Era, já há muito, uma das melhores, se não mesmo a melhor: faleceu ontem, aos 98 anos, a escultora Louise Bourgeois


Cell VIII. 1998

Louise Bourgeois, Arch of Hysteria, 1993
Arch of Hysteria. 1993

Louise Bourgeois será considerada uma das artistas referenciais do século XX, porque o atravessou por inteiro, porque mostrou e comandou muitas das suas facetas, estilos e formas de pensar a arte e a vida (vida física, a feminilidade, a hibridação e superação do sexo e género na representação, a vida psicológica, o lugar e o papel da memória, os conceitos de trauma e as leituras da estética, da psicanálise, da forma, da antiforma quando se mostra uma autora crítica do minimalismo, substituindo-o por algo orgânico e fisiológico, que nos anos 60 se denominou pós-minimalismo, etc.). Nasceu em 1911 e faleceu ontem.

Segue-se um excerto de um ensaio que lhe dediquei em 1998 (no meu livro Imagens sem Disciplina: Meios e Arte nas Últimas Décadas, Lisboa, 2002).

«A sua longa trajectória – repartida por esculturas, environments e desenhos, instalações e statements, frases e narrativas –, atravessa curiosamente com alguma discrição a história dos últimos cinquenta anos. Só na segunda metade dos anos 90, apenas nesse período de “triste apocalipse” (por oposição ao “apocalipse alegre” da famosa “Viena 1900”), redescobrimo-lo como uma das suas trajectórias estéticas mais singulares. Inclassificável e não-situável, quase indiferente aos contextos de cada época, obsessionado com memórias pessoais imperceptíveis e confusas.

Este trabalho atravessa-nos historicamente desde os últimos suspiros de um certo surrealismo (Bourgeois expõe individualmente pela primeira vez em 1945, em Nova Iorque, e Breton escreve os Prolegómenos a um Terceiro Manifesto do Surrealismo ou Não, em 1942) coincidente com a ascenção americana como centro irradiante de um segundo fôlego das vanguardas históricas, segunda etapa que radicaliza o puritanismo abstraccionista até ao pretendido desaparecimento da pintura como prática, de Ad Reinhardt às rígidas estruturas formais de Donald Judd. De tudo isso esta obra se distanciou para se movimentar num único jogo neurótico, à beira do autismo. Reutilizando as palavras de Leo Steinberg, empregues a propósito de outros temas e outras gentes, poderíamos dizer que, para Louise Bourgeois, toda a arte é uma forma de transmissão de uma angústia primordial.

Louise Bourgeois, Fillette, 1968
Fillette. 1968

«Peculiar trajecto, contudo, e paradoxal, pois com toda a sua contemporaneidade Louise Bourgeois se relacionou sem se envolver (porque não o podia nem queria fazer), para se distinguir, como que a dizer-nos que a sua vida pessoal era única e intransmissível (e ela reflectia-se sempre na sua obra).

Trata-se de uma obra que se desenrolou em permanência numa singular segunda linha da atenção histórica, crítica e analítica (e que dessa segunda linha agora sai definitivamente, apesar de uma persistente e avolumada bibliografia que nunca a deixou de acompanhar — outro dos muitos enigmas bourgeoisinos).

Quatro exposições retrospectivas / antológicas na década de 90 foram consagradas recentemente a esta artista desirmanada e sem classificação. E digo inclassificável, quanto a mim, na medida em que a sua relação com o pós-minimalismo (arte orgânica, como disse), que chega a incorporar (tal como o feminismo), é sui generis; na sua trajectória nunca deixa a escultora de combinar uma dupla ancestralidade da escultura — formal e matericamente entendida (e está aqui tudo em causa e simbolizado: desde a Vénus de Willendorf à arte oriental, chegando às pistas da abstracção mais recente) –, com a experiência da instalação vanguardista (veja-se as famosas “Cells”, anos 90), profundamente codificada e transtornada por um universo de imbricadas mitologias e fantasmas pessoais. Sempre.

Enumeremos as retrospectivas dos 90s (destaques): Louise Bourgeois: Sculptures, environnements, dessins, 1938-1995, foi apresentada no Musée d’Art Moderne de la Ville de Paris, entre Junho e Outubro de 1995, recuando cronologicamente mas seguindo estruturalmente The Locus of Memory, Works 1982-1993, antes já vista no Brooklyn Museum de Nova Iorque e na Corcoran Gallery, de Washington D.C.. Ainda de referir uma outra antológica itinerante: Esculturas de Louise Bourgeois — La Elegancia de la Ironía, mostrada em Junho de 1995 no Museo de Arte Contemporáneo de Monterrey e, posteriormente, no Centro Andaluz de Arte Contemporáneo (Sevilha). Participou ainda na 46 ª Esposizione Internazionale d’Arte — Bienal de Veneza, no corpo central do projecto de Jean Clair, Identity and Alterity. A esta seguir-se-ia ainda outra itinerância Louise Bourgeois: Recent Works (capc-Musée d’art contemporain, Bordéus).

O acto de fusionar determinadas figurações, ou abstracções de remissão organicista (corpos e fragmentos de corpos), com sugestões à anatomia humana e animal, ou ainda numa outra aposta fusional e de dissolução, desta feita entre o significado e correspondente interpretação pessoalíssima dos acontecimentos do seu passado familiar (a matriz da sua visão do mundo e, segundo algumas teses, da persistência da sua «neurose infantil»), tudo com a presença do corpo e da sexualidade, todo esse conjunto conferiu a esta escultura, de imediato, duas características emblemáticas: em primeiro lugar, temos uma oposição ao minimalismo radical do trio Donald Judd/Dan Flavin/Carl Andre, alicerçado, como é sabido, numa equivalência teatral objecto-forma-configuração, e uma postura claramente anticonceptual.

Quanto a este último aspecto, gostaria de o desenvolver. Num filme recente, a autora reclama secamente que detesta que lhe perguntem pelo sentido / significado das suas dispersivas ou desconcertantes formalizações — coerentemente, exige-lhes (e exige-nos) um espaço de interacção eminentemente impressionista. Isto é, o que passa a contar é a primeira impressão causada, o embate da obra; neste caso, o impacto antecede a explicação e é intocado pelas armadilhas da linguagem e, o que é ainda mais significativo, dá-se-nos a obra em termos de uma anticonceptualidade que se propõe anterior à condição de “ser arte”, uma arte antes da “arte” e do “sentido” (e devemos mesmo considerar que a “arte” deveria aqui desaparecer porque, neste contexto, Bourgeois como que exige a anulação de todas as formas de mediação no acesso ao inconsciente, que se queria livre: deveremos estar sempre desarmados perante as suas obras).

Em segundo lugar, quer o carácter anticonceptual, quer a posição antiformalista, conferem a esta obra uma outra dimensão: uma existência contrárias às mediações – duplamente: deve entender-se media/mediação, neste caso, como a faculdade técnica com que a sociedade actual erige as suas representações; mas também como o próprio corpo da arte, a forma que bloqueia, inaceitavelmente para Louise Bougeois, o acesso aos meandros do inconsciente e da sua labiríntica neurose infantil.

Arte anticonceptual, antimediática e antiformal, tripla «contrariedade» doutrinária que a muitos incomoda e a desirmana geracionalmente, e que lhe advém de uma extrema presença da fisicalidade escultórica. Ao certo, nunca saberemos de que tratam as suas obras, nem plenamente o que significam ou pretendem de nós. E cá estamos, sobressaltados com aquilo que não entendemos».

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13 Responses to Era, já há muito, uma das melhores, se não mesmo a melhor: faleceu ontem, aos 98 anos, a escultora Louise Bourgeois

  1. João Valente Aguiar diz:

    «Arte anticonceptual, antimediática e antiformal, tripla «contrariedade» doutrinária que a muitos incomoda e a desirmana geracionalmente, e que lhe advém de uma extrema presença da fisicalidade escultórica. Ao certo, nunca saberemos de que tratam as suas obras, nem plenamente o que significam ou pretendem de nós. E cá estamos, sobressaltados com aquilo que não entendemos»

    Concordo plenamente. As vias de acesso à compreensão de uma obra como a dela são sempre intrincadas, complexas e sinuosas. Contudo, creio que a anticonceptualidade é, em si, uma conceptualidade. De outra ordem, eventualmente mais rica e apelando a uma não-interpretação (pelo menos diferentemente de uma interpretação unívoca – como se isso fosse possível em arte), como um paradigma conceptual de outra ordem.

    Um abraço

  2. isso, enquanto a pintura continua a significar uma fantasia escapista.

  3. Óptimo post, bom comentário de J.V.Aguiar,
    para uma artista genial !

  4. Caríssimo João, nota que tal não-interpretação, ininterpretabilidade, ou, como refiro noutro lugar, uma “interpretabilidade sem interpretação” (quer dizer, a obra está aberta para a interpretação, deve estar porque “existe”, mas interpretá-la é trabalho insano), tudo isso, para ser conceptualizado ou intencional, teria de ser atitude assumida. Mas aqui, em Bourgeois, o espaço da memória pessoal, que parece quase tudo comandar, a intuição sem freio, o recolher a obra à vida interior indecifrável, leva a uma intuição livre que se manifesta na diversidade infinita de formas da autora, algo que nunca pode ser sistematizado.
    Ela conquista, conquistou, uma liberdade que até para a arte quase se estava, digamos, nas tintas. Aquilo até quase não é arte. São espaços de vida com sentido diminuto, apetências de formas aparentemente desconexas, tudo somado cada coisa parece apontar para um lugar ou mundo diferente.

    grande abraço
    CV

  5. antonio diz:

    Adorava essa senhora e gostaria imenso de ter alguma coisa dela, mas não me cheira que possa lá chegar…
    🙂

  6. Difícil, caro antónio, difícil.
    Mas, como digo, em Bourgeois, quase tudo é imprevisível….

  7. António,

    Pode ter algo especial de Louise Bourgeois: compre localmente ou encomende um lenço criado pela artista, aquando da sua retrospectiva na Tate. Ou uma das duas serigrafias.
    Veja a shop da Tate no site…

  8. antonio diz:

    Sorry Manoel

    Só estaria interessado nos quadros (suponho que serão a óleo, e não a acrílico…)

    Lenços e segrigafias, sorry, passo.

    🙂

  9. Carlos Vidal diz:

    O que eu queria dizer é que quem conhece esta obra genialmente “incoerente”, dispersa, desarrumada e surpreendente sabe que não é impossível de todo, num momento de “super-sorte”, encontrar destrambelhado um desenho da autora, por exemplo, numa estranha e insuspeita galeria, por aí, sabe-se lá onde.
    Pode-se encontrar, mas não vale a pena procurar.
    É como dizia o outro génio do século XX: “eu não procuro, encontro”.

  10. antonio diz:

    Exactamente Carlos Vidal , é como diz.
    Uma vez estava a passear pela Rue de Rennes (Paris) e vejo uma pequena galeria, entro p’ra conferir e vejo um pequeno quadro deste senhor.

    Adivinhe o que aconteceu…

    😉

  11. Carlos Vidal diz:

    Um génio.
    Mais do que um fotógrafo.
    Adquiriu-o.
    É sempre possível tal acontecer: não procurar, encontrar.

  12. CRF diz:

    O arco da histeria 2:

     “Há muito que a população de todas as cidades está dividida entre as facções Verdes e Azuis (…)E elas lutam com o seu oponente sem saber por que razão se põem assim em perigo(…) Destarte, cresce neles contra o seu semelhante uma hostilidade que não tem causa, e que em momento algum cessa ou se extingue, uma vez que não tem em conta nem laços de casamento, nem de relação, nem de amizade, e o mesmo se passa até quando os que diferem em relação às cores são irmãos ou família… Pelo que me toca, outro não consigo chamar a isto senão uma doença da alma”
    Procópio, História das Guerras ,I

    Lá em baixo no hipódromo a turba balbucia algo sobre as cores das bandeiras- deixá-la. É bom ler algo sobre aquilo que realmente ficará de nós.

  13. pinta pinta com tintas Robbialac e em planitude.

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