Álvaro Cunhal, sete fôlegos de um combatente


A obra que Carlos Brito apresenta hoje é um livro muito interessante. O autor tem, para além de uma vida cheia e uma grande inteligência, a grande virtude de não reescrever o passado à luz do seu posicionamento presente. Uma tarefa facilitada, no caso dele, por ser uma pessoa honesta que mantém grande parte das convicções que abraçou em jovem. “Álvaro Cunhal, sete fôlegos de um combatente” enriquece o património da história portuguesa com um um testemunho rico daquilo que foram quase meio século de história. A obra permite desmontar campanhas e invenções sobre o PCP no PREC. Explicar a estratégia e a tactica deste partido durante a revolução portuguesa. Mesmo no período recente em que a luta interna no PCP foi muito forte, que corresponde ao afastamento de Carlos Brito do partido, o autor dá a sua versão dos factos com cuidado e uma grande honestidade intelectual. Muitos poderão não concordar com ele, mas ganharão em ler uma versão interessante e vivida dessa história. A nível das pequenas histórias, não resisto em transcrever uma: corria o ano de 77, o parlamento recebeu um convite para visitar Marrocos. O PCP nomeou para a delegação o deputado Cavalheira Antunes, economista de profissão. Lido o protocolo da visita verificou-se a obrigatoriedade do uso de gravata em alguns momentos. O deputado declarou peremptório que se recusava a usar gravata. Perante esta situação, o deputado e o chefe de gabinete, João Amaral, deslocaram-se à sede do PCP para discutirem o impasse com Carlos Brito. Enquanto Brito e João Amaral tentavam, em vão, convencer o deputado recalcitrante, entrou Cunhal no gabinete para tratar de outro assunto. Brito pediu-lhe a opinião. Cunhal juntou os seus esforços aos dois outros para tentar convencer Cavalheira Antunes. Até que resolveu a questão. “Explicou que é muito usual nos países africanos o uso de trajes tradicionais nas cerimónias oficiais ‘e nós temos trajes muito bonitos, por exemplo, os minhotos’, salientou, ‘ora o nosso camarada podia ir vestido de minhoto e evitava-se a gravata. Até podemos já telefonar aos nossos camaradas de Viana a encomendar um fato.’ Aqui o Cavalheira Antunes interrompeu, aflito: ‘ Não é preciso, não é preciso, eu vou comprar a gravata’. E assim se evitou um conflito protocolar”.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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13 respostas a Álvaro Cunhal, sete fôlegos de um combatente

  1. Renato Teixeira diz:

    Nuno, já vi o papel do PCP no PREC metaforizado de muitas maneiras, mas olha que este recorte supera todas as más-línguas do esquerdismo que não tira da cabeça que foi a gravata o garrote da revolução;)

  2. António Fonseca diz:

    http://www.pcp.pt/videos/29-de-maio-todos-%C3%A0-manifesta%C3%A7%C3%A3o-da-cgtp – 29 de Maio – Todos à Manifestação da CGTP-IN

  3. Nuno Ramos de Almeida diz:

    O esquerdismo, como sempre, serviu a contra-revolução com a sua parvoice aventureirista.

    Abraço

  4. Vanessa diz:

    O esquerdismo como sempre , serviu a contra-revolução etc….

    A que esquerdismo se refere, á esquerda revolucionaria,e aos militares afectos ao Otelo ?

    Esses estiveram presos , ao passo que o PCP continuou de pedra e cal no Governo, com o PS o PSD e com os militares do 25 de Novembro.

    Coerências….

  5. Abilio Rosa diz:

    O Dr.Álvaro é que conhecia bem a corja que oportunisticamente migrou do PCP para o PS, PSD e BE e até à casos que foram direitinhos para o CDS.

    Agora são CEOs disto e daquilo, assessores, bibelots do regime, etc.etc.

    Traidores, oportunistas e tachistas são o traço predominante dessa fauna.

  6. Renato Teixeira diz:

    Autch! Unidade Sindical! Unidade Sindical!

  7. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Vanessa no seu caso é apenas a coerência na ignorância,
    O Otelo depois dos paras terem ocupado as bases militares no 25 Novembro, foi dormir, parece que só acordou depois de estar tudo acabado.
    Conheço dezenas de militares afectos ao PCP que foram presos. Conheço até gente que teve que fugir do país. Presumo que você defendesse que o PC se tivesse imolado pelo fogo e ido para um confronto militar e uma guerra civil, apenas por uma questão de atitude.

  8. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Abílio,
    Pela parte que me toca, obrigado. Sai do PC. Mas veja o meu azar nunca tive essas prebendas, nem lá, nem fora dele.

  9. António Figueira diz:

    Vanessa,
    Deves ao PCP o direito a tanto disparate – livre, como a gaivota da outra.

  10. vanessa diz:

    Dezenas de militares afectos ao PCP presos no 25 de Novembro?????

    Gente que fugiu do país , talvez o Dinis de Almeida …..

    A dormir também andaram as gentes do PCP, como aquelas do Barreiro , que fecharam a porta da sede , e puseram lá um letreiro que dizia , que os camaradas tivessem confiança no futuro…..

    Mas o mais importante é que a negociata estava toda feita para queimar os militares do Copcon e a esquerda revolucionaria.

    O Melo Antunes e o Cunhal já tinham tudo alinhavado.

    E em troca da colaboração, os homens do 25 de Novembro deixaram o PCP continuar no governo

  11. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Vanessa,
    É interessante como dá imensa importância à pasta de Veiga de Oliveira no VI governo provisório. Como se isso fosse moeda de troca de qualquer coisa. É revelador como escamoteia os acordos anteriores entre o Copcon e o Grupo dos nove para isolar a esquerda militar e Vasco Gonçalves. Lembro-me mesmo de uma cartinha de Otelo a dizer que Vasco Gonçalves se devia ir embora.
    É habitual que pense que é possível radicalizar um processo sem medir a correlaçao de forças. A principal cegueira dos esquerdistas nesse processo foi ter feito tudo para isolar as forças mais progressistas, dividindo e afastando, sem perceber que o perigo de regresso das mais reaccionárias se mantinha. O mais divertido disso tudo, é que essa chusma de hiper-revolucionários tiveram na sua maioria o caminho do Albarran. Falavam das chamas da embaixada de Espanha e acabaram a fazer negócios com o Carluci. É a vida. Eu é que não vou perder mais tempo com esta discussão. Repare, passaram mais de 30 anos, o que faz que a sua memória não seja muito boa ou a sua ignorância seja muito grande. O que me retira qualquer interesse em discutir consigo. Digo-lhe que só na marinhas houve muitos militares de próximos do PCP, um deles chegou posteriormente a ser da comissão política do PCP. Outro é do comité central e durante muito tempo responsável por Trás-os-Montes. Já para não falar do Miguel Judas ou do marinheiro Buno. E todos eles, tiveram, creio, mais de 3 meses presos…. E já agora, o Dinis Almeida foi preso em Custoias, no dia 27 de Novembro, com outros 51 militares “implicados”. Nem nisso acerta.

  12. joão viegas diz:

    Post informativo e interessante. Historieta perfeitamente espectacular. Obrigado Nuno Ramos de Almeida que ha muito tempo que não me ria desta maneira.

  13. Luís Almeida diz:

    Ramos de Almeida,
    Terás tido ceramente razões respeitáveis para sair do Partido, mas, é uma pena !
    O teu racicínio é, como o da maioria de nós ( do PCP ), “de classe”.
    Porque não voltas ? Não somos demais…

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