Reforma ou Revolução? IV

ESTALINE vs TROTSKY

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#5 [actualizado] Isto vai virar uma verdadeira epopeia. Relativamente aos gostos da carne, o NRA tem que dar algumas lições ao CG. E com alguma urgência, diria mesmo.

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20 Responses to Reforma ou Revolução? IV

  1. Carlos Vidal diz:

    Ó Renato,
    Olha que aqui a coisa complica. É que nenhum dos dois era reformista.
    (Aliás, por razões diversas, admiro ambos: e tu?)

  2. Renato Teixeira diz:

    Pois é verdade Carlos, se as escolhas anteriores eram relativamente consensuais, esta é seguramente passível de maior polémica.
    Entendo que não, que Estaline não foi, enquanto chefe de Estado, um revolucionário. Interessa pouco se antes disso era ou não, centremos por isso a discussão no essencial.
    Comecemos por 3 das suas teses centrais:
    1- Socialismo num só país. Implosão da internacional e gestão da geopolítica internacional em função dos interesses do socialismo soviético e não da revolução mundial. Exemplo escolástico: Guerra Civil em Espanha.
    2- A transformação de um Estado Operário (este sim vindo de um processo revolucionário dirigido por Lenine) ou um Estado Burocrático (obra de Estaline).
    3- A disputa de terreno no marco do imperialismo fazendo uso desse mesmo imperialismo. Exemplo menos escolástico: a corrida ao Espaço. Exemplo escolástico: o mapa vermelho sulcado pelo muro de Berlim.

  3. Carlos Vidal diz:

    Longa conversa, longa discussão, temática central no movimento operário do século XX. Não podemos abordar isto de ânimo leve, nem aqui, nem noutro lugar. Aliás, os estudos, as discussões, a bibliografia sobre o caso é infinita. Ainda assim, só mesmo rapidamente se deve dizer qualquer coisa:

    1. Socialismo num só país. Sim, foi isso que teorizou o georgiano. E não estaria, no fundo, certo? A revolução estava longe de estar consolidada.
    2. De estado operário a estado burocrático.
    Vejamos. Os primeiros planos quinquenais do homem (e do povo soviético) foram um sucesso a todos os níveis. Nos anos 30, os da Grande Depressão, só a URSS registava mundialmente apreciáveis crescimentos económicos.
    Além disso, há quem vá por outras vias. Repara, há quem defenda (com algum fundamento, mas não total) que essa transformação burocrática se deu no esmagamento do soviete de Kronstadt que, como sabes, foi conduzido (o esmagamento) por Trotsky.
    Mas isto é estar a mexer em feridas desnecessárias, teria de voltar a investigações que nem eu nem tu, agora, podemos re-encetar.
    3. A corrida ao espaço.
    Pode ser verdade, mas nota uma coisa: não foram os EUA quem a iniciou, foi precisamente a URSS. Isto é claro, não é?
    Abraço comunista.
    CV

  4. Renato Teixeira diz:

    Não se trata de procurar abrir feridas, até porque elas estão mais do que fechadas. Trata-se portanto de compreender as lições das suas cicatrizes.
    Perceber por onde pode continuar a pisar o projecto revolucionário é algo que pode ser feito em todo o lado. Com mais seriedade ou com mais ligeireza.
    Assim, passemos aos pontos:
    1- Perceber o que despoleta o estrangulamento da revolução. Se a sua debilidade (algo difícil de justificar num tempo em que o projecto comunista ganhava dezenas de militante ao dia), se o seu isolamento internacional. Lenine afirmava, nos primeiros dias da revolução, que o projecto de construção da internacional deveria ser prioritário, pois dele dependeria a sobrevivência do projecto de dar o poder aos sovietes. Não será fácil concluir que tudo se perdeu e nada se ganhou com a transformação de um processo emancipatório global, para um pequeno (por vezes grande) reinado estalinista?
    2- Parece-me um exagero polémico dizer que a burocratização da revolução russa começa no esmagamento de Kronstadt, condizido por Trotsky, episódio com o qual por certo estarás de acordo, extrapolando a leitura que tens feito dos “danos colaterais” do processo grego (o caso do Banco). Mas dando de barato que isso possa ter sido um erro, confundir esse episódio com a blindagem do Estado por uma clique de burocratas, está longe de nos alertar para a importância que deve ser dada a prevenir esse fenómeno nas revoluções vindouras. Um dirigente de um sector da Quarta Internacional, num congresso recente, dizia com muita propriedade que o sucesso os levantamentos em curso depende em grande medida da capacidade de se garantir um conjunto de medidas capazes de eliminar os vícios burocráticos. É preciso inventar um “burocraticida”, que contenha medidas como o limite de mandatos nas representações do aparelho do Partido, do Sindicato e do Estado; Rodar cargos e funções; Garantir a autonomia financeira do Partido e dos Sindicatos relativamente ao Estado; etc.. Não podia estar mais coberto de razão.
    3- E para quê começar uma corrida ao espaço quanto ainda havia tanto por correr em terra?

    Saudações revolucionárias. 😉

  5. Niet diz:

    Meus caros: Gosto do v. novo tom e da heterodoxia patente nos v. pontos de vista.Causas imediatas da fantástica manif de Lisboa de ontem? Faço ardentes votos. Um só acrescento: a doutrina do georgiano- Socialismo num só país -teve efeitos nefastos e criminosos – mas Isaac Deutscher diz em parte que não… – quer na Guerra Civil de Espanha, quer na China com a capitulação forçada do PCC perante o KUomintang em 1925, sob ordens da I. Comunista-quer no início da II Guerra Mundial com o famigerado pacto germano-soviético… Uma só solução…Niet

  6. Carlos Vidal diz:

    Renato, o etrangulamento da revolução também pode ter residido nem no esmagamento de Kronstadt, nem na estalinização da sociedade.
    Ele pode estar na NEP, que permitiu o aparecimento, desenvolvimento de uma burguesia e pequena-burguesia, de um embrião de economia capitalista, um mundo renovado de proprietários que alguém sentiu ter o dever revolucionário de parar (Estaline, neste caso, e violentamente, por razões a apurar noutro lugar).
    Paralelamente, crescia a tendência social-democrata de Bukarine, amiga da iniciativa privada e do, digamos, “capitalismo de rosto humano”.
    Quanto a Kronstadt. Claro que anulando a autonomia dos sovietes, de que o caso de Kronstadt é paradigma, está a ser encetado um certo tipo de controlo. E sabes também porque é que Lénine (e Trotsky) não permitiram Kronstadt – porque, para eles (e eu tenho de concordar) não poderia ser aberta uma “terceira via” além dos dois lados em luta na guerra civil russa. Pelo menos naquele momento, não.
    Quanto à terceira questão: muda-lhe os termos para que fique: para quê fazer alastrar a revolução se ainda tanto havia a fazer na URSS?
    Não esquecer a NEP, não esquecer a NEP e a então surgida nova classe de proprietários.
    Um grande problema.

  7. Carlos Vidal diz:

    Ah, e um abraço ao Niet, sempre bem-vindo.

  8. José Estaline diz:

    “o mapa vermelho sulcado pelo muro de Berlim”!!!!

    Mas AINDA BEM QUE O EXÉRCITO VERMELHO, DERROTANDO A ALEMANHA NAZI, SULCOU ATÉ BERLIM!!!

    Renato:

    todos os troskistas gostam de se apresentar como virgens comunistas imaculadas de qualquer pecado. Mas a teoria do Trostky foi apenas isso: T-E-O-R-IA. À posteriori é fácil dizer que se deveria ter feito assim e não assado. Mas na realidade está por provar (jamais será possível fazê-lo) que a teoria trostkista sobre a guerra civil de espanha estivesse certa – por exemplo.

    Entender as relações da URSS com os demais países que construíam o socialismo como “imperialismo” é digna do MRPP. Faça o favor de ir ler um bom livro de história do séc. XX ou de reler as teses do Trotsky: nem ele próprio se atreveu a tanto!

    Se você não fosse tão pândego (desculpe a lisonja) teria orgulho no facto de que o primeiro homem a viajar no espaço foi um comunista: Yuri Gagarine.

    Mas não! Prefere vir choramingar pelo facto de que,com o fracasso da revolução na Alemanha e demais países capitalistas avançados após a 1ª Guerra, a URSS se tenha lançado na construção do socialismo.

    Socialismo um tanto bárbaro? Concedo! Mas como esperava você que a 1ª verdadeira experiência comunista resultasse (para mais!) num país atrasado e destruído como a Rússia Czarista? É já tempo dos trostkistas como o Renato deixarem de ver a história do século XX com os óculos do séc. XXI. Ou como disse o nosso camarada Mao: ” a revolução não é um convite para chá dançante”.

    A propósito: não lhe dizia eu dos “anticapitalistas” da manif?

  9. José Estaline diz:

    E UM GRANDE VIVA PARA YURI GAGARINE!!!
    hip, hip, hurrá!

    Quando o Renato tiver filhos, fale-lhes com orgulho desse herói comunista!

  10. Relembro ao Niet que antes do pacto germânico-soviético existiu um pacto germano-americano assinado por Roosevelt…não esqueçamos ainda a cumplicidade da monarquia inglesa relativamente à Alemanha….

  11. Manuel Monteiro diz:

    Para mim, nem Trotski nem Staline. A revolução comunista tem que ter o sonho e a força do proletariado e não a lógica e o poder dos aparelhos – dos partidos ou dos estados – e dos chefes.
    Podem estudar todas as conjunturas, todos os inimigos e contratempos que, para mim, quanto mais atacada for a revolução no país onde triunfe, mais o proletariado tem que ter liberdade e poder de decisão.
    Sei que o que expresso aqui são ideias um pouco superficiais, mas são as ideias base que colhi de todos os operários com quem andei no processo revolucionário português. É sentimento, eu sei, não é teoria, mas a minha revolução é esse sentir imenso dos proletários que em todas as revoluções dão o corpo ao manifesto e depois vêem os chefes-uns mais teóricos do que outros- apoderar-se de novo do seu destino. E lá temos que recomeçar tudo de novo…
    MM

  12. Niet diz:

    Caro Marquis de Sade, verdadeiramente: Não localizo essa entente Rossevelt/ Hitler! Não está a confundir com as rábulas de Hitler ao entrar e sair da Sociedade das Nações? A si, a palavra, ” divino ” Marquês DAF. Niet

  13. Nuno Ramos de Almeida diz:

    O trotsky está parecido com a Frida Kahlo, sem bigode, foi por osmose?

  14. Carlos Vidal diz:

    É uma foto de juventude.

  15. JDC diz:

    José Estaline,

    Antes de mais, ao escolher tal nome, deve ser daqueles que também não sabe o que são ou se existiram goulags.

    Posto isto, sobre o imperialismo da URSS, a Doutrina Brejnev não lhe diz nada? Como pode dizer que a actuação da URSS, como por exemplo em Praga, não configura uma forma de imperialismo? Só porque era em nome do comunismo? Como pode justificar uma intervenção militar num país soberano sem ser por imperialismo? Como justificar a imposição de um modelo de sociedade a um país terceiro?

    Herói, Yuri Gagarine? E Niel Armstrong, não merece o orgulho da humanidade? E os velejadores portugueses? E Egas Moniz?

  16. Pedro Pousada diz:

    Antes demais, um abraço ao Carlos Vidal que alia à sua cultura e inteligência um compromisso com a transformação radical do mundo em que vivemos, coisa rara entre a contemporaneidade artística…
    Começemos e não serei breve:
    1- Ao contrário do que escrevem os propagandistas anti-soviéticos dentro e fora da Rússia, a restauração capitalista eufemísticamente designada por período de transição, foi muito mais mortífera do que possam ter sido, (e isso é uma discussão ainda em debate), a colectivização da terra, a industrialização acelerada dos primeiros planso quinquenais ou o período do terror nos finais dos anos 30 (o debate a que me referi é protagonizado por historiadores sérios e não por propagandistas a soldo de agendas políticas, vide o livro de John Arch Getty de 1985, Origins of the Great purges: the Soviet Communist Party reconsidered, 1933-38, e a colectânea de artigos organizado por este em 1993, Stalinist’s Terror). 3 milhões de mortes é o número que o Professor Steven Rosefield da UNC-Chapel Hill fornece sobre a crise demográfica da década de Ieltsine, o Professor Stephen Cohen estima também que nesse mesmo período houve mais órfãos do que nos quatro anos da Grande Guerra Patriótica e o relatório de 1999 do PNUD corrobora essa mortalidade salientando, o reaparecimento de doenças infecto-contagiosas (Tifo, Cólera, Sífilis, Malária) há muito desaparecidas, o aumento da população toxicodependente para números assustadores (2 milhões actualmente), o aumento do alcoolismo (não só entre os homens mas também entre as mulheres), a quebra na esperança de vida dos adultos, assim como o facto que as taxas de mortalidade na federação russa e nos territórios asiáticos na ex-URSS serem nos finais de 90 superiores aos da China e da Mongólia.
    Por muito que os líderes gémeos da Rússia, Medvedev e Putin, assim como os seus aliados da burguesia oligarca e plutocrata o tentem esconder os verdadeiros fundadores da Rússia contemporânea chamam-se Lenine e Estaline: sobre eles podemos dizer o que diziam os cidadãos soviéticos sobre a desestalinização que sim, houve culto da personalidade mas também houve grandes personalidades. Sobre Gorbachov, Ieltsin Putin e Medvedev muito haverá para dizer mas como casos de estudo de líderes capazes de transformar uma superpotência num país pedinte e depois num país a viver de glórias e receitas passadas pois as presentes são escassas e ilusórias.

    2- O modelo historiográfico adoptado burguesia e seus aliados é que a União Soviética e a experiência concreta do socialismo num só país, (e depois da segunda guerra mundial num bloco de países), foi uma colossal maré negra. A defunta URSS surge como uma segunda ontologia do mal, (sendo a primeira o Nazismo); a inteligentsia burguesa não a designa por pior até que o III Reich por pudor mas estejamos descansados que arranjarão coragem e desfaçatez para o dizerem um dia destes.
    Nessa glosa funérea e penitenciária cabe ao senhor Estaline, o papel de timoneiro. Assim temos que o mais famoso georgiano da história da Rússia, embarca na história da humanidade como agente fúnebre do socialismo mas sobretudo como um sociopata com uma inclinação irracional e recorrente para resolver os problemas da economia e da sociedade através de deportações, purgas e fomes planeadas.
    No fundo não é mais que o arrazoado anti-soviético da chamada tendência trotskista que define o segundo líder soviético como um belzebu thermidoriano, a fada madrinha da burocracia congestiva…a esse curriculum a direita acrescenta as caricaturas requentadas emanadas dos aparelhos de propaganda do senhor Goebbels, dos fascistas ucranianos, dos apóstolos da democracia e da liberdade (estou a ser irónico) que foram a Polónia de Pilsudsky e do movimento Sanacja, a Hungria de Horthy ou a Roménia de Antonescu, caricaturas que por sua vez foram recicladas pelos think-tanks do Pentagono e do Mi-5 disfarçados de insignes escolásticos de sovietologia.
    A verdade é que o desempenho de Estaline, do seu Politburo e do Partido Comunista Soviético foi bem mais complexo e contraditório e que o positivo e negativo no curriculum de Estaline estão abertos a um debate e a uma investigação que ainda estão nos seus alvores; não nos esqueçamos que os arquivos soviéticos continuam a ser de acesso limitado, que as autoridades russas filtram as consultas dos elementos documentais sobre as Purgas e outros momentos trágicos da URSS, a entrada é apenas dada aos historiadores e académicos que alinham com a tese que criminaliza Estaline, e mesmo esses tem uma apreensão limitada do material de estudo; recentemente o neto de um dos generais que presidiu ao julgamento de Tukachevsky e que posteriormente seria julgado por traição por estar implicado na mesma conspiração, consultou o dossier do seu avô e o que disse foi que quando se abrissem de facto os arquivos estes teriam o efeito de um tiro de canhão sobre certas verdades adquiridas acerca de Estaline e da sua época. É óbvio que não estou aqui a negar o sofrimento de inocentes ou a negar as deportações ou as crises alimentares; agora é preciso colocar tudo isso no seu contexto.
    Mas ouçamos o que tem para dizer a historiografia contemporânea sobre a época soviética e sobre Estaline em particular: no seu estudo The Stalin Era Philip Boobbyer (2000: 1-13) afirma que a extensão do poder de Estaline e a sua capacidade de tomar decisões e de as impor ao colectivo partidário e ao aparelho de estado alterou-se ao longo dos anos em que se manteve no poder. Martin Talia (The Soviet Tragedy: A History of Socialism in Russia, 1994: 235), historiador norte-americano anticomunista, disputa a tese de que a ascensão de Estaline representou um novo Thermidor (tese iniciada por Trotsky); Stephen Kotkin (Magnetic Mountain: Stalinism as civilization, 1995: 357) argumenta por seu lado de que nos finais de 1920 princípios de 1930 não houve um recuo ideológico em relação ao radicalismo dos anos iniciais do bolchevismo mas antes uma deslocação do processo de construção do socialismo para o da sua defesa em relação às ameaças externas; no contexto desse tema a Investigadora de História Contemporânea da Universidade de Paris VII, Annie Lacroix-Riz (Holodomor le Nouvel avatar de l’anticomunnisme européen) demonstrou que quer a república de Weimar, quer o Vaticano associado ao governo polaco, quer a França subsidiaram os nacionalistas ucranianos e as suas actividades anti-soviéticas e anti-semitas. A historiografia contemporânea desmente o carácter inamovível, monolítico da ideologia estalinista (distingue até dois tempos na sua dinâmica, um proactivo e outro reactivo); Reichman (1988: 74) diferencia quatro momentos: a revolução vertical de 1928-1931, o grande recuo e as purgas da década de 1930, a guerra patriótica e os anos do pós-guerra de vigência de Estaline. O controlo quotidiano que Estaline mantinha das tarefas político-económicas do Estado Soviético não afasta a evidência de que ele não era um Master plannner; muitas vezes ele reagia aos acontecimentos mais do que os planeava ou os antecipava. (Arch Getty, 1985: 203 ver também Thurston, 1996: 17). Sobre o regime de Estaline a sabedoria convencional sobretudo a que utiliza para se referir à URSS o nome de código de totalitarismo, apresenta com frequência nos seus argumentos uma visão unívoca das relações entre o Estado e a sociedade, abordando o impacto das medidas políticas e económicas do Estado nos grupos sociais, na sua formação, aniquilação ou transformação; os historiadores sociais têm analisado o mesmo regime mas numa óptica diferente, observando fenómenos inversos, isto é, chegando à conclusão que foram as forças sociais criadas pelo regime quem acabaram por definir as políticas (e beneficiar com elas); Sheila Fitzpatrick, Historiadora da Universidade de Chicago (Education and social mobility in the Soviet Union, 1921-1934, 1979: 398) argumenta por exemplo que grupos sociais de maior mobilidade e êxito social, treinados no período do primeiro plano quinquenal, foram os principais beneficiários e apoiantes das purgas de Estaline. A tese principal é que os eventos políticos podem ser interpretados em cima mas também em baixo da escada social. O estudo de Fitzpatrick (Stalin’s Peasants, 1994) reflecte sobre o tema da negociação, do push and pull que marcou as relações entre o Estado e o campesinato soviético, kholkhosiano, na década de 1930. E podia prosseguir com a lista, podia referir Grover Furr, um historiador polémico mas rigoroso nas suas análises (corroboradas em muitos aspectos por J.Arch Getty); nenhum destes autores (à excepção de Grover Furr que se assume como um defensor do socialismo real) reabilita Estaline mas coloca-o numa escala mais humana onde a realidade é muito mais complicada e menos a preto e branco do que as construções que o anti-comunismo internacional publicou com torpeza e falsidade sobre o período da década de trinta na União Soviética.

    3-Para o Imperialismo a URSS representou o maior “delito de dignidade” cometido pelas classes trabalhadoras: elas conseguiram sozinhas conquistar e organizar um Estado de novo tipo. A tomada do poder pelos bolchevistas e a vitória na Guerra Civil não só tiveram custos humanos e materiais que obrigaram a direcção política a recuar nos seus objectivos como as lutas de classe, a acção desestabilizadora dos inimigos jurados do poder soviético, inimigos instalados no aparelho estatal, nas suas organizações administrativas e económicas, e mesmo políticas, a intervenção estrangeira, o chauvinismo, o anti-semitismo, os preconceitos culturais, a ignorância e a iliteracia não cessaram de existir só porque a vanguarda proletária aliada ao campesinato pobre tinha tomado o poder. A URSS não nasceu imaculada e escorreita mas foi logo nos seus primeiros dez anos de existência um processo complicado, ameaçado externamente, bloqueado, divido em tendências antagónicas, e minado por elementos cuja relação com o poder soviético era conjuntural, oportunista e que à primeira oportunidade demonstrariam efectivamente que nada queriam ter a ver com o socialismo ou com a emancipação dos trabalhadores.
    É natural que os assalariados do anticomunismo ampliem os defeitos, erros e crimes que se cometeram nessa experiência nova, diferente, difícil. A atenção desmedida, oportunista a esses aspectos trágicos servem como manobra de diversão para que o leitor incauto, o cidadão menos informado não se aperceba da dimensão da exploração e da desumanização que existia nos ¾ do planeta que não eram território soviético e agora existe na totalidade da esfera terrestre. Foi feita uma guerra de percepções contra o poder soviético. E os seus protagonistas esquecem-se convenientemente de referir que a democracia era limitada na Grã-Bretanha, na França e nos E.U.A dos anos trinta, que o direito de voto não abrangia todos as mulheres, que as potencias coloniais exerciam mão de ferro nas suas províncias ultramarinas, esquecem-se que ainda em 1946 quando Churchill faz o seu discurso em Fulton permaneciam sob a alçada da Corôa Britânica centenas de milhões de almas que nunca foram tidas nem achadas sobre a vida económica e política do Império e que não usufruíam de instituições livres e democráticas nos seus países, a fome de Bengal na Índia tinha decorrido há 3 anos (e a reacção intempestiva de Churchill foi perguntar ao governo colonial se o Ghandi tinha sido uma das vítimas…), a França cometera os massacres de Sétif e de Constantine na Argélia, que a Holanda iniciara uma guerra sangrenta contra os nacionalistas indonésios, que a Turquia e a Persia que Churchill refere no seu discurso de Fulton como alarmadas com o poderio do seu vizinho soviético eram ditaduras ou monarquias feudais; esquecem-se que a guerra civil que ainda hoje perdura na Colômbia nasceu em 1945, que o Haiti foi governado pelos norte-americanos entre 1915-1934, que o Apartheid já não era apenas uma filosofia política nos anos vinte do século XX e adquirira a sua forma precursora das leis do Apartheid com a Pass Law de 1923.

    3-Outra artimanha da glosa anti-comunista é comparar a URSS com o III Reich; escondem que o milenarismo nacional-socialista era um Estado Capitalista, era aliás a reacção mais extrema do capitalismo aos avanços sociais e económicos da URSS; esquecem-se, por conveniência, que as leis económicas que regiam esse país eram o da acumulação capitalista, que a propriedade privada dos meios de produção, distribuição e de recepção manteve-se intacta e sólida no período do III Reich, que o mercado era todo-poderoso ditando os fluxos da oferta e da procura quer fosse no fabrico de armas quer fosse no transporte ferroviário das populações europeias e soviéticas que viriam a ser exterminadas nos campos da morte esses também desenhados e construídos por empresas privadas ao serviço do Reich; esquecem-se que os seus principais financiadores, promotores e activistas provinham da burguesia alemã, norte-americana, britânica e europeia, que de Tallin no Báltico a Constança no Mar negro, de Houston no Texas a Detroit no Michigan não havia barão da indústria, Junker, especulador bolsista, banqueiro, latifundiário, oligarca, proprietário colonial, general nacionalista, cardeal que não vibrasse com o ressurgimento germânico e com a expectativa de um ajustes de contas da civilização dita cristã com o bolchevismo ateu. Esquecem-se de referir que as famílias económicas que ajudaram a erguer máquina de guerra nazi e que inundaram as estepes soviéticas de morte e destruição, que ajudaram a destruir quase duas mil cidades na URSS, milhares de aldeias, de habitações, de pontes, fábricas, etc, que forneceram o poder balístico para assassinar milhões de civis soviéticos, que essas famílias e as suas contas bancárias na Suíça, no Mónaco, na America do Norte e do Sul foram protegidas e branqueadas pelo sistema financeiro das potencias ocidentais.

    saudações comunistas

  17. José Estaline diz:

    Eu sei o que foram os gulags. Não peço é desculpa, pecebeu?

  18. Renato Teixeira diz:

    Carlos, a NEP é seguramente um grande problema, e até hoje desconfio que sem medidas que a tornassem absolutamente transitória era inevitável o seu enraizamento.

    José Estaline, deve ser por ser pândego que estou perfeitamente nas tintas para o Yuri Gagarine. Tenho-o em tão boa conta como o Cristiano Ronaldo e a Mariza.

    O filho já o tenho e diz Che Guevara na perfeição, embora Trotsky confesso esteja a ser difícil. Gagarine dizia frequentemente mas foi antes dos seis meses e acho que queria dizer mama.

    Nuno, acho que a Frida e o Trotsky partilhavam mais do que o bigode. Talvez tenha sido por isso a história da picareta. Combater o estalinismo já era mau, agora ir para a cama com a mulher de um, foi a via mais rápida para o divino. 😉

    Egas Moniz, JDC, Irra!

    Manuel Monteiro, sempre perspicaz e sapiente…

  19. Renato Teixeira diz:

    Pedro Pousada, obrigado pelo empenho na resposta, deu-se ao trabalho de dar uma verdadeira aula. Precisarei de o ler de forma mais cuidada.

  20. Pedro Pousada diz:

    Ao material bibliográfico que enviei acrescento também a referência a duas obras do Historiador Geoffrey Roberts, Victory at Stalingrad (London: Pearson Education Limited, 2002)e Stalin’s Wars 1939-1953(New Haven and London: Yale University Press, 2006); são trabalhos de investigação da historiografia ocidental (porque a soviética e a russa estão pouco traduzidas) que desmistificam muitas das pseudo-verdades que foram sendo veículadas pela propaganda anti-soviética e anti-Stalin (ou anti-Estaline). G.Roberts explica-nos entre outras coisas que: nas vésperas (no dia anterior mesmo) da assinatura do pacto “contra-natura” Molotov-Ribentropp os soviéticos tinham tentado sem sucesso um tratado de defesa mútua com a França e a Grã-Bretanha, que já em 1938 tinham pedido aos Polacos que abrissem um corredor no seu território para os soviéticos irem em auxílio da Checoslováquia, que a 1ª Guerra da Finlândia de 1940 não foi o aparente insucesso ou desastre militar que hoje continua a ser propalado, os soviéticos não chegaram a Helsínquia apenas porque Estaline não pretendia a ocupação da Finlândia nem a sua derrota mas apenas que o governo finlandês (de direita e anti-soviético) facilitasse bases e àrea geográfica que permitissem a defesa da região de Leninegrado na eventualidade de uma invasão inimiga, que o comando militar soviético aprendeu com os seus próprios erros, que havia uma política de relatórios e de análise de dados que tornava o comando militar e político mais consciente do que se passava e do que tinha que ser corrigido, que a invasão alemã surpreendeu os soviéticos em plena transformação organizacional do seu aparato militar, que a doutrina militar soviética era eminentemente ofensiva, era essa a teoria militar apoiada por todos os generais soviéticos (o conceito de Defesa em profundidade não estava desenvolvido em nenhum exército europeu da época, isto é, a capacidade de reagir defensivamente contra a mobilidade e a superioridade de fogo do adversário e só em Kursk é que ele atingiu o seu apogeu táctico (absorção do impacto das forças inimigas e posterior envolvimento e cerco em manobra contra-ofensiva); que Estaline evoluiu na sua percepção dos problemas militares e logísticos, que valorizava a opinião dos especialistas e exigia dos seus oficiais a audácia de contra-argumentarem nas reuniões da Stavka e de, se necessário, o contradizerem; que ele nunca pretendeu a divisão da Alemanha (esta foi imposta pelos aliados) que tentou sempre garantir por via diplomática que os países vizinhos da URSS se mantivessem na sua esfera de influência e não fossem cúmplices de projectos de agressão contra o Estado Soviético (como agora se verifica com a Nato às portas da Rússia), que quem salvou a Europa e a democracia foram o Exército Vermelho, o Povo Soviético e Estaline. Ponto final. Há inúmera bilbiografia que não vou citar que relata pormenorizadamente o desempenho dos generais e do supostamente decapitado Exército Vermelho na defesa da União Soviética, milhares de oficiais soviéticos recusaram a rendição e tentaram romper o cerco, muitos morreram em combate mas muitos outros lograram a fuga e os próprios nazis admitiam em 1941 que estavam lutar em duas frentes em simultâneo; outro pormenor curioso que desfaz o mito de Estaline como um anti-semita, na segunda guerra mundial o exército com mais generais e marechais judeus era o Exército Vermelho; outro mito que tem sido desfeito é o da inferioridade do equipamento soviético que demonstrou ser mais robusto, estável e fiável que muita maquinaria state of the art desenvolvida pelos alemães. enfim podia prosseguir mas agora temos é que lamentar as vítimas mais recentes do sionismo e deplorar o desaparecimento inútil da URSS que tanta falta nos faz…

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