.

Pela Comissão de Pais e Encarregados de Educação dos alunos da escola da Boa Fé:


Contra o encerramento da escola da Boa Fé (Évora) – Uma escola modelar do ensino público de qualidade em meio rural.

Avisos prévios ao leitor:

  1. este é apenas um ‘caso de estudo’ no marco de um ataque generalizado (a) ao ensino público e (b) à qualidade de vida das populações mais desfavorecidas do interior;
  2. a Comissão que subscreve este manifesto foi criada espontaneamente para defender uma escola que é propriedade de todos os portugueses, convidando o leitor a apoiar activamente esta causa pública e a combater os ataques em curso contra as estruturas públicas que funcionam exemplarmente no nosso país.

O encerramento desta escola é sintomático da política paradoxal, actualmente em curso, para desertificar o interior e isolar as populações rurais: à construção de auto-estradas faraónicas, onde se atribuem contratos milionários a mega-empresas, contrapõe-se o encerramento de escolas e postos médicos locais, impulsionando as populações das periferias a migrar para os aglomerados urbanos. (Percebe-se ao serviço de quem estão afinal as auto-estradas que aproximam o litoral urbano do interior abandonado: do turismo de luxo que frequenta os ‘resorts’ que, como cogumelos, despontam por toda a parte; enquanto o país se endivida, os ricos circulam, mas isso são outras contas…)

Há uma semana, ou seja, a menos de um mês das matrículas para o próximo ano lectivo, e sem qualquer aviso prévio, o presidente da Junta de Freguesia da Boa Fé, recentemente eleito pela CDU, foi convocado para uma ’reunião-surpresa’ na escola da sua freguesia, onde compareceram altos representantes da Câmara Municipal de Évora, da Direcção Regional de Educação do Alentejo e da Direcção do Agrupamento de Escolas nº3. Estes comunicaram-lhe unilateralmente que as actividades lectivas de ensino básico da escola iriam encerrar no final do presente ano lectivo. Sem mais conversa, sem mais diálogo. O argumento evocado foi o do ‘isolamento’ das crianças. Afirmaram peremptoriamente que, um dia mais tarde, na Escola Secundária, aquelas crianças iriam desintegrar-se.

Sem o apoio de qualquer relatório técnico, estudo, parecer, ou de uma simples avaliação feita às crianças por psicólogos, aquelas senhoras e senhores – que jamais viram a dita escola em funcionamento e jamais ouviram uma palavra da meia dúzia de professores que lá trabalham – não tiveram dúvidas em evocar o ‘isolamento’ das crianças para justificar a decisão tomada. Mas como podem os alunos daquela escola ser considerados ‘isolados’ por quem nunca os observou-analisou-estudou?

O argumento do ‘isolamento’  faz todo o sentido para escolas com muito poucos alunos, mas não para uma escola onde diariamente convivem mais de 15 crianças e onde as previsões para o próximo ano apontam para cerca de 20 (somando o número total de crianças: do jardim de infância e do ensino básico). Os professores das actividades extra-curriculares consideram por quase unanimidade que, (a) pelas excelentes instalações, (b) pela qualidade do ambiente humano e (c) pela motivação e interesse demonstrados pelos alunos (que se traduzem nas notas por si obtidas e no seu excelente comportamento), esta é a escola que funciona melhor, das várias onde trabalham! Ora, se os alunos revelassem sintomas de ‘isolamento’ (incomunicabilidade, dificuldades de expressão, timidez, falta de sociabilidade, má educação), isto não poderia logicamente suceder.

Quanto ao funcionamento exemplar de uma escola que tem para oferecer um produto de elevada qualidade, Vasco Fretes, coordenador pedagógico da Dança nas Escolas, considera-a mesmo a melhor de todo o distrito de Évora: “Neste momento, na minha opinião e pelo que falo com outros professores esta é a melhor escola onde se pode trabalhar neste momento. (…) É a escola ideal para se desenvolver um projecto estruturado e consistente onde sei à partida que a escola tem as condições ideais para proporcionar um crescimento progressivo, em harmonia, tranquilo à criança. Como coordenador esta é a minha preocupação neste momento. Onde encontrar escolas como a da Boa Fé?” A opinião dos professores de música, educação física e de inglês, que também contactámos, vai no mesmo sentido, pelo que o último afirma: “fico surpreendido com a referência ao isolamento das crianças. Não o detecto, dado que o grupo é coeso e não demonstra comportamentos isolacionistas. A escola funciona bem e a turma, ainda que pequena, é uma excelente turma.”

Redigidos por profissionais independentes e devidamente competentes, estes são os únicos depoimentos fundamentados que existem acerca do funcionamento da escola da Boa Fé, que, com excelentes condições logísticas e um generoso espaço de recreio (frutos de investimentos sucessivos realizados pela Junta de Freguesia), é um dos pilares em que assenta a luta contra a desertificação de uma freguesia que, contando já com um novo loteamento aprovado pelo PDM, tem atraído recentemente vários casais jovens para aí residirem, prevendo-se que venha a atrair muitos mais. E todos aqueles depoimentos são unânimes: esta escola exemplifica o que de melhor se tem feito, em meio rural, no combate ao insucesso escolar e ao isolamento dos alunos; é um modelo que devia ser estudado e seguido pelas restantes escolas do distrito!

Facilmente rebatido o argumento do ‘isolamento’, a verdade surge-nos nua e crua: a decisão do encerramento é exclusivamente administrativa. O ‘isolamento’ foi a mentira, o embuste que representantes nossos (da Câmara Municipal, da Direcção Regional de Educação e do Agrupamento de Escolas), unicamente preocupados em reduzir a despesa pública sem olhar a meios, forjaram para nos iludir. E, em democracia, isso é indigno e inaceitável. Quem tem por função representar-nos tem por dever esclarecer-nos e informar-nos; nunca enganar-nos!

Por isso, continuaremos em luta por um direito que nos assiste: educação de qualidade na nossa zona de residência!

A Comissão de Pais e Encarregados de Educação dos alunos da escola da Boa Fé,

1 de Junho de 2010

Para mais esclarecimentos contacte-nos por mail: comissaodepaisboafe@nullgmail.com

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