Ainda sobre mimetismo heteronormalizante e casamento (rest my case)

Descubra as diferenças:

Diferenças de classe? Mas não explicam tudo, pois não?

A propósito, faço parte de um grupo (hetero/homo/bi) que reflecte sobre poliamoria (além de praticá-la). Não mete boilo de noiv@s, mas reúne gente que de formas diferentes vai tentando de forma honesta propor e viver outras coisas que não a monogamia a dois, não necessariamente melhores ou com menos problemas, não faço a apologia, mas sim, que estas pessoas entendem como mais honesta.

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16 respostas a Ainda sobre mimetismo heteronormalizante e casamento (rest my case)

  1. Renato Teixeira diz:

    Parabéns pelos textos, Sérgio. Do melhor que tenho lido sobre o tema, como de costume. O movimento LGBT tem muito a ganhar com as tuas palavras e elas são tão mais preciosas se tivermos em atenção que elas apesar de reflectirem um problema tido como particular, remetem para as questões da globalidade capitalista.

    Uma cunha, tenho procurado alguma coisa sobre o Poliamor mas sempre vago, mal escrito ou demasiado estereotipado. Acho que é um tema que nos podias dar algumas luzes, começando com algumas sugestões de leituras. Bem sei que os adeptos da coisa gostam pouco de cair em propagandismos, mas acho que por aí seriam mais os armários a escancarar as portas. Abraço.

  2. CD diz:

    Passei e estampei em conversa estragada.
    Isto vai mesmo uma crise…

  3. Abilio Rosa diz:

    Não sei o que está a passar-se com este blogue mas há já muito tempo muitos dos temas postados andam à volta de LGBT, fufas, maricas, casamentos gay, adopções e o diabo quatro!

    Por isso eu pergunto, este blogue tornou-se numa sucursal do betinho, arrumadinho, e do politicamente correcto e anódino Arrastão?

  4. Nuno Ramos de Almeida diz:

    É verdade Abílio, e já estamos a pensar adoptá-lo.

  5. agent diz:

    Eu vejo mais diferenças a nível do auto-respeito do que em “classes”. Mas o problema pode ser mesmo meu, que nunca entendi que essa (auto) designação rasteirinha, comummente utilizada como ofensiva, fosse a melhor forma de se entender e ser entendido.
    E a introdução do tema do poliamor na discussão faz-me lembrar aquela argumentação descabida dos homofóbicos do costume, que nunca perdem uma oportunidade para estabelecer relacionamentos de paralelismo entre a homossexualidade e a poligamia, a poliandria, o incesto ou a bestialidade.
    Há tantas outras formas de demonstrar a discordância (ou revolta), que o resultado prático de utilizar raciocínios despropositados acabam por não ser muito mais que um tiro no próprio pé.

  6. Obrigado por animar isto, agent, quando toda a gente concorda comigo começo a ficar nervoso. A tendência de fazer análises materialistas (mas não simplistas) vem-me da vida, concretamente de experiências de pobreza que vivi, e também o facto de algumas propostas políticas corresponderem a interesses de classe, ou interesses dentro de classes, neste caso os gays, brancos, jovens que habitam Lisboa, Porto, capas de revista pró-bulimia e pouco mais. Eu não estou a dizer que um gay de classe média-alta não é afectado pela homofobia. Não digo sequer que haja algum heterossexual que não seja igualmente afectado por ela. O que digo é que a discriminação não se faz sentir da mesma forma, por exemplo quando se é desempregad@, ou transexual, ou, lésbica, ou se cruzam ainda outros factores de desigualdade, ou quando se é homem gay de classe média-alta dentro ou fora do armário, quanto mais dentro mais perto de votar no PP. Perdoar-me-à o automatismo de quem vê que são sempre os mesmos que têm de sacrificar-se, seja face ao capital, à religião ou às maiorias. Sim, “há tantas outras formas de demonstrar a discordância (ou revolta)”. Que se manifestem.
    Se a argumentação dos homofóbicos do costume é “descabida”, porque devemos ceder-lhe? E publicamente fazer caricaturas bem-comportadas (face à moral hetero, claro) de nós, quando temos vivências mais diversas, sem exclusão das não-hetero-normativas. Terão as nossas vivências marginais de ser escondidas para que o gay normalizado possa viver feliz? E o combate à homofobia onde fica? Tiro no pé é usar as armas do adversário sem as desconstruir, essa estratégia tem limites sérios. E fazer dos desejos de “normalidade” de tantas pessoas lgbt discurso político apologético, excluindo quem continua a não caber – e a ser rechaçado – na sociedade hetero/na comunidade gay heteronormalizada.
    O poliamor é uma proposta de outras formas de encarar as relações amorosas/ sentimentais, e, de certa forma, a vida entre os humanos, significando imensas pessoas que, conhecendo ou não o termo poliamor, têm vidas que escapam aos modelos totalizantes e que se apresentam como exclusivos (os outros continuam a ser imorais, promíscuos) – heterossexualidade compulsiva, sexismo, monogamia, exclusividade, ciúme, posse, controlo. O sexo é uma arma. Dizer meramente que existe poliamor – ou seja que existem possibilidades de alternativa que fizeram algumas pessoas mais felizes – não é uma forma de expressar discordância ou revolta. É a realidade de algumas vidas, minhas incluídas. Dizê-lo a partir do movimento lgbt, não é mais do que quebrar a visão estereotipada que parece ser a única que está a ser oferecida à opinião pública – a dos “homossexuais-bolo-de-noiva-que-bom-já-somos-aceites-e-somos-tão-normais”, e mostrar a nossa real diversidade e diferença: tod@s aqueles/as que ficamos nas margens. Incluindo as pessoas hetero que optaram por tentar formas de não-monogamia responsável, e que são aliad@s naturais, mesmo que nem sempre, do movimento lgbt no questionamento dos modelos relacionais únicos, exclusivos ou “naturalizados”. Rechaçá-los porque temos medo das associações que farão “os homofóbicos de sempre” é rechaçar a própria existência – e relevância – desses relacionamentos na comunidade LGBT. Invisibilizar, omitir. Não somos tod@s um grande espelho das vidas heterossexuais em versão sodomita. Precisamente, a homofobia, a transfobia, tantas outras coisas, tornam as nossas vidas diferentes. E o activismo da “igualdade”, que apoio, não deve esquecer a “diferença” que fazem as estruturas de poder e submissão que estruturam as sociedades actuais no tornar-nos “diferentes”. Elas não estão em vias de se alterar. O Daniel Oliveira dizia-me outro dia, meio em piada, suponho, que provavelmente o motivo para os desentendimentos no movimento lgbt residiria no facto de a discriminação – o tal entrar e sair do armário 15 vezes ao dia, e a sua violência – deixarem traços de personalidade nas pessoas que as tornariam em panelas de pressão irascíveis. Claro que isso implicaria que as pessoas não reagissem de forma diferente à marcação de diferença constante que é a discriminação, que continuamente coloca toda a gente no seu lugar, com o homem hetero por cima, claro, e tantos homens gays que hoje aspiram a ser tão “masculinos” como o homem hetero, e, claro, desprezam as bixas ou qualquer trejeito mais efeminado (nós-a-tentarmos-ser-aceites-e-estas-a-darem-má-imagem), logo, claro, as mulheres, e também não percebem aquela coisa estranha da transexualidade, mas gostam do espectáculo do finalmente porque, mesmo sem saberem porquê, a transgressão das normas binárias do género lhes parece longinquamente ter alguma coisa que ver com eles. Desculpem-lá-a-má-imagem-eu-estou-só-a-querer-viver-como-sei-sou-e-sinto-e-não-como-me-mandam.

  7. fernando rosa diz:

    agent não vamos misturar o que é comparar relações sexuais não consentidas, ou com crianças, em que a formação psíquica da pessoa não é entendida médica e jurídicamente como concluída a capacidade para a pessoa decidir sobre o seu corpo (portanto púnivel, uma vez que é baseada em relações de poder desiguais) com poliamor. o poliamor trata-se de uma relação de afecto entre pessoas adultas de forma consentida e gerida de forma consciente. e neste caso excluir estas pessoas só pode ser baseado em preconceitos morais. os mesmos que se baseiam para não aceitar que duas pessoas do mesmo sexo possam constituir uma família.
    e já que toca no incesto (que até ao momento julgo não haver sequer debate sobre essa questão), se tentar perceber um pouco a forma como foram definidos os papéis sexuais, e a divisão sexual do trabalho, bem como foram criadas as estruturas de parentesco como hoje as conhecemos nas nossas sociedades ocidentais, vai ver que as origens do mesmo (incesto) contribuiram e muito para que hoje existam argumentos como o seu, inflezmente. e já agora as relações de parentescos que são estabelecidas nas sociedades ocidentais, não são estruturadas da mesma forma em todas as sociedades, portanto o “incesto” é relativo.

  8. fernando rosa diz:

    há , e já agora. obrigado a quem “fodeu” o juízo ao Sérgio. È que assim podemos tê-lo de volta a escrever para o público, coisa que ele faz tão bem, e ultimamente não partilhava. por isso Sérgio, vê se agora não perdes o ritmo, que muita muita gente gosta de te ler, e ouvir, e ver. 🙂

  9. fernando rosa diz:

    * onde disse “…vai ver que as origens do mesmo (incesto) contribuiram e muito para que hoje existam argumentos como o seu…”, queria dizer “…vai ver que as origens DA INTERDIÇÃO do mesmo (incesto) contribuiram e muito para que hoje existam argumentos como o seu…”,

  10. Pingback: cinco dias » tod@s para a rua no sábado!

  11. agent diz:

    Fernando rosa, não entendeu o meu comentário. É justamente essa forma de misturar e baralhar conceitos que eu repudio e denuncio.

  12. agent diz:

    Sérgio, “a visão estereotipada (…) dos homossexuais-bolo-de-noiva-que-bom-já-somos-aceites-e-somos-tão-normais” é fruto dos recentes acontecimentos – uma igualdade recentemente ajustada – logo considero lógico que seja esse o tema celebrado no cartaz deste ano, mas, parece-me, longe de ser o único a celebrar no evento. Como tem sido nos anos anteriores? Sérgio, não achas difícil meter todas as sexualidades alternativas num único cartaz? Ao conseguir, não se correria o risco de passar a discriminar os assexuados?
    Acho que essas diferenças existentes dentro de cada “grupo sexual” terão mais a ver com a personalidade social de cada um do que a sua orientação, ou seja: há quem viva obcecado pela integração seguindo cegamente certos modelos pré-estruturados, (no pólo oposto) há quem viva pela provocação desses modelos e depois há ainda quem se esteja a marimbar para tudo isso. É por isso que acho difícil encontrar consenso por aqui, sobretudo enquanto houver pessoas a pensar que há formas únicas e delineadas de viver uma sexualidade (e claro, a sua não podia deixar de ser a mais correcta).

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