“Quantos mais planos de austeridade a Europa fizer, mais ataques especulativos vai sofrer”

É imprescindível ler esta entrevista de João Ferreira do Amaral ao Jornal de Negócios, os destaques seguintes são da autoria do Ricardo Paes Mamede, do Ladrões de Bicicletas:

«Hoje é relativamente consensual que a entrada na zona euro foi a principal razão da perda de competitividade.»

«(…) a baixa da taxa de juro não é necessariamente uma benesse. Tudo depende do que vamos fazer ao crédito. E, com uma taxa de câmbio desajustada, como nós tínhamos, foram criados incentivos para a aposta no sector não transaccionável, o que criou a dívida insustentável que temos agora.»

«Mesmo que [uma queda de 20 a 30% dos salários] fosse socialmente exequível, a medida acabaria por ser ineficaz. Repare que o conteúdo de salários das exportações é de 30%. Se, por absurdo, se cortasse 30% nos salários, a nossa competitividade apenas aumentava 9%. Bastava uma oscilação do dólar para essa vantagens desaparecer.

«É melhor pensar em coisas exequíveis, como negociar com a Europa uma forma de alterar as instituições (…). Não tenhamos ilusões: se não conseguirmos uma alteração do enquadramento da Zona Euro, não estaremos muito mais tempo dentro dela.»

«A Europa não percebe que quantos mais planos de austeridade fizer mais ataques especulativos ela vai sofrer.»

«(…) sou completamente contra a ideia de um orçamento equilibrado. Não há nenhuma justificação política ou económica para que um país não tenha qualquer défice, e por isso também estranho que alguns partidos, mesmo de Esquerda, admitam a hipótese de inscrever na Constituição um limite para o endividamento.»

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

8 Responses to “Quantos mais planos de austeridade a Europa fizer, mais ataques especulativos vai sofrer”

  1. Para o que me havia de dar, concordar com esse senhor.
    Ver se arranjo um tempo para postar aqui algumas ideias sobre aquilo que há de conceptualmente absurdo nesta história da crise/contracrise e os seus efeitos perversos.

  2. xatoo diz:

    no principio “a crise” foi a tanga do Durão Barroso (2001/2). Eles sabiam ao que vinham, quando decretaram o desinvestimento interno para o deslocalizarem para o financiamento da Nato. (o Acordo das Lajes). Foi por serem confrontados com esta politica que os governos da França e da Alemanha de então se recusaram a participar no golpe anti-Europeu… mas desde aí, Chirac e Schroeder foram sendo paulatinamente substituidos por outras marionetas de cordéis mais maleáveis…
    Até o petit Portugal, com a promessa de se transmutar numa nova califórnia (não falida) teve direito em 2006 ao Gepeto que fabricou o nosso Pinóquio socialista

  3. Ana Paula Fitas diz:

    Vou fazer link daqui a instantes, Nuno.
    Abraço.

  4. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Olá Ana Paula,
    Tira o link do Ricardo Paes Mamede que a selecção é dele. Eu só li o artigo depois de ter lido o post dos Ladrões.

  5. Ana Paula Fitas diz:

    Olá Nuno 🙂
    Não tirei o link mas corrigi o texto… importas-te de ver se concordas? Se, mesmo assim, preferires que eu retire o link, assim farei, claro 🙂
    De qualquer forma, obrigado pela chamada de atenção.
    Abraço.

  6. maria povo diz:

    Só não vê o alcance desta austeridade quem quiser ser cego, à maneira do “Ensaio sobre a Cegueira”!

    O que está em causa são retrocessos sociais, laborais e politicos!!

    Estamos a caminho de uma escravatura “moderna”!! e o que mais desejo é que quando chegar a minha (nossa) vez, não seja tarde….

    O Capitalismo não desiste! NÓS TAMBÉM NÃO!!!

  7. Justiniano diz:

    Nuno!
    Exactamente pelo “«Mesmo que [uma queda de 20 a 30% dos salários] fosse socialmente exequível, a medida acabaria por ser ineficaz. Repare que o conteúdo de salários das exportações é de 30%. Se, por absurdo, se cortasse 30% nos salários, a nossa competitividade apenas aumentava 9%. Bastava uma oscilação do dólar para essa vantagens desaparecer.” é que se segue a diminuição do poder de compra. Já não para oferecer alguma competitividade às exportações portuguesas mas, sobretudo, para, através de um maior constrangimento ao consumo, diminuir o desequilíbrio externo através da diminuição de importações ou mesmo através da substituição de importações.
    E isto porque “«Hoje é relativamente consensual que a entrada na zona euro foi a principal razão da perda de competitividade.»” é absolutamente falso uma vez que a falta de competividade das exportações portuguesas determinaria uma diminuição do valor absoluto das exportações o que não ocorreu. O que ocorreu foi que a entrada no Euro determinou um desequilíbrio por via da procura interna e do aumento das importações.
    Um bem haja,

  8. pvnam diz:

    O crescimento não pode ser infinito uma vez que depende de recursos finitos… no entanto, o economista mafioso defenderá sempre o crescimento perpétuo… e defenderá sempre o endividamento em função do crescimento do PIB expectável… porque o verdadeiro objectivo é levar as nações à ruína… quando o PIB não crescer de acordo com aquilo que era esperado!!! [nota: nessa altura já os maiores activos do país terão sido conduzidos para os mega-capitalistas mundiais – e os Estados com elefantes brancos, não rentáveis, nas mãos]

    Mais:
    1- O proteccionismo permitia a sobrevivência de muitos países…
    2- Uma ‘Golden Share’ do Estado… permite ao Estado ter uma atitude interventiva… e não ser uma mera figura decorativa….
    —> Os (mafiosos) zelosos anti-proteccionismo e anti-‘Golden Share’ andam agora por aí vangloriar-se da existência de países falidos e inviáveis… porque o seu verdadeiro objectivo sempre foi levar determinadas identidades ao desaparecimento!

Os comentários estão fechados.