Old Money

A casa fica-lhe grande, é a primeira imagem que tenho de D. a receber-nos à porta com o pai. O edifício não chega aos delírios dos palácios do Norte de Calcutá, mas o luxo anglo-indiano é digno de um babu afluente: quatro andares unidos por uma escadaria em mármore, vitrais ingleses, lustres venezianos, tapetes persas; por todo o lado, móveis ocidentais e antiguidades indianas casam a opulência e o shabby chic. “Old money”, avalia o nosso especialista instantâneo em assuntos indianos.
A mulher de D. recebe-nos no terraço, à frente de um exército de empregados vestidos de branco. Chama-se Pinky (e eu posso dizê-lo aqui por extenso sem cometer uma indiscrição, porque é um dos petit-noms mais frequentes em Bengal), e veste, em jeito de mnemónica, um sari rosa. Está calor. Eu presto homenagem ao maior legado civilizacional do Império Britânico (the good old gin & tonic), quando ouço um empresário austríaco dizer que decidiu mudar (deslocalizar, parece que se diz) parte das operações para Calcutá, porque “aqui as condições laborais são muito interessantes”, e quase me engasgo, porque se a dois euros por dia não pudermos dizer que as condições laborais são fodidas, qualquer dia estamos a defender que o capitalismo faz amor com os nativos. Mas divago: a mim o que me interessa é a casa, descobrir-lhe as varandas e os corredores, sonho já com uma sesta no gineceu, e mais que tudo investigar por que razão o meu detector de incongruências apita que nem doido. A casa não bate certo com os ademanes dos donos, demasiado hirtos nos seus papéis, mas talvez a hospitalidade oriental seja isto mesmo, um excesso de formas e maneiras. O problema distrai-me das conversas, tal como há pouco, no SUV, enquanto a Missa da Coroação convertia em videoclipe a miséria de Calcutá, os miseráveis me interessavam menos que a inconsistência entre a banda sonora e as imagens.
A descer as escadas pretexto urgência fisiológica, passo por uma, duas, três salas. Nas paredes, três gerações a posar para o retrato: primeiro o pai, depois o filho, agora a prole que estuda no estrangeiro; estranho, porém, o patriarca tem os mesmos cabelos brancos com que nos recebeu à entrada, as fotografias emolduradas podiam ter sido tiradas há instantes – Pinky com sucessivos saris bordados a sorrir o mesmo sorriso em todas. 
No rés-do-chão, descubro a I. a devorar o buffet com a nonchalance apurada por várias gerações. Como sempre, sabe tudo: o gajo tem plantações de chá em Darjeeling, é fotogrado em festas com velhas glórias do cinema bengali e jovens promessas de Bollywood, e é “absolutely filthy rich”. “E a casa? Herdou-a ou comprou-a a um nababo falido?”. Nem uma coisa nem outra: construiu-a de raiz há cinco anos, antes disso não havia aqui nada. Com os bons ofícios do clima de Calcutá, a fachada ganhou entretanto a patine de séculos e o mármore rachou-se nos sítios certos; vai ser preciso mais tempo para os habitantes se passearem pelos salões com o “entitlement” dos grandes senhores, mas também isso há-de chegar, e mais geração menos geração, a casa há-de ficar do tamanho dos donos (ou os donos do tamanho da casa, o que acontecer primeiro).

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