Corações de Pedra

*Não, não estão a marcar o fora de jogo


Não sei bem o motivo mas tenho uma grande simpatia pelos canteiros, deve ser essa coisa de trabalhar coas mãos. A Galiza, de chão principalmente granítico, sempre foi fértil em homens que sabiam dar-lhe forma com mestria. O nosso românico, especialmente a catedral de Compostela (futuro Museu Nacional), é mostra da habilidade e a lavoura dessas gentes.

Os canteiros sabiam-se grémio, com orgulho e até com idioma próprio e internacional: a língua dos arxinas ou latim dos canteiros. A emigração encargou-se de espalhar o suor deles por todo o mundo: das igrejas medievais ao prédio da IBM em Detroit, passando pela grande parte dos edifícios da avenida Paulista. Uma história de misérias, trabalho e arte. Construindo as cidades dos outros.

* Grande parte dos políticos tinham a sua fortuna em navieiras

É por isso que lhe tenho especial simpatia a Manuel Dominguez, canteiro assassinado 0 21 de Novembro de 1936 por uma cambada de filhos da puta. Manuel não pertencia a partido nenhum, era um homem de 28 anos que trabalhava numa canteira do concelho. Mas foi preso e apareceu na beira da estrada na estrada Salceda-Porriño (a primeira era a sua vila e a segunda a vila onde trabalhava). Junto com três companheiros (Benito Antonio Cabaleiro, Gabriel Benito Rodríguez e Ángel Cabaleiro, quero fazer questão mesmo de dar os nomes) montou numa carrinha para ir defender a República a Vigo quando soube do alçamento militar. Ante a impossibilidade, fugiram ao monte. Como tantos outros passaram a viver escondidos, visitando à família de tanto em tanto para dormir com a mulher, ver aos filhos, comer quente e levar provisões… O padre da paroquia intimidou aos familiares para que confessassem quando é que iam procurar comida. Assim foi como os falangistas, os paramilitares assassinos, apanharam aos canteiros. Não foram executados, isso seria se tivessem sido julgados antes e então seria o exército quem dispararia. Foram passeados. Assim lhe diziam. Iam passear com os detidos. E depois apareciam os corpos nos caminhos, nas valetas (cunetas, em galego. Palavra maldita). Com sorte, acabavam numa fossa comum. Alguns corpos ainda estão sem identificar, hoje. Mais de 70 anos depois na fossa de Cesantes pode haver mais de 200 corpos anónimos.

* Tudo em nome de Deus e de Espanha, claro

A falange, semeando terror desde 1936. Que triste é o branco e preto… acho que tenho uma foto mais recente. Assim melhor.

Há outra coisa que sabemos de Manuel, o canteiro. Tem um neto chamado Manuel Padín que agora tem 74 anos. Padín sabe por boca da sua avó o que ela sofreu tendo que conviver com os assassinos do seu homem. Ela tinha um posto no mercado e tinha que ver ao criminoso Todos os dias. Uma dor, diria Castelao, que não se cura com resignação.

Padín tentou recuperar o corpo do seu avô, perdido nas fossas comunais e ao abeiro da difusa lei da memória histórica. Foi-lhe negado o direito, adivinham por quem? Pelo actual padre da paroquia: “Os outros também mataram muita gente”, foi a resposta do sacerdote. A juiz arquivou o caso em Abril de 2009. O corpo de Manuel Dominguez seguirá perdido entre os ossos da fossa comum de Budiño. Delatado por um padre e impedido do reconhecimento familiar por outro.

Mas ante tanto empenho pela desmemória ainda há sinais de esperança. Existe um projecto de investigação das três universidades galegas para a criação de uma base de dados de vítimas do franquismo na Galiza. Nomes e Voces. Começar a fazer buscas aleatórias dá vertigem. Quantas mulheres? (694) Quantos mestres de escola? (665) Quantos músicos? (20) Quantos canteiros? (274). Sancionados, fuziladas, passeados, encarceradas… uma autêntica sangria do país que contou com a colaboração directa dos padres. Milhares de histórias que agora voltam ter nome. De vozes que são ouvidas de novo.

As mãos que trabalham a pedra seguem, com suor e esforço, transformando o mundo. Os corações de pedra continuam a encher a barriga a conta dos demais. A memória nunca sobra.

* 274 arxinas represaliados

Este artigo foi publicado em cinco dias and tagged , . Bookmark the permalink.

2 respostas a Corações de Pedra

  1. Antonio Mira diz:

    [Falando de cunetas (valetas). Desconfio que não seja necessária a adaptação a português.]

    Cunetas. (Luis Pimentel. 1895-1958)

    ¡Outra vez, outra vez o terror!
    Un dia e outro dia,
    Sen campás, sen protesta.
    Galicia ametrallada nas cunetas
    dos seus camiños.
    Chéganos outro berro.
    Señor ¿que fixemos?
    -Non fales en voz alta-
    ¿Ata cando durará este gran enterro?
    -Non chores que poden escoitarte.
    Hoxe non choran mais que os que aman a Galicia-
    ¡Os milleiros de horas, de séculos,
    que fixeron falta
    para facer un home!
    Teñen que encher ainda
    as cunetas
    con sangue de mestres e de obreiros
    Lama, sangue e bágoas nos sulcos
    son semente.

    Docemente chove.
    Enviso, arrodeame unha eterna noite.
    Xa non terei palabras pra os meus versos.

    Desvelado, pola mañá cedo
    Baixo por un camiño.
    Nos pazos onde se trama o crime
    Ondean bandeiras pingando anilina.
    Hai un aire de pombas mortas.
    Tremo outra vez de medo.
    Señor, isto é o home.
    Todas as portas están pechadas.
    Con ninguen podes trocar teu sorriso.
    Nos arrabais
    bandeiras batidas e esfarrapadas.
    Deixa atrás a vila.
    Ti sabes que todos os dias
    hai un home morto na cuneta
    que ninguén coñece ainda
    Unha muller sobre o cadaver do seu home
    Chora.
    Chove.
    ¡Negra sombra, negra sombra!
    Eu ben sei que hai un misterio na nosa terra,
    Mais alá da neboa,
    Mais alá do mar,
    Mais alá da chuvia,
    Mais alá do bosque.

  2. Antonio Mira diz:

    Vítor dias no tempo das cerejas também fala sobre crimes dos falangistas.

    http://tempodascerejas.blogspot.com/2010/05/crimes-do-franquismo.html

Os comentários estão fechados.