Inimputabilidade e barbárie

Nada tenho de anti-semitismo.

E mesmo que essa ou outra qualquer forma de xenofobia não fosse (como é) uma impossibilidade intelectual e emotiva para mim, seria à partida um contra-senso. Sendo português, terei com toda a probabilidade algum sangue judeu, a par de outro tanto árabe, que nem a mais avançada pesquisa de ADN poderia distinguir, já que são das populações geneticamente mais semelhantes que existem.

Tão pouco defendo o fim do estado de Israel.

Formou-se à força de atentados terroristas e com base numa reivindicação historico-religiosa ilegítima, tem uma história contínua de agressão militarista e de total desrespeito pelos direitos humanos mais básicos daqueles a quem não seja reconhecida uma identidade etnico-religiosa judaica, mas existe e é incontornável. A questão, para mim, é a forma de existência, as concepções racistas e confessionais e os actos, não a própria existência.

Posto isto, Israel deu hoje mais um passo na total barbárie e total desrespeito pelo resto da humanidade, na prossecução daquilo que era, já, um processo de genocídio.

Porque cercar de muros e de um embargo naval uma população enfiada onde quase nada existe, para a submeter pela fome e falta de outros produtos básicos é, em si mesmo, um genocídio. Mais evidente ainda se se sabe (como se sabe, pela experiência de décadas) que essa população não se irá submeter. Mais violento ainda quando é acompanhado de regulares matanças selectivas, que não se perde uma oportunidade de transformar em indiscriminadas.

De forma inaceitável, à luz de qualquer sentido de decência, de humanidade e das leis internacionais, os países desenvolvidos dos quais Israel se apresenta como aliado têm sistematicamente tolerado todas as escaladas genocidas contra palestinianos. Mais que uma inimputabilidade, houve uma naturalização de todos os atentados aos princípios mais básicos do ‘modelo civilizacional’ em que o estado de Israel diz inserir-se, e que é o desses países.

Como saberão, uma coluna de navios mercantes, cheios de ajuda humanitária para a faixa de Gaza e transportando, entre muita outra gente, deputados europeu dirigia-se há dias para o seu destino.

Esta noite, em águas internacionais, a marinha israelita atacou um desses navios, matando 19 pessoas de nacionalidades diversas.

As pessoas que iam no navio eram, dizem numa primeira desculpa coxa, apoiantes do Hamas.

Portanto, para além de poder matar quem procure fazer chegar ajuda humanitária que atenue o genocídio que têm em curso (e de o poder fazer onde tal constitui, à luz da legislação internacional, um acto de pirataria e uma declaração de guerra), o estado de Israel reserva-se o direito de matar, em qualquer local, qualquer cidadão de qualquer país, desde que expresse o seu apoio, mesmo que humanitário, ao Hamas e à população palestiniana.

Enquanto cidadão português e da União Europeia, só vejo uma reacção possível e decente destas duas instãncias:

– Embargo comercial e financeiro ao estado de Israel, incluindo o congelamento de todas as contas bancárias de lá originárias e a suspensão de todos os acordos económicos existentes;

– Suspensão de todos os acordos de circulação de cidadãos israelitas, excepto em caso de asilo e refúgio;

– Embargo militar total ao estado de Israel;

– Proposta de suspensão de Israel da Organização das Nações Unidas.

Menos que isto, parece-me, não é nada. É reafirmar a inimputabilidade. Agora, não apenas a inaceitável inimputabilidade para com os palestinianos, mas também para com o resto da humanidade.

E se isso colocar numa posição desconfortável o prémio Nobel da Paz, ele que se desenrasque.

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11 Respostas a Inimputabilidade e barbárie

  1. Abílio Rosa diz:

    Israel é um estado pária da comunidade internacional.
    É tão terrorista como é o Irão, o Afeganistação, Paquistão ou a Tectchénia.
    A solução é obrigá-los a sentar-se num tribunal internacional ou então varrê-los do mapa.

  2. Salah al Din diz:

    O ataque de piratas-terroristas em águas internacionais a um navio civil turco (aliado da NATO), causando vinte mortes civis é um acto de guerra que deve ser retaliado imediatamente, nos termos da sua Carta, pela Aliança.

    Os barcos piratas devem ser afundados com todos os porcos nazis que os tripulam e deve ser forçado o bloqueio maritimo sionista ao campo de concentração de Gaza, onde os racistas nazionistas-apartheidescos encerraram milhão e meio de palestinianos agonizantes .

    iSSrael, estado pária da Humanidade, deve ser aniquilado. Viva a Palestina Livre.

    Manifestação hoje às 17H30 em frente à embaixada de israel, o ninho dos terroristas e espiões

    • paulogranjo diz:

      Salah: tenho uma alergia visceral à censura, mas permita-me que lhe diga que, embora afixando o comentário, considero a linguagem que utilizou excessiva, desadequada e contraproducente.
      Posto isto, tem razão quanto à NATO – da qual, aliás, a Turquia não é aliada (esse é o caso de Israel), mas membro de pleno direito.
      Caso a Turquia decidisse alegar este ataque como base para declaração de guerra, todos os países da NATO estariam na obrigação de a apoiar – ou, então, de implodir a Aliança.

  3. Pingback: cinco dias » Cultura, paz y solidariedad.

  4. xatoo diz:

    ena! é precisar haver o sacríficio de pessoas para a palavra maldita “SIONISMO” aparecer neste blogue (que também não aparece na maioria dos orgãos de informação corporativos).
    A palavra, que define uma doutrina racista – o sionismo – tem sido alvo das mais diversas diatribes (nomeadamente para ridicularizar as denúncias de situações concretas perpretadas por entes judaicos, como já aconteceu aqui neste blogue com o NRA)
    Contudo, o acto criminoso de ontem não é um acto isolado. A palavra SIONISMO só pode ser discutida enquanto doutrina estrutural apoiada com biliões dos Estados Unidos para que o Estado religioso de Israel seja o ponta de lança do imperialismo para os negócios e saque de recursos no Médio Oriente (petróleo), Europa (tecnologia) e zonas adjacentes árabes (mão de obra)
    Existe sem dúvida um poder global emergente desde a IIGG que tem raizes neste paradigma, que é operado tanto a nível financeiro como militar a partir do lobie sionista nos EUA, respectivamente por Wall Street/FED e pelo Pentágono. Quem mais poderia, já há quase três décadas, ter fornecido armas nucleares a terroristas com Estado próprio como o é a seita israelita?

  5. Carlos Vidal diz:

    xatoo,
    não é verdade que a palavra “sionismo” aqui não apareça frequentemente.
    Em baixo, na tag “israel” está tal termo e muito mais.
    (por mim, tenho lá avultada participação)

  6. Pingback: cinco dias » Derrotar Israel a toda a linha! Por uma rendição sem condições! Por uma Palestina Laica e Livre!

  7. xatoo diz:

    é provavel que apareça a palavra
    mas quase nunca com a amplitude que o conceito engloba e que aqui menciono

  8. Leo diz:

    “Israel é um estado pária da comunidade internacional.
    É tão terrorista como é o Irão, o Afeganistação, Paquistão ou a Tectchénia.”

    Que Israel é um Estado pária, pirata e terrorista tem demonstrado desde há mais de 60 anos que é.

    Mas que sentido faz compará-lo com países que nunca invadiram nem agrediram outros, como é o caso do Irão e do Afeganistão? E que sentido compará-lo com uma República russa a Tetchénia, vítima de atentados terroristas? E que sentido faz compará-lo até com o Paquistão, hoje o país vítima de mais ataques de drones norte-americanos? Não faz qualquer sentido.

  9. Salah al Din diz:

    O Irão Afeganistão e Paquistão estados terroristas ? Não serão antes estados aterrorizados ou mesmo invadidos pelo terrorismo cruzado ?

    Que confusão vai em certas cabecinhas….

    Não comprendo que termos utilizados no meu comentário anterior é que são excessivos e contraproducentes. São comuns na resistência islâmica, aquela que dá o peito às balas dos terroristas nazi-sionistas…

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