Conversa de camaradas

O encontro, furtuito por sinal, desenrolou-se numa esplanada soleada a meia tarde entre dois cafés e as vontades e impossibilidades de uns e outros. Depois de uma frustada distribuição, eu e T, trocávamos algumas impressões, já nao só sobre a luta, o partido, e a assembleia de Braga de umas semanas atrás, mas sobre míudos, gatos, afazeres domésticos e dificuldades quotidianas de cada um. Sem nos aperbermos, O, um outro camarada, detém-se para nos cumprimentar e trocar algumas palavras de circunstância. Convidamos O a sentar-se ao que ele acede visto ser o seu dia de folga. As míudas estavam no infantário e ainda sobrava tempo até ter de começar a fazer o jantar.
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“Então e a luta?” pergunta O. “Olha, já sabes de dia 29?” contesta T. “Não, não tou a par. Que se passa?”. “Olha, pá. No dia 29 tá-se aí a preparar uma grande luta, uma grande manifestaçao nacional por causa das merdas que estes gajos andam a fazer. Por causa do PEC e destas cenas que andam aí a falar outra vez, pá. De subirem os impostos, de cortarem nos subsidios de desemprego. Ã’ pá, já sabes. Ainda por cima, se um gajo nao se mexe, daqui a uns tempos estas coisas vão parecer farinha, pá. Os gajos começam pelo dedo mindinho e, sem que um gajo se aperceba, já nos estão a cagar na cabeça.”
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O fica pensativo, a medo -(não a medo, que O não é de ter medo, filho de pescadores, começou a trabalhar aos 8 anos em casa “se queria comer um iogurte”, como nos diria mais tarde e aos 12 já andava aí nas redes e na pesca. O tem a minha idade. 33 anos, não é um personagem neo-realista de Soeiro Pereira Gomes, não vive nos 1930-40 escalabitanos, nem nasceu no fascismo) mas, continuando, não a medo, mas em jeito de justificativo pessoal, responde-nos “Sabes que sempre tive aí para a luta?”, “Sei, pá, eu sei”, “Ã’ pá, mas no Sábado tou de turno.”, “Sabes que o sindicato fez o pré-aviso de greve”. “Ã’ pá, eu não tenho medo de faltar, pá. Já sabes que não tenho medo da luta.”, “Eu sei, eu sei.”, “Pá, mas no Sábado são horas extras, sao 50 euros que eu recebo pelo dia. Pá, e isso nao é o pior. O pior é que se eu falto, perco o prémio da produtividade. Sao 100 euros, pá. Ã’ T, tu sabes que eu tou sempre aí para a luta, sempre que posso vou, já me fodi muitas vezes. Já me passaram trabalhos de merda, pá, mas…” detém-se uns segundos e continua “mas eu tenho que pagar as minhas coisas, pá. Gosto de andar de cara levantada na rua e que ninguém me diga nada. Podes dizer que eu sou um burro, porque só tenho o 6º ano, pá. Mas eu ganho 500 euros por mês e quase nunca chega. As míudas (as quatro) precisam de muita coisa e eu tenho é de pensar nelas”, “Eu compreendo, eu compreendo. Só te tava a dar a informação, sabes que estamos numa altura importante”, “Eu sei, pá, mas sao quase 200 euros que eu perco, pá, com a viagem e mais qualquer coisa que um gajo gaste, se fosse por mim, tava-me a cagar, menos umas merdas, um gajo aperta-se e faz o esforço, mas com as míudas, este caralho tem de ser homem, tás a perceber?”
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A conversa decorreu ainda durante mais umas horas, falámos da pesca e da noite (O tinha sido porteiro de discoteca e era pescador para arranjar uns trocos extra), do Agostinho, da legalização do casamento homossexual, do Cavaco e da barra que nunca mais é feita. Do confronto com o presidente da Câmara e da privatização dos serviços publicos. O estava aí para a luta, mas O tinha a consciência de que, naquele momento, não podia suportar os custos da luta, O sabia que a luta era sacrificio – mais do que muitos sabem – e que o sacrificio da luta não podia ser pago pelas suas filhas.
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No dia 29, seremos muitos, muito mil, muitos que por boa-ventura da vida, por proximidade geográfica, por sacrificio aceite, por superação de impossibilidades ou mesmo por ajuda de familiares e amigos estaremos em Lisboa a lutar contra o atropelo dos nossos direitos conquistados durante séculos. Mas não estaremos a lutar apenas por nós, lutaremos por todas aquelas letras do abecedário que estão dispostas a lutar, que estão descontentes com a situação, que sofrem no corpo a mais dura ofensiva, de tal modo, que a própria luta pode significar um sacrificio insuportável para os seus.
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No dia 29, seremos muitos, muitos mil ali e muitos, muitos mas mesmo muitos mais mil que, não estando presentes, estarão solidários, estarão tristes e enraivecidos por nao estarem, homens e mulheres, “caralhos que têm de ser Homens, tás a perceber?”
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