
(..) entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas (…)
Mário Cesariny
“Pior que não cantar
é cantar sem saber o que se canta
Pior que não gritar
é gritar só porque um grito algures se levanta
Pior que não andar
é ir andando atrás de alguém que manda
Sem amor e sem raiva as bandeiras são pano
que só vento electriza
em ruidosa confusão
de engano
A Revolução
não se burocratiza”
Mário Dionísio
Espero não ter sido contagiado pelo espírito do centrismo mas vejo que este é um debate cheio de boas razões dos dois lados da polémica. Um pouco como se fosse possível fazer a síntese dos poemas citados.
Os equívocos da Concentração Anti Capitalista:
1º- O texto tem limitações óbvias e porventura padece de alguma ingenuidade política. Começa desde logo por compreender mal a noção de medo: “Patrões de todo o mundo, tenham medo, tenham muito medo”. O regime, como as crianças de dois anos, são bastante perspicazes a detectar potenciais ameaças. O que assusta o regime, e as crianças, mais do que a propaganda do medo, é a sua acção. Os patrões temem greves, ocupações, governos que não conseguem governar, o poder popular e consequentemente a redução dos seus lucros e a ameaça aos pilares de um Estado que no fundo é seu. O simples anúncio do Papão, do Polícia ou da Coruja, pode levar uma criança para a cama algumas semanas a fio mas nunca a levará a preferir o sono à festa. Já a ameaça de pimenta na língua, de cócegas ininterruptas ou a sabotagem do horário dos desenhos animados serão sempre armas eficazes para levar os putos, e o regime, a fazer aquilo pelo qual lutamos.
2º- Nenhum Palácio de Inverno vai ser tomado por convocatória pública. O tom do comunicado leva a intuir uma predisposição de duvidosa intencionalidade, mas acima de tudo revela a incapacidade de se cumprir. Na Grécia, por exemplo, várias organizações optam por este método para o combate à crise e ao PEC, mas não consta que a ocupação da televisão por um sindicato ou os ataques à bolsa de Atenas tenham tido publicidade antes de se consumarem, e terão assustado mais do que qualquer comunicado, comício ou declaração de princípios.
3º- Muitos têm sido os momentos em que é justa a crítica à CGTP. A institucionalização e dependência do dinheiro do Estado; os vícios da excessiva burocratização; a predisposição natural para a obtenção da concertação social; a clara preferência pela via negocial nos conflitos laborais quase sempre em função de conquistas defensivas (o paradigmático caso do Sindicato dos Professores ou da Comissão de Trabalhadores da Auto Europa), são razões de sobra para a sua abordagem critica. Agora se as oportunidades deste debate, infelizmente, não têm faltado, a escolha do actual momento é no mínimo mal intencionada. Apesar de não estar a dar à luta o rumo que se queria (e tão bons resultados tem dado na Grécia), o campo sindical tem respondido ao Governo e é de momento a única força com expressão à esquerda, a poder decidir sobre o seu derrube. (assim Carvalho da Silva anuncie a Greve-Geral no Rossio).
Os acertos da Concentração Anti Capitalista:
1º- Não sei se esta concentração vai ser mais ou menos folclórica do que têm sido algumas dentro do género, em Portugal e por essa Europa fora, mas é certo que há acertos que não podem deixar de ser sublinhados. A acusação ao minimalismo da burocracia sindical e da esquerda reformista será pouco oportuna no caso da primeira mas absolutamente justa em qualquer um dos casos. Em particular depois de vermos o BE votar os euros para a aplicação do PEC grego, é reconfortante ver que há quem por lá não seja tão papista quanto os seus papas.
2º- A manifestação não é da CGTP, é de quem nela decida participar. É deste modo porque a CGTP, e bem, assim o decide. Trata-se de um chamado da central sindical mas cada um tem todo o direito a participar nela conforme entende. Assim é costume estarem presentes os TSD, como esteve no 1º de Maio e no 25 de Abril delegações do PS. Assim se juntam organizações com diferentes horizontes e causas, da mais nebulosa ONG a todas as correntes que se identificam com o protesto. Gostamos mais de uns e menos de outros mas todos podem levar ao chamado a sua proposta política. A unidade sindical num determinado contexto e momento não significa que se esqueçam as diferenças e se restrinja a liberdade de cada um dizer o que pensa e qual o caminho que quer trilhar. Eu vou continuar a participar nas manifestações convocadas pela CGTP ou por quem quer que seja, usando da liberdade para dizer nelas o que bem entendo.
3º- Porque é preciso elevar o tom da luta. É vago e não concretiza, é certo, mas é uma intenção imaculada. Não pede uma Greve-Geral nem a queda do Governo, exigências acertadíssimas no actual momento da luta, mas quer pela tónica internacionalista: “People o Europe Rise Up” quer pela pressão para alargar o diâmetro do passo sindical, o documento é meritório.
Ponto póstumo: Compreendo as hesitações sobre a o chamado, mais pela sua posição políticas do que pela sua origem de classe. Recorrer ao segundo argumento é a pior das vias para debater com o esquerdismo, até porque, na hora do mata-mata, serão os proles dos proles os mais impacientes.
Não podemos estar todos juntos pela luta toda, ainda que não falemos a uma só voz nem cantemos o mesmo amanhã?




Muita «coltura» e pouca acção…
A posta não é nada “coltural” e apela precisamente a isso: à acção.
Estarei com a CGTP, acho bom que participem outros movimentos mas acho ridícula a sectarização (meia hora antes? anti-capitalistas [normalmente os que têm medo de dizer... socialistas!]? mais maydays?)
Um excelente post, talvez o melhor e mais lúcido que li quanto a esta manifestação. Já agora, quanto a outros posts e comentários: é espantoso que uma concentração (vejam se entendem esta palavra) que se propõe integrar uma manifestação (e não fazer nenhuma “contra-manifestação”, que isso sei eu bem o que é) seja acusada de sectária face a essa mesma manifestação. Há de facto uma grande dificuldade em certas pessoas entender a unidade na pluralidade, que escapa a centralismos “democráticos” e “vanguardas revolucionárias”. O que aquela concentração fará, espera-se, é INTEGRAR, ou seja, unir no protesto alguns que não se sentem confortáveis debaixo do chapéu de sindicatos e da esquerda parlamentar. Também os movimentos LGBT e os Precários Inflexíveis marcaram concentrações para sítios dispares, meia hora antes (no caso dos Precários, em frente à PT, o que faz todo o sentido), e não vi ninguém levantar a celeuma que esta provocou. Enfim, o problema será, e concordando com o tom algo naif do apelo à concentração, a própria natureza da mesma: a velha rivalidade entre marxistas e anarquistas. O curioso é que vi alguns tanto aplaudir a violência irreflectida e os cocktail molotof na Grécia (quem é que julgam que lá estava a atirar as pedras? O PC?) e quando se chega ao nosso quintal, alto lá, que é kitsch e pequeno-burguês e estão a desunir e a fazer o jogo do sistema.
Só espero que os anarcas (infiltrados como sempre pela polícia) resolvam fazer merda como é do seu timbre durante a manif. Vai permitir muita “clarificação”
João Dias, o MayDay é uma boa contribuição. Acho que até o PCP já o admite. Quanto ao resto veremos o que dá.
André Carapinha, obrigado pelo elogio. Mais do que uma questão de rivalidade entre anarquistas e comunistas trata-se de um choque entre tradições militantes.
José Estaline, tenha calma com as clarificações. Elas fazem-se com o tempo sem recorrer nem a instrumentos agricolas nem ao serviço de ordem.
Renato Teixeira: Bom post e grande avanço no uso da responsabilidade revolucionária. Há uma grande mutação muito positiva no essencial do ” corpo político ” dos articulistas do Cinco Dias. Pressão das ” bases “, agitação doutrinária plural e contraditória e a gravidade da Hora que passa: por certo estão na origem desta surpreendente e muito positiva posição assumida pelo v. Colectivo. Deixo, aqui, uma referência muito importante sobre ” As características da Acção Directa “, texto fabuloso de Emile Pouget, um histórico anarco-sindicalista francês pleno de racionalidade e exigência. ” A acção directa é a força operária em trabalho criador; é a força criando o direito novo- realizando o direito social “, in http://revueagone.revues.org/139. Salut et égalité! Niet
Niet o seu reconhecimento pela elevação do novo quadro de escribas, bem como pela minha responsabilidade revolucionária, é tocante e digno de ser reproduzido com o som da vuvuzela.
Bom texto. Sublinho particularmente o último paragrafo:
“De sorte qu’on peut conclure que l’action directe, outre sa valeur de fécondation sociale, porte en soi une valeur de fécondation morale, car elle affine et élève ceux qu’elle imprègne, les dégage de la gangue de passivité et les excite à s’irradier en force et en beauté.”
Renato:
não se ponha com tangas sobre o “serviço de ordem”. você tem a inteligência e o calo suficiente para saber que, se tivessem tomates, os anarqueirados portugueses iam prá manif atirar pedras e partir montras – aventureirismo sugerido naquelas metaforazinhas rançosas do “a rua é nossa” ou “bloquear a economia pra começar a viver”. Mas como isto de pousar ao radical na blogosfera é mais seguro do que arriscar os costados na prisa, os anarquinhos vão lá estar com as coreografias habituais entre o cabarét e o protesto e as palavras de ordem “imaginativas” do costume.
ABSOLUTAMENTE DEPRIMENTE É O CARÁCTER ANÓNIMO DA CONVOCATÓRIA “ANTI-CAPITALISTA”. Panfletagem anónima foi sempre coisa de fascistas
Estou de acordo que a convocatória ganhava se tivesse sido subscrita pelas organizações que a convocam.
Pingback: Tweets that mention cinco dias » Mas afinal é a CGTP ou a poesia que vai descer à rua? -- Topsy.com
E quais são as organizações que a convocam? Que eu saiba, não há organizações a convocar, há conjuntos de indivíduos. Adianta muito colocar lá o nome? Para quê? Para entrar directamente na lista de extremistas perigosos do SIS?
A convocatória não ganharia nada se fosse subscrita por organizações, pois isso retiraria todo o sentido de um bloco que se demarca à partida pelo seu cariz autónomo. O que não impede que organizações e movimentos se juntem à posteriori. É isso que a faz ganhar ou perder. Amanhã poderá dizer-se se foi ou não uma boa convocatória.
Até lá, tudo é especulação e, em muitos casos, tentativas de divisão e segregação que em nada beneficiam a luta que procuramos fazer contra inimigos e dinâmicas comuns.
Os tipos do SIS que fazem estas listagens têm uma imaginação fantasiosa.
Gualter, é exactamente ao contrário. Ao não ser subscrita por um conjunto de organizações é lida como sendo de um grupo só, que o SIS está careca de conhecer. O que importa então é as pessoas. Essas, que não conhecem os individuos do chamado, olharão para a coisa sempre de soslaio, centrando o debate numa questão ultra secundária.
O anonimato tem também o defeito de ter consequencias mt pouco democraticas, onde as lideranças já definidas não têm que ratificar nenhuma decisão nas pessoas que se decidam juntar ao protesto.
Quanto ao resto de acordo. Que toda a luta se acrescente.
Ok, então metam lá o meu nome, mas não como líder se faz favor. É que dar nomes também tem estas coisas de meterem logo líderes. Como a nossa comunicação social gosta disso! No entanto, SIS, deturpações da comunicação social ou o que seja que possa interferir com a dignidade/privacidade do indivíduo, não são para mim um ponto central.
O que está em causa aqui (na manif em concreto) não me parece que seja um processo democrático a envolver algum tipo de decisão assembleária. Não há decisões para ratificar neste bloco, há antes um aglomerado de colectivos, grupos de afinidade ou indivíduos que se decidem juntar nele, em torno dos valores que são projectados pelas convocatórias (genericamente a da CGTP, particularmente a da formação de um bloco anticapitalista).
Esses processos ocorrerão dentro de cada grupo. No GAIA, posso dizer, isso foi discutido e, não havendo um consenso – sobretudo por falta de tempo para trabalhar sobre uma posição/texto comum que permitisse ultrapassar algumas divergências em relação ao texto da convocatória – optou-se por fazer apenas a divulgação e deixar a opção de participação para cada activista.
Não coloco em causa que possa ser um passo importante dar uma identidade mais concreta a algum movimento de crítica mais radical que possa estar associado a este bloco na manif. Isso é, a meu ver, um passo seguinte, uma discussão que tem que ser feita após saber quem se juntou a este apelo, quem está interessado em trabalhar mais num movimento de algum tipo para multiplicar iniciativas e para alargar o espectro do debate, da crise (económica e ecológica) ao capitalismo.
Talvez, pode comentar-se, pudesse ser útil definir essa identidade num trabalho prévio, antes da manif. A meu ver, isso seria contraproducente, pois a realidade do movimento social em Portugal é a de um movimento fraco, cheio de desconfianças alimentadas pelas divisões históricas. Creio que a acção em unidade a anteceder uma reflexão e discussão, é um passo essencial para retirar algumas areias da engrenagem.
Se há coisa que me parece absurda, pelo menos no dia de hoje, é os que tencionam estar na Avenida andarem à estalada. Pelo menos hoje podíamos fazer uma pausa. Estarei na manifestação da CGTP, a central sindical que, com todos os defeitos que tenha, é a minha. E acho que todos são bem vindos.