Naughty, naughty, no Império das noivas


Acabada a novela do casamento das pessoas do mesmo sexo, espero que o movimento LGBT consiga sair da sua deriva “império das noivas” e regressar às questões mais amplas da luta contra a discriminação. Não está em causa o direito de constituir família de todas as pessoas e até de casarem, apenas me irrita que a bandeira dum movimento seja o macaquear de uma moral e de um quadro familiar clonado do pensamento e dos horizontes mais pequeno-burgueses que se conhecem. A malta dos anos sessenta que lutou por relações livres, sem as “devidas” autorizações do Estado, deve estar a dar mortais e a ter espasmos, onde quer que esteja.
Custa-me que essa conquista do casamento tenha sido feita em troca da reafirmação infame que os homossexuais são pessoas de segunda, pouco “normais”, e como tal não podem legalmente adoptar crianças. Tenho a impressão que o mainstream do movimento LGBT só pensou em casamentos nos últimos tempos, e abdicou de dar o seu contributo na luta pela defesa das condições sociais de todas e de todos os portugueses, nomeadamente dos homossexuais. Esse movimento cantará alegremente o amor e uma cabana, todos poderão estar casados, mas nenhum terá emprego…
Durante o último ano, os LGBT terão conseguido uma vitória simbólica que permitirá, segundo o deputado Miguel Vale de Almeida ser muito “mauzinho, naughty, naughty” e eventualmente apresentar o seu cônjuge ao economista Cavaco Silva. Não quero menorizar o feito, acho até que pode ser um passo no combate ideológico contra a discriminação, mas sinceramente penso que há questões muito mais importantes para combater a discriminação dos homossexuais e lutar contra a situação insustentável que vivem todos os portugueses.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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24 respostas a Naughty, naughty, no Império das noivas

  1. Paz diz:

    Boa, Nuno! Boa! BOA, BOA, caraças!!!!

  2. Carlos Vidal diz:

    O hipócrita-mor Vale de Almeida está-se nas tintas para estas verdades óbvias.
    A personagem apenas quer acordar como líder de qualquer coisa.
    Aplaudido. Medíocre até ao tutano.

  3. Back Room diz:

    Uma coisa pode acabar por arrastar a outra. E podem-se fazer várias ao mesmo tempo.

  4. que sonho tão pobrezinho!

  5. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Back Room,
    Não estou contra o direito ao casamento. Acho que do ponto de vista simbólico ultrapassou-se uma barreira. Mas, sinceramente, apesar da Ana Matos Pires achar que tudo o que escrevo é demagogia (provavelmente teria que mandar o texto previamente à aprovação dela), penso que é grave a contrapartida dada na adopção e, sobretudo, que ao contrário, do que diz, não se fez tudo ao mesmo tempo. Pelo contrário, o movimento LGBT ficou-se nisso.

  6. João José Fernandes Simões diz:

    tem toda a razão. e os jugulosos nunca pegaram na hipocrisa da lei, ao permitir ’tá bem casem-se mas nada de adoptar’.

    ora, aquela posição do legislador é estupidamente discriminatória e nada tem que ver com quem se ‘pretende’ ou não casar. como argumenta, mal, aliás, mais uma vez mal, neste como noutros assuntos, uma jugolosa ao vir dizer que ‘nunca se casou nem se pretende casar’.
    e depois, então, e isso quer dizer o quê!
    o facto é que a lei discrimina os homossexuais que se ‘pretendam’ casar. e isto não faz nenhum sentido.

  7. antonio diz:

    Tenho pena, mas essa gente vale pouco. e a chatice disto é que eu os conheço pessoalmente…

    Em compensação o meu “antigo” prof. de Investigação Operacional continua a ser uma pessoa com classe, não está tudo perdido…

    Estou a falar do prof. Luís V. T:.

    🙂

  8. c diz:

    concordo.
    se são diferentes e especiais tinham o dever de nos ensinar novas formas de relacionamento e não macaquear fórmulas decadentes ( allo..terra..taxas de divorcialidade?). não me ensinaram nada , os lgbt , só me obrigam a suster cenas que pra mulher hetero autosuficiente são bué aborrecidas. e nem se pode dizer que eles gostem delas…divorciam-se ainda mais que nós. é só ir espreitar aos ines dos países onde essas relações são contratualizadas com o amém das leis. divorciam-se bué. bem mais que os “retrógados”.

    em síntese , essa malta não me ensinou nerón , ainda me prendeu mais. família , casamento e patati oatata , deus e sei lá mais o quê. não tarda deixam-se de saunas e dizem que temos de ir virgens pró casamento. essa malta é perigosa : quem nunca teve um porquinho , quando tem um , passa a vida quinho , quinho…

  9. Tiago Mota Saraiva diz:

    Olha Nuno, sobre este teu texto e outros posts e comentários confinantes, apetece-me declarar que hoje não vou à praia. E tenho dúvidas se poderei ir nas férias.
    Mas deve ser demagogia.

  10. O problema do discurso LGBT e de boa parte dos ismos é o mesmo da Benfica TV: bebem futebol, comem futebol, respiram futebol. Eu também sou simpatizante do Glorioso, mas de vez em quando talvez lhes fizesse bem mudar de canal.

  11. António Figueira diz:

    Senhora Morgada,
    Pare sff de escrever os meus comentários, e de enfiar lá o Benfica para ver se disfarça.

  12. /me diz:

    Quando andava na escola, pouco se falava em “gays”. Havia as piadolas, o chamar paneleiro a este ou aquele, mas a brincar a brincar passava-se a imagem de gay=coisa má. Nunca se falava seriamente. Pelo contrário, o assunto era tabu. Os jovens que então se descobrissem atraídos por pessoas do mesmo sexo não tinham qualquer referência positiva.

    Felizmente, houve quem desse a cara. E não foi coisa pouca, a capacidade de publicamente defender os homossexuais e de obrigar as pessoas a sairem da sua postura de varrer a discussão da homossexualidade para baixo do tapete, como coisa desagradável a ser evitada a todos os custos. Quem deu a cara, seguramente pagou um preço por isso. E eu, estou grato.

    Como em todos os movimentos, há e sempre houve várias correntes. No movimento LGBT, definiu-se (não só em Portugal!) o casamento como uma prioridade. Por motivos óbvios, parece-me: por ser a luta contra uma discriminação legal. Muitas mais discriminações resistem, mas que estejam respaldadas na legalidade é algo que custa muito mais a aceitar. Pessoas como o Miguel Vale de Almeida fizeram por alcançar o objectivo do casamento para todos. Pouca coisa, talvez, para algumas pessoas da “malta dos anos 60”? O movimento LGBT não é refém de ideologias temporais, soma pessoas de “different walks of life” (como era moda dizer até há pouco tempo). Entre essas, alguns acharam o casamento uma conquista marcante, em troca do qual se poderia (para já) sacrificar algumas coisas. É assim, na política, fazem-se compromissos. “A malta dos anos 60” talvez não os fizesse, mas se calhar se contasse apenas com eles não me poderia hoje casar, se quisesse.

    A quem devo estar grato? Aos que querem lutar “pela defesa das condições sociais de todas e de todos os portugueses, nomeadamente dos homossexuais”, ou a quem conseguiu que eu me pudesse casar? Provavelmente aos dois, mas quem conseguiu algum resultado foram os segundos. E há, na vida portuguesa e na luta LGBT, um pré e um pós casamento. Não é justo julgar o Miguel Vale de Almeida (e o mainstream LGBT) sem ver o que ele fará no pós casamento, na luta por mais justiça. Mas se for para o julgar já, então teve uma excelente contribuição, derrubando uma discriminação legal. Manteve-se outra, é certo, que já lá estava. Culpamos por isso a orientação do mainstream LGBT?

    Um bocado de humildade era bom. Um espírito de trincheiras, divisionista e crítico sem oferecer uma alternativa credível não ajuda nada. O mainstream LGBT definiu um objectivo e conseguiu-o. Por esse motivo deve ser parabenizado. É verdade que o mainstream LGBT deve definir outro objectivo e lutar por ele. Tal não vai ser conseguido com posts destes, de crítica sem apontar caminhos.

    Seja como for, o casamento é importante. É muito importante. Talvez não seja para um soixante-huitard, mas é-o para muitas pessoas. E se é para muitas pessoas, é-o para a sociedade. Há que ter empatia para perceber isso.

  13. Nuno Ramos de Almeida diz:

    me,
    Acho o seu comentário bem argumentado e pensado. Não concordo, totalmente consigo, embora acho que diz coisas certas, algumas das coisas em discordância com o meu post.
    O meu post pretende discutir duas coisas e dar uma nota:
    1. Conquistado o casamento, talvez o movimento LGBT possa sair dessa obsessão redutora e actuar sobre as várias áreas da discriminação.
    2. A formação de uma maioria para a conquista do casamento não pode levar, em meu entender, os activistas LGBT a uma cumplicidade com as políticas anti-sociais deste governo.
    Nota: Não me interessa o número de pessoas que se querem casar. Fossem apenas duas e eu defenderia sempre a alteração da lei , para permitir que se casassem. Não concordo é com a confusão entre luta contra a discriminação e a moral casamenteira.
    Vejo as coisas de fora, não sou gay, como não sou palestiniano, negro ou mulher. Isso não me impede de ter opinião sobre essas lutas e até participar nelas. Trabalhei no Fórum Social Português, assisti ao desenvolvimento da colaboração do movimento LGBT com outros movimentos sociais. Acho que, nos últimos anos, houve por parte de algumar associações o afunilar de todas as questões no casamento. Essa discriminação legal é importante, mas não permite, no meu entender, que se esqueçam outras discriminações e lutas. Como o caso da adopção e da participação dos gays em lutas mais gerais.
    Tudo o que eu digo pode estar errado, mas o que é divertido e sintomático é que perante uma opinião discordante, determinadas pessoas não discutam os conteúdos, mas limitem-se a rotular. A Ana Matos Pires chama a este post “demagogia” – para a Ana Matos Pires tudo o que não seja apoiar o nosso primeiro-ministro é um permanente exercício de demagogia – o deputado do PS Vale de Almeida apelida-a de “diatribe” e comunica-nos que vai para a praia, provavelmente para estar bronzeado na recepção dos nubentes na presidência. O que nos leva a um outro problema, o movimento será tanto mais forte quanto menos padrinhos, madrinhas, chefes e chefas tiver. Permitindo assim, a discussão com toda a gente.

  14. /me diz:

    Caro Nuno,

    obrigado pela resposta. Eu não acho que o que dizes está errado. Temos as mesmas pretensões: uma sociedade justa onde as pessoas possam ser felizes. Frustra-te não termos chegado mais longe, a mim também. Não concordo que vejas as coisas de fora, no bom sentido: quem fala como tu vê as coisas por dentro, porque luta pelo mesmo.

    Discordamos talvez na apreciação da estratégia de valorizar o casamento enquanto luta e conquista. Mas foi uma estratégia que na minha opinião deu muitos frutos. É preciso mais, agora, é certo. Custa ver o Miguel Vale de Almeida no lado de um governo com políticas anti-sociais, é verdade. Mas como sinto que tenho uma enorme dívida de gratidão para com ele (e para com muitas outras pessoas) custa-me que se o critique na questão do casamento. Noutras, à vontade. Na questão do casamento, acho que o que ele conseguiu foi muito importante. Até poderia ter conseguido mais (pode-se sempre), mas ele foi das pessoas que fez algo e conseguiu ter resultados.

    Estamos numa luta que tem muito de simbólico. O casamento foi um símbolo conquistado. Perdeu-se a adopção, é verdade. Será a próxima luta?

    Quanto aos dois pontos que escreveste, concordo com o primeiro (tirando a adjectivação de “redutora”). Quanto ao segundo ponto, eu separo as coisas. Um activista LGBT pode ser do CDS ou do BE. Compreendo a tua incomodidade mas acho que o Miguel Vale de Almeida tem o direito de defender as políticas sociais que bem entender, independentemente de ser activista LGBT. Por mais incomodidade que isso possa causar (e causa, sim).

    Abraço

  15. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro me,
    Mais uma vês, estou bastante de acordo com o teu comentário, mas com um ponto de discordância. Vamos primeiro ao acordo, não acho que os direitos dos homossexuais sejam uma causa de esquerda. São uma questão de liberdade e de autodeterminação das pessoas, mas não são uma causa ideológica. Abusando da tua paciência, já escrevi sobre isso aqui : http://5dias.net/2009/07/23/o-sexo-tem-muitas-posicoes-a-esquerda-nao-remix/

    A minha grande discordância é adopção de uma bandeira que é a clonagem de um tipo de moral. Vou tentar clarificar. Acho que a religião não deve discriminar os homossexuais, mas não me apanharias a fazer do centro da luta dos movimentos LGBT o direito dos homossexuais casarem pela Igreja. Eu compreendo e combato a discriminação, mas não faço do centro de uma luta a afirmação de um tipo de moralidade. Acho que a vitória na questão do casamento pode ter como dado positivo o contágio em outras questões e um passo na aceitação dos homossexuais por muitos sectores da sociedade, mas o afunilar desta luta e certas intervenções do Miguel Vale de Almeida parecem-me negativas pq são uma clonagem de uma certa moralidade de burguesinhos felizes e casados e a passagem de um estereótipo do que são os gay. Parece até uma pregação do gay que se preze é casado e compra os electrodomésticos a prestações.

  16. tata diz:

    Para que conste, sou mulher, de esquerda e heterossexual. Agrada-me ter a escolha, enquanto mulher, de não ser obrigada a macaquear uma qualquer moral pequeno-burguesa. Agrada-me saber que, nossos dias, graças ao trabalho de tantos activistas LGBT, durante tantos anos, milhares de cidadãos e cidadãs terão o mesmo poder de escolha que eu, de macaquearem ou não, como entenderem. Isso devia ser um motivo de comemoração, para qualquer pessoa que deseje viver num país mais justo e igual. Visto de fora, do meu ponto de vista, não me parece que o activismo LGBT se tenha reduzido a esta questão do casamento nem que tenham sido esquecidas outras lutas. Como ainda não estão terminadas tantas lutas, LGBTs e não LGBTs. São batalhas a decorrer. Ter sido o acesso ao casamento a mais recente vitória não lhe devia retirar nenhum mérito, nenhum signicado. É uma batalha ganha, não é o fim da guerra. Do meu ponto de vista, para quem diz que compreende e combate a discriminação, parece-me que o discurso redutor é o seu

  17. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Tata,
    Eu não faço um discurso, emito uma opinião. Mas claro, como não coincide com a sua, deixo de ser contra a discriminação, para passar a ser alguém ‘que diz’ que é contra a discriminação. Parece-me um princípio ligeiramente discriminatório, não acha?

  18. o casamento é o cemitério dos afectos mas todos têm direito a enterrar-se em vida. basicamento é o que eu acho. espero não estar a driscriminar ninguém…

  19. antonio diz:

    ana cristina leonardo essa é o perfeito complemento para aquela boutade do Francesco Alberoni àcerca de o enamoramento ser a revolução de Outubro e o amor ser os sovietes

    😉

  20. Acho que não queres mm perceber e resolves devolver conversa de chacha, Nuno. Que “contrapartida dada na adopção” que nada, isso seria verdade se a adopção não continuasse a ser um objectivo. E essa de me teres que mandar o texto para aprovação prévia é, no mínimo, infantil (da outra do PM nem falo, é desconversa pura).

  21. Ana Matos Pires,
    Quando discordo com alguém, e quero discutir uma divergência, não costumo começar a chamar demagogia ou conversa de chacha aos argumentos dos outros. Digamos que neste caso a conversa de chacha é toda tua, e eu não estou interessado em continuá-la.

  22. Estilos diferentes, Nuno, que queres que te diga?

    (Tb não há gd coisa a discutir, parece-me)

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