Não é o Alegre, é a Clara Ferreira Alves que federa as cenas

Cuido já estar inscrita na memória histórica dos cidadãos (cf. Vias de Facto) a célebre epístola de Vasco Pulido Valente (VPV) a Clara Ferreira Alves (CFA). Serviu acima de tudo para lhe enfiar umas chapadas de capital simbólico e insultá-la pelo que facto de, tal como ele, não ter Pulido Valente no apelido (palavra de honra) e, ao contrário dele, não pertencer àquela elite rançosa e tribal de Lisboa. Nestas merdas – o que por exemplo não acontece com o terrorismo israelita e a resistência islâmica – sei de que lado estou: torço pela Clara até às últimas consequências e i got a feeling de que não sou o único, embora a crítica ressabiada (mas muito à vontade com Agamben) não se encontre propriamente em vias de extinção. Portanto, apoio incondicional à Clara – tal como o BE procedeu com Alegre – e, se for preciso, retiro o terço de madeira que tenho no retrovisor do carro e enfio lá uma placa com o seu último grande desabafo: «eu pessoalmente estou farta de dar o meu contributo para salvar a Pátria». Como eu te percebo, bebé.

Pois bem, como eu sou um gajo meio desconexo mas muito intertextual, reconheço desde logo em VPV e CFA um único, britânico e pornográfico denominador comum: Mena Mónica. Vai daí – e aproveitando para entregar a comenda de mérito ao ilocalizável João Pedro George – penso ser da mais elementar justiça relembrar uma pequena  paródia que este especialista em bater no ceguinho (Cf. caso Rebelo Pinto) redigiu há coisa de meia década. Versa a dita sobre o programa de Daniel Oliveira onde a direita não existe e há um gajo chalaceiro e de punhos labregos que nunca disse uma frase com sujeito, predicado e, vá lá, um complemento. Tomai lá, a ver se gostais:

Nuno Artur Silva: Boa noite senhores telespectadores… Vamos falar hoje de presidenciais e…

Clara Ferreira Alves: …alguém leu o último livro de Graham Greene?

José Júdice: Ó Clara, por amor de Deus!

Maria Filomena Mónica: Isso é interessantíssimo!

Daniel Oliveira: Eu quero dizer alguma coisa sobre isso…

José Júdice: Cala-te, já falaste muito…

Maria Filomena Mónica: O D. Pedro V era inteligente de mais para os portugueses…

Clara Ferreira Alves: Mas nós somos parte da elite…

José Júdice: Sim… nós somos parte da elite… Mas quanto menos ideias tivermos, melhor…

Maria Filomena Mónica: Estou de acordo com o Zé… Por exemplo, devia haver uma lei que proibisse os presidentes de terem ideias. O Presidente da República devia ter amantes, dar grandes jantaradas…

Clara Ferreira Alves: E mudar a decoração do palácio, não sei se já repararam mas o Palácio de Belém é horrivelmente lúgubre…

José Júdice: Desculpem lá, eu acho isto de uma gravidade… quer dizer… os candidatos, todos, andam com as camisas mal passadas a ferro e tu vens falar da decoração do palácio…

Maria Filomena Mónica: Estou de acordo com o Zé… O Francisco Louçã, por exemplo, nunca passou um pente pelo cabelo…

Daniel Oliveira: Perguntem-me alguma coisa…

José Júdice: Cala-te, já falaste muito…

Nuno Artur Silva: Vamos concluir este tema…

Maria Filomena Mónica: Desculpe mas eu tenho de dizer isto: o D. Pedro V sofria muito com o atraso do país… Além disso, eu conheço muito bem a discussão em 1863, quando Fontes Pereira de Melo…

Clara Ferreira Alves: Isso lembra-me Graham Greene…

José Júdice: Já agora, queria dizer que eu demoro cinco horas a chegar a casa de comboio… os nossos caminhos de ferro ainda são do tempo do Fontes Pereira de Melo…

Maria Filomena Mónica: Isso é interessantíssimo! Até porque no tempo do Sr. Fontes não havia aviões e o D. Pedro V, que felizmente para ele morreu muito novo e virgem…

Clara Ferreira Alves: Não sei se já leu, mas sobre essa questão há um livro de Graham Greene, A Inocência e o Pecado…

Nuno Artur Silva: Bom, para encerrar esta questão…

Maria Filomena Mónica: Sim, mas eu queria dizer que eu posso ter muitos homens, mas o D. Pedro V está em primeiro lugar… Ah, vocês desculpem-me, mas lembrei-me agora mesmo que não me posso esquecer de comprar champô…

Clara Ferreira Alves: E eu, como dizia Graham Greene, “sempre desejei ser estimada ou admirada”.

Daniel Oliveira (começa a tossir): …desculpem, entrou-me água para o nariz…

José Júdice (com as orelhas em chama): Ó Daniel, estás a fazer muito barulho…

Maria Filomena Mónica: Eu gostava de introduzir aqui outro tema que considero absolutamente decisivo, os produtos “made in Portugal”. As toalhas feitas em Portugal, por exemplo… as empresas portuguesas…

José Júdice: Ó Mena, desculpe lá mas eu só queria corrigir uma coisa que a Clara disse…

Maria Filomena Mónica: Ó Zé deixa-me só acabar dizer isto que é uma coisa absolutamente inacreditável… os turcos portugueses são tão fininhos que tu sais do banho e não te consegues limpar…

José Júdice: Até tremo só de imaginar…

Clara Ferreira Alves: Num livro interessante sobre Graham Greene, que devia ser traduzido imediatamente, acho mesmo um escândalo nacional que as editoras portuguesas… enfim, como dizia Graham Greene, “é inconcebível”…

Nuno Artur Silva: Alegações finais sobre este tema… eu tenho de me levantar cedo amanhã…

Daniel Oliveira: O meu ponto é que…

José Júdice: Lá vamos nós…

Nuno Artur Silva: Bom, para encerrar de vez esta questão, queria perguntar à nossa convidada a sua opinião sobre o Professor Cavaco Silva.

Maria Filomena Mónica: Sobre Cavaco Silva? Ele só esteve dois anos em Iôôrque, mas sobre Cavaco eu não tenho absolutamente nada a dizer. A conversa é muito complicada e não me apetece. Eu só queria dizer que nos seus diários de viagens, o D. Pedro V…

Daniel Oliveira (começa a tossir): …desculpem… engoli a pastilha…

José Júdice: Ó Daniel, por favor… eu acho isto de uma gravidade…

Nuno Artur Silva: Vamos mudar de tema, eleições no Iraque. Maria Filomena Mónica, qual é a sua opinião?

Maria Filomena Mónica: Eu não sou geoestratega mas a situação no Iraque é muito complicada… Basicamente é tudo o que eu tenho a dizer sobre isto…

José Júdice: Isso é interessantíssimo…

Clara Ferreira Alves: Como dizia Graham Greene, “perdi completamente a voz”.

Maria Filomena Mónica: Quando eu era tremendamente mais nova, o Vasco…

Clara Ferreira Alves: Isso lembra-me outro livro de Graham Greene, O Amante Complacente? Já leu?

Maria Filomena Mónica: Não. De qualquer maneira, a minha mãe, quando eu era espantosamente mais nova, escreveu no livro do bebé que a primeira palavra que eu disse foi “não”. Não é extraordinário? A minha mãe percebeu logo que eu ia ser uma rebelde… O que aliás, como se pode ver hoje…

Daniel Oliveira: Curioso, eu também… a primeira palavra que eu disse foi “não”…

Nuno Artur Silva: Comigo aconteceu o mesmo…

José Júdice: Comigo também… eu acho isso de uma gravidade extrema…

Clara Ferreira Alves: Ó Zé, se te serve de consolação, a primeira palavra que eu disse também foi “não”. Aliás, isso lembra-me uma frase de Graham Greene…

Maria Filomena Mónica: Não vamos confundir as coisas. Eu li dezenas, centenas de memórias e de biografias… Por exemplo, acabou de sair agora em Inglaterra um livro de Alan Bennett, Untold Stories, que li na tradução de… Desculpem, estou a fazer confusão com o Prison Notebooks, do Gramsci, que folheei numa cafetaria de Biarritz, na tradução de Quintin Hoare e Geoffrey Nowell Smith…

Clara Ferreira Alves: O La Republica, que é um excelente jornal italiano, além de citar Graham Greene, faz também uma referência a esse livro…

Maria Filomena Mónica: Não me diga, eu acho isso absolutamente extraordinário… Em Portugal ninguém leu… também, exceptuando eu, ninguém lê em Portugal… os portugueses são muitos estúpidos… são uns provincianos… Aliás, o D. Pedro V, quando foi a Inglaterra, disse esta coisa extraordinária: “Decididamente, Portugal é um país provinciano”.

Nuno Artur Silva: E com esta ideia terminamos mais uma edição do “Eixo do Mal”. Obrigado pela vossa atenção.

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18 respostas a Não é o Alegre, é a Clara Ferreira Alves que federa as cenas

  1. Tiago Mota Saraiva diz:

    Tenho especial carinho pela representante da esquerda nos Prós e Prós desta semana quando disse qualquer coisa como:
    – Desconfio que a situação da Grécia não se resolverá com uma democracia, só com uma ditadura.

  2. Renato Teixeira diz:

    Magnificent! Magnificent! Esta posta merece claramente dois elogios em francês. Apesar de teres sido algo faccioso (no sentido em que falar de Daniel Oliveira nos tempos que correm sem uma piadola sobre a votação do PEC grego ou sobre o Alegre parece-me algo centrista). Do mais, pressinto que vais deixar a Morgada exultante e que a Filó ganhou o debate. Abç.

  3. antonio diz:

    Eu cá axo que a CFA, o VPV e a FM (deixo o JJ de fora pq. não o conheço) podiam fazer um campeonato privado a ver “qual de nós é o mais snobezinho”.

    Isto não invalida que qualquer deles escreva bem, saiba de “coisas” e às vezes até tenha a minha atenção, e a de outros por certo.

    🙂

  4. Niet diz:

    Meus caros: Para quê excomungar o ” Eixo do Mal “? A maioria dos seus participantes trabalha muito e lê, e esforça-se para pensar…São a guarda avançada dos ” colunistas ” da Tv portuguesa. Eu gostava muito de ouvir o José Júdice, que avançou imenso nos últimos anos com o seu humor e agilidade de intelecção política surpreendente. E o tipo de intervenções que fazia, por certo, dava-lhe imenso trabalho. Vão ler o link para a crónica do VPV no seu antigo blogue: lá verão um comment do Niet. Que grande aventura…sem rede ! Niet

  5. Tiago Ribeiro diz:

    Tiago, como diria o Sérgio Godinho, morre o alfabeto se se leva tudo à letra. Estou certo de que CFA não se fez entender 😉
    Obrigado, Renato, mas não: não vendo a minha alma nem ao caril nem à resistência islâmica. Désolé hehe
    António, devo dizer que tem toda a razão, mas para as excelências não seria um mero campeonato, antes uma prova de vida.
    Niet, é um pedaço injusto o seu comentário no Espectro. Uma jurista formada em Coimbra nunca seria uma reles comissária de um qualquer partido político, não é assim?

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  7. Niet diz:

    Caro Tiago Ribeiro: É absolutamente ” tendenciosa ” a conclusão que tira do meu comentário. Desculpe lá. Eu limitei-me- sem adjectivos penalizadores- a falar da ” estreia ” jornalística da C.F.A. Mais nada. Depois- como tinha certas qualidades de trabalho – subiu para novos patamares. O VPV é que exagerou, meu caro. Mas cada um é só responsável por aquilo que escreve. E como isso parece que foi há milhares de anos, não é? De qualquer maneira, C.F. A. pertence a um lote de Jornalistas com classe, vontade de saber e triunfar sem manhas ou habilidades de pechisbeque. Niet

  8. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Muito bom.

  9. Tiago Ribeiro diz:

    Niet, não dramatize. O seu comentário é injusto porque se limita a sublinhar o patrocínio partidário da actividade jornalística de CFA. Mas também não é preciso fazer-lhe agora a defesa honoris causa: se quer que lhe diga, classe, saber e integridade como eu ao pequeno-almoço hehe

  10. Niet diz:

    Tiago Ribeiro: Eu conheci de perto o “cozinhado “: a fascinação era dupla e mútua, cheia de requinte. E ainda bem que ela se livrou do CM da época. Não pense que as coisas são fáceis, muito menos há trinta anos atràs, meu caro. Niet

  11. catarina diz:

    o João Pedro George nunca foi especialista em bater no ceguinho. Lembrou-se apenas alertar que seria vantajoso se o ceguinho não conduzisse e o Tiago Ribeiro não saber do seu paradeiro não faz dele um ilocalizável. Aposto que a comenda lhe será entregue. Valeu a pena relembrar a paródia que está para além do bojador.

  12. antonio diz:

    catarina aorava saber do que está a falar. Mas infelizmente, burro como sou, estou completamente a branco.

    Importa-se de elaborar, ou é segredo ?

    😉

  13. catarina diz:

    não me importo nada. estava a falar para o Tiago, não sobre o post mas sobre a referência que ele faz a João Pedro George. O Tiago fala em bater no ceguinho lembrando o episódio Margarida Rebelo Pinto e eu discordei da classificação. Mas talvez esta explicação não adiante grande coisa se não acompanhou o percurso de “critico bulldozer” de João Pedro que está bem e recomenda-se 🙂

  14. Tiago Ribeiro diz:

    Catarina, essa deriva censória relativamente à Rebelo Pinto incomoda-me. Não tarda enfio-lhe uma providência cautelar para saber com quem se está a meter. De resto, quanto ao paradeiro de JPG, o adjectivo era um lamento encriptado face à sua debandada da blogosfera. Se mora em Carnide ou na Charneca é-me, como imaginará, indiferente. Mas, já agora, se o vir, diga-lhe que faz cá falta 😉

  15. catarina diz:

    A esta hora já leu o seu post Tiago. Não terá sido uma debandada. Foi exagerar ainda mais na mundividência e quem sabe volta um destes dias. É um perfeccionista e tira licenças sabáticas não vá regressar melhor e mais apurado. É o que espero, era o que gostava de ver desde que lhe apeteça. Mas mais do que isso Tiago, o tipo é daquele tipo, o bom tipo. Gostei imenso desta sua chamada a JPG, é que o tipo merece ser citado. Essa paródia é hilariante. Ainda me lembro quando li isso pela primeira vez. É giro o tipo e até nos adianta a vida e eu que nem sou de elogiar tipos. 🙂

  16. JMG diz:

    Está visto: Vou fazer um blogue e dizer mal de todos os tipos e tipas que conheço. E também vou escrever no dialecto secreto do Vale do Ave, assim só os do meio é que me entendem. E vou poupar três gajas e dois gajos – são menos maus que os outros e preciso de companhia. Se ficar conhecido pode bem ser que a Morgada me queira conhecer, e eu dela gosto. Também gosto do Figueira e do Rainha – sabem escrever – mas gostar de gajos aqui na minha zona ainda é mal visto, por isso eu esses passo.

  17. oldgen diz:

    o tempo é tramado. e no fim não dá qualquer chance. entre o que se diz e o que se faz. opto pelo que se faz. aliás. quem se vende é um vendido. por muito que gesticule argumente e abra a boca depois de se ter refastelado com objecto. a clara vendeu-se ao grupo bilderberg. temos pena. mas é uma vendida. quanto ao outro. equanto a integridade das acções não for comprometida. não me importo que pertença ao grupo dos não alinhados onde repouso. onde as opiniões abundam mas onde não se lamben os rastos dos dejectos dos outros.

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