Revoltemo-nos, pois!

Patrões de todo o mundo, tenham medo, tenham muito medo.

Dos motins de 2001 na Argélia e na Argentina, ao incêndio dos subúrbios de Paris, à revolta generalizada na Grécia, uma história secreta tem percorrido estes anos: a guerra social regressou. Algo novo tem marcado esta primeira década do século: a revolta popular, tão inesperada como descontrolada, que afronta o Poder. Afinal a história não acabou. A guerra e as suas barricadas, até há poucos anos limitadas às periferias do império, vêm brotando nas grandes metrópoles do capitalismo supostamente rico, democrata e feliz.

Da nossa barricada – a dos explorados e despojados – surgem de novo belas perguntas: Como ocupar a rua de forma persistente e o que fazer dela? Como auto-organizar as nossas vidas? Como bloquear a economia para começar a viver? Do outro lado estão polícias, governos, patrões e exércitos. E todos dependem dos trabalhadores para manter a máquina a funcionar.

Pressentimos tudo isto quando vemos a Acrópole, como aconteceu a 5 de Maio na greve geral grega, envolta por uma declaração simples e sensata: PEOPLES OF EUROPE, RISE UP.

O internacionalismo está de volta e recomenda-se. É preciso sair do isolamento e demolir todas as fronteiras, estabelecer afinidades, reinventar a luta. A Grécia é mesmo aqui ao lado. A Grécia está em todo o lado.

Aqui, nesta zona do território europeu subjugada pela crise, as lutas têm sido reféns da obsessão legalista da esquerda parlamentar e dos sindicatos, de uma solidariedade vaga e que raramente se manifesta. No presente estado de coisas, toda a inteligência será pouca. Inteligência para comunicar e organizar, bloquear e sabotar, ferir o poder dos poderosos.

PORQUE A ÚNICA RESPOSTA À CRISE É O COMBATE

PORQUE ESSE COMBATE NÃO SE TRAVA COM AS MEDIDAS PONTUAIS EXIGIDAS PELOS SINDICATOS E PELA ESQUERDA REFORMISTA

PORQUE TEM DE SE ELEVAR O TOM DA LUTA

PORQUE ESTAMOS FARTOS DE MENDIGAR POR MAIS TRABALHO

PORQUE EXIGIMOS A RUA COMO NOSSA

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65 Responses to Revoltemo-nos, pois!

  1. Carlos Guedes diz:

    Pedro Penilo,

    De tudo o que escrevi apenas retiveste esse aspecto. É pena. Conheces-me há anos suficientes (mesmo que de forma superficial) para saber que nada (mesmo nada) me move contra a CGTP. Respeito-a muito enquanto organização. O mesmo não poderei dizer em relação a algumas pessoas. Mas como ainda sou da opinião de que as organizações não devem ser julgadas pelo facto de nelas estarem algumas pessoas com comportamentos menos próprios…
    Até sábado!

  2. Justiniano diz:

    Caríssimo Xatoo,
    Continua, com está bem de ver, a haver bom método nessa loucura!! Mas, como bem refere, meu caro, há sempre, de permeio, necessariamente, um almoço…inadiável! Ou então, a fome e a sede!
    Um bem haja,

  3. Ricardo Noronha diz:

    Parece-me, João, que deves ajustar contas com quem de direito e deixar a concentração anticapitalista de fora. Ninguém quer representar ninguém. Emancipa-te com os teus 1000 euros ao mês e sê feliz. Não é preciso ser uma vanguarda para desejar mais do que isso. Aliás, se não vais a manifestações, o que é que te interessa em tudo?

  4. joão vilaça diz:

    Ricardo, não tenho nenhum ajuste de contas a fazer com ninguém e acho que essa é a pior maneira de discutir este assunto. Voltas a problematizar a questão da representatividade da manifestação e por isso devolvo-te pergunta: se o teu objectivo (vosso, não sei quem está por detrás da organização) não é “representar” ninguém (e eu entendo que a agregação de pessoas movidas e mobilizadas por uma partilha dos pressupostos que estão contidos no vosso apelo uma “representação” de uma expressão simbólica de revolta ou insatisfação com um alcance político muito claro) o que pretendes exactamente com esta manifestação?
    No final deixas-me uma questão à qual gostaria de responder: o que me interessa nisto é a “política” e a possibilidade de articulação de um pensamento crítico acerca do presente e que seja assertivo na identificação do que é uma nova matriz cognitiva da hipermodernidade (e económica, social, cultural, tudo o que quiseres) – a era do auto-enclausuramento ahistórico. Esse deve ser o trabalho e a função da vanguarda e julgo que vocês não estão a fazer, que confundem demasiadas vezes os sintomas com a doença, que se equivocam até no plano do discurso (como a questão do zizek: ele pode fazer as piadas todas que quiser porque está a escrever livros; o vosso apela parece indeciso: é uma piada ou uma acção política “séria”?). Da CGTP espero exactamente aquilo que ela é, da sua manifestação idem. De pessoas tão envolvidas com o “pensamento crítico” esperava mais do que esta trama confusa de palavras de ordem em representação de um despertar e de um gesto emancipatório(violento, militante, activo, constantemente disperasado em manifestações e acções directas de propaganda) contra o “capitalismo”, na espera eterna de “uma insurreção que vem”, de uma revolução que irá irromper nas “ruas”, seja lá o que isso for, negando desde logo o facto de a realidade capitalista ser hoje especificamente especulativa e “virtual” e que isso implica desde logo outros regimes de acção política. Esse é o meu debate e não outro.
    cumprimentos.

  5. Pedro Penilo diz:

    Carlos Guedes,

    Respondi ao que retive – e que me pareceu em linha com a maior parte do texto da convocatória. A palavra “respeito” (devido àqueles com quem partilhamos uma manifestação, com maiores o menores divergências) parece-me crucial. O teu esclarecimento agora, põe as coisas noutros termos, que me parecem mais justos. Até sábado.

    Ricardo Noronha

    Não me parece que tenhas lido com atenção aquilo vem entre aspas e que foi escrito pelo Carlos Guedes no contexto deste tema. Ou leste bem e subscreves – e nesse caso a minha resposta será sempre “Vão chamar carneiros a outro!”; ou não leste, e nesse caso deves fazê-lo e ponderar no tom geral de desprezo pelos sindicatos e pelo activismo sindical que perpassa o texto da convocatória anti-capitalista.

    (Claro que ninguém é obrigado a “respeito”, tal como a ninguém é proibido o desprezo)

  6. Ricardo Noronha diz:

    Pois. Mas olha que o pensamento crítico não é aquela expressão sofisticada que se emprega a despropósito sempre que se quer dizer uma qualquer banalidade acerca da «matriz cognitiva da hipermodernidade» ou do «auto-enclausuramento ahistórico». Acho que és o único que está à espera de qualquer coisa e que coloca as coisas em termos de «as tarefas da vanguarda». E se esse é o teu debate, espero que encontres interlocutores à altura. O Carlos Vidal está mesmo aqui à mão.

  7. Ricardo Noronha diz:

    Pedro, acho que existe uma clara diferença entre respeito e reverência. Ponderei e reponderei e acho que esse «desprezo» te pode dar jeito para desconversar, mas pouco mais. Dizer que as medidas são parciais e insuficientes, ou que existe uma obsessão legalista, é uma crítica do domínio político. Era o que mais faltava que isso não pudesse ser dito.
    De resto, deixa-me que te diga que quase toda a gente que conheço que vai a manifestações sindicais e não trabalha para um sindicato acha deprimente que exista uma folha com as palavras de ordem previamente definidas e um carro de som apostado em pôr toda a gente a repeti-las. Começo a achar que és tu que desprezas os trabalhadores se achas que isso é fundamental e incontornável. Ainda lhes dava para gritarem o que lhes vai na cabeça…

  8. joão vilaça diz:

    Ricardo, aparentemente tu não serás interlocutor de coisa nenhuma (e não é por não estares à altura) – não sei se o Carlos Vidal o é ou não nem me interessa porque não com ele que estou a conversar (mas pelos visto a neurose obsessiva que ele alimenta contra certas pessos encontra o seu eco no sentido inverso – a sugestão é pura e simplesmente despropositada). É também interessante que toda a termminologia exterior ao teu discurso seja desqualificada enquanto banalidade (e até poderá ser mas não mais nem menos do que expressões como anticapitalismo, imperialismo, internacionalismo ou luta de classes, isto só para me restringir aos termos do teu apelo) – depende da forma como nos relacionamos com os conceitos e da relação estabelecemos entre a realidade e a linguagem. Até poderia também discutir essa coisa problemática da tarefa da vanguarda mas não me parece mesmo nada que estejas interessado – boa manif, de qualquer forma.
    Ah, e estás de novo equivocado: eu não estou à espera de rigorosamente nada, aliás a única coisa que me interessa agora é precisamente “nao fazer nada” e tentar perceber qualquer coisa acerca da paisagem social, política, cultural,etc actual, como aliás o zizek, o baudrillard e tantos outros que fazem parte do cosmos do “pensamento crítitico”, gaveta que tu qualificas ironicamente de “sofisticada” mas que dá justamente o título às sessões e conferencias da unipop onde me parece que deste, pelo menos, uma palestra sobre Debord. Estamos numa conversa entre gentes “sofisticada” portanto, pelo menos isso.

  9. Carlos Vidal diz:

    O tipo do vias qq coisa é meio tarado.

    Citou-me mais de 10 ou 20 vezes sem eu minimamente com ele ter dialogado ou tal ter pretendido.

    Que vá chatear a Laura Bush!

  10. Aniceto Azevedo diz:

    Contra a manifestação da CGTP, demasiado presa aos «donos da luta», houve mesmo um dos “autonomistas” de Miami que avançou com uma ideia deveras “radical”: a contra-manifestação devia ter como objectivo de fundo «dar lições de democracia» (sic!).
    Carlos, é deixá-los falar pela sua própria voz. Ninguém melhor que eles próprios para os desmascarar.
    Para além de deixarem a nú o que todos sabiam. Enchem a boca com a palavrinha democracia, e ei-los a actuar através de comités invisíveis (onde está a participação das massas? como fiscalizam elas as decisões destes senhores? qual a ligação ao movimento real, ao seu grau de consciência, às suas expectativas presentes, etc?). Gabam-se da “autonomia”, e andam sempre a reboque – ou da luta dos trabalhadores, ou das migalhas da burguesia.
    Vão chatear a Laura Bush, com efeito.

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  12. Ricardo Noronha diz:

    João, limito-me a dizer que o «pensamento crítico» não é uma desculpa para não ir a manifestações nem uma flor na lapela para conversas de salão. Pelo menos não é isso que me interessa. Quanto ao resto, no teu texto só vejo lugares-comuns e no teu sub-texto só detecto uma vontade de distinção intelectual a partir de determinadas leituras que gozam do epípeto de «radical».

  13. joão vilaça diz:

    Ricardo, suponho que todas as leituras que não sejam caucionadas pelo directório revolucionário sejam “lugares-comuns” (por momentos pensei que ia dar de caras com esse momento glorioso da argumentação que é a acusação de pseudo-intelectual mas tu conseguiste conter-te) – o que evidentemente nos deixa sem grande coisa para dizer um ao outro. O que achas sobre o meu texto (? texto? eu não escrevi nenhum texto, foi só um comentário num blog) é-me igual ao litro; mas as expressões que qualificas como banalidades não são minhas mas tiradas do palácio de cristal, do Sloterdijk, um tipo que não é mesmo nada radical, que pensa e sabe um bocadinho mais do que eu (do que nós) e aí já me parece que as coisas sejam um bocado mais complicadas. Claro que tu podes dizer que não é por serem do Slotedijk que deixam de ser banalidades mas aí eu começo a pensar mais a sério na suspeita de que tudo o que não seja sacado da sociedade do espectáculo (que suponho não ser uma daquelas leituras que gozam do epíteto de “radical”) ou outras coisas do género seja uma imensidão de lugares comuns e flores na lapela, jogo florais.
    E já agora, não e que esteja muito habituado a estas trocas de comentários, mas era preferível que fizesses menos especulação psicológica acerca do teu interlocutor e mais debate – nem eu te conheço nem tu me conheces e acho que devemos manter as coisas assim, sem derivas psicanalíticas.
    fica bem.

  14. Pingback: cinco dias » Mas afinal é a CGTP ou a poesia que vai descer à rua?

  15. António Carvalho diz:

    HOJE, DIA 29 DE MAIO VAMOS TODOS À GRANDE MANIFESTAÇÃO DA CGTP-IN, DO MARQUÊS DE POMBAL – RESTAURADORES, ENCHENDO A AVENIDA DA LIBERDADE DE CENTENAS DE MILHARES DE PESSOAS COM O FIM DE DIZER “BASTA” A ESTE (DES)GOVERNO DO PS/SÓCRATES DE BRAÇO DADO COM O PSD/PASSOS COELHO – AO ROUBO DOS SALÁRIOS, PARA PAGAR A CRISE QUE ELES PRÓPRIOS CRIARAM – COM BENESSES AO GRANDE CAPITAL FINANCEIRO – COMO EXEMPLOS – BPN, BPP E OUTROS. O POVO TEM O DIREITO À INDIGNAÇÃO!!!

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