De pé, contra o “kitsch” revolucionário, sempre! É tempo de mandarmos às urtigas o folclorismo “anti-capitalista” dos bushistas do costume


Hermann Broch

Os factos são:

Está convocado, paralelamente (contrária, no fundo) à manifestação da CGTP (uma manif que, para os “laura-bushistas” doentinhos do costume é uma manif “do PCP”), paralelamente à da CGTP, dizia eu, está convocado um encontrozeco intitulado “Concentração anti-capitalista: A crise dos poderosos é a festa dos oprimidos” (um título desde logo deveras ESTÚPIDO e insensível: os oprimidos não têm nenhum motivo para fazer festas!! Nem antes nem agora, isso é, sim é, para os pequeno-burgueses do costume). Esta autodenominada “Concentração anti-capitalista …” está marcada para o mesmo lugar da manifestação da CGTP, Marquês de Pombal, próximo 29 de Maio, mas ridiculamente antecipada em relação a esta em meia-hora (30 minutos!!!) – bom, muito bom, nada de confusões. E conta com slogans de génio, a imitar 68 (e não é por acaso que estes pobres IMITAM, imitam o passado, o passado referencial) deste género: “A crise dos poderosos é a festa dos oprimidos” (repito: festa?? festa??); “patrões de todo o mundo, tenham muito medo” (note-se como nesta frase é o patrão o protagonista – duplamente estúpida, a frase, por não referir quem sofre!!); “porque exigimos a rua como nossa” (aqui imita-se Maio 68, despudoradamente e sem imaginação). Ou seja, segundo esta última frase, a rua não é da CGTP, é “nossa”, porque os senhores vão lá estar meia-hora antes – e nesse período vão ser donos do Marquês, paz às suas almas.

Reparemos de novo nestas pérolas desta contramanifestação. Parecem pérolas revolucionárias, não é? Mas não são. E o que são? São KITSCH puro, do mais puro, grotesco e ignorante que é possível imaginar. Eu explico.

Em 1950, definia assim Hermann Broch a trampa do Kitsch:

A essência do Kitsch consiste numa troca da categoria ética pela categoria estética.

Dizer “a rua nossa” é exactamente isto: esteticizar a manifestação, o combate árduo e de risco.

Continua Broch: no kitsch, “o artista não possui um valioso trabalho de arte, mas antes um ‘Belo’ trabalho de arte, o que aqui conta é somente o efeito, o belo efeito. E isto significa que a novela kitsch, mesmo quando usa linguagem naturalista [ou, digamos, realista], isto é, o vocabulário da realidade, descreve o mundo não como ele realmente é, mas como seria esperado que fosse ou temido como tal”.

O kitsch tende a empregar aquilo que já deu provas (repete como eu disse slogans tipo Maio 68). Portanto:

O que pertence ao passado e está comprovado aparece sempre e reaparece no kitsch, por outras palavras (…) o kitsch está sempre sujeito a uma dogmática influência do passado – nunca constrói o seu vocabulário a partir da realidade nem do mundo directamente, mas aplica-se a repisar o vocabulário pré-usado, quer logo transforma em cliché (…)

Genial Broch, em 1950. Meditemos nisto. Por acaso, Theodor Adorno e Max Horckeimer, em 1944, no seu clássico Dialektikal der Aufklärung, no capítulo “A indústria cultural: o iluminismo como mistificação das massas” falam-nos de algo que igualmente nos interessa para avaliar esta pseudo-concentração pseudo-anti-capitalista: para eles, lucidamente, na indústria cultural e do pensamento (ver isto em paralelo com o kitsch) a resistência crítica apenas pode funcionar desde que integrada: “Quem resiste só pode sobreviver integrando-se”. Porque a indústria do capital absorve tudo, desde o realismo crítico à reforma agrária, se tudo se deixar carnavalizar. E é aqui que entra um conhecido alerta: a manifestação carnavalesca mais não faz do que lubrificar o sistema. A multiplicação das diferenças mais não faz do que iludir-nos com uma falsa desterritorialização (que reterritorializa sempre!!). Por isso é que a patética “concentração das 14.30”, “autonomista” e “laura-bushista” é contrária à manifestação organizada da CGTP. Dizem os tipos da “concentração” que negam a concepção de “vanguarda” (o partido, por exemplo). Ora era precisamente por aqui que Clement Greenberg, já nos anos 30, definia o kitsch: o kitsch é sempre académico e contrário à vanguarda.

E se fossem chatear a Laura Bush?


Reformistas

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