Memórias de um memorialista

«Um dos espíritos mais formosos deste século trágico em que vivemos escreveu, pouco antes que a Europa pegasse fogo, que toda a história é sempre história contemporânea, “perché, per remoti e remotissimi che sembrino cronologicamente i fatti che vi entrano, essa è, in realtà, storia sempre riferita al bisogno e alla situazione presente, nella quale quei fatti propagano le loro vibrazioni”*, e faz todo o sentido isso que escreveu, pois que, se o passado determina o presente, é este que, por sua vez, ilumina o modo como lemos o passado, numa dialéctica binária perfeita, que se inspira directamente nos mestres idealistas alemães.

*Benedetto Croce, “La storia como pensiero i como azione” (Bari, 1938)

É certo que o historiador não se confunde com o panegirista, nem menos ainda com o hagiógrafo, cujo reino não é deste mundo, e, apesar de a história que cultiva ser toda ela, à maneira de Croce, “contemporânea”, ou referida ao presente, não ganha por isso licença para a inventar; como o causídico astuto, porém, se é certo que deve dizer sempre a verdade, já não o é que deva dizer toda a verdade, e será da vasta massa dos eventos sem sentido aparente que deverá escolher aqueles poucos de que tenha precisão para compor a sua história, sendo que essa selecção não poderá deixar de obedecer ao seu critério, e que este será sempre, e por definição, presente. Por outras palavras, digamos que, ao contrário de outras ciências, a história tem sempre uma alta missão, que a prende ao presente, e que cabe ao historiador servir, e que, por tal razão, este deve ter – e apurado – o sentido das conveniências, não se esquecendo nunca dos particulares motivos que o fazem abandonar o presente e o levam a inquirir o passado. O que vai dito aplica-se tanto à história das nações como à das grandes personagens ou das famílias: e tal como não cabe ao historiador nacional remexer nos lamaçais da história pátria (que também os há, hélas!, pois que é a história de simples mortais) num compêndio destinado a formar o espírito da mocidade dos liceus, por exemplo, também não cabe ao biógrafo ou ao memorialista de uma casa recordar os seus inevitáveis podres ou as acções menos elevadas das mais altas figuras, mas antes dar brilho ao que nasceu para brilhar. E jamais se diga que a história assim iluminada pela boa moral é uma história menor, ao contrário: a memória humana, precisamente porque é humana, é imperfeita, fraqueja, tem lacunas; e auxiliada por outras ciências do pensamento aperfeiçoa-se, fortifica-se e melhora, tanto em rigor como em humanidade. Sim, humanidade – porque a verdade é que, ainda que o morgadio esteja hoje extinto, pelas discutíveis leis que saíram do turbilhão liberal de há cem anos, ninguém poderá negar que cada pai traz no seu coração um eleito, que, pelas melhores razões, tenderá a ser o seu primogénito varão (ou a fazer as suas vezes), tal como todos os avós têm um favorito também, entre os netos que são ainda mais numerosos do que os filhos, e por razões tão fundadas quanto as destes últimos, e, se assim é, por que não admitir que cada neto tem também um avô preferido – o que não é senão outro modo de afirmar que todos encontram no passado familiar um antepassado, longínquo que seja, cuja memória lhes é mais cara, ou do qual gostam mais do que dos outros? E por que razão – caberá também perguntar – preferirão tais descendentes esse antepassado a outros? Por razões do presente, sempre, e que sempre se prendem com a perpetuação das famílias: com o seu património, quase sempre, com o seu brilho social, muitas vezes, com a vastidão ou a agudeza dos seus ensinamentos, já Sá de Miranda se lamentava que muito poucas ou nenhumas.»

In Duarte Bettencourt, Memórias de um memorialista (Lisboa, Ed. Almagrande, 1943), pp. 150-151

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SEXTA | António Figueira
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1 Response to Memórias de um memorialista

  1. Georgina Luísa B. diz:

    Tenho isso em inglês (“Memoirs of a memorialist”, Forgeries & Fakes).

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