Glória

Pela janela passam velozes, como na MTV, abluções, bandeiras comunistas, riquexós, outdoors com um Tagore barbudo a promover o State Bank of India. “The Banker to this Indian“, clamam os cartazes, e se Portugal lhes seguir o exemplo teremos dentro em breve, em vez de Cristianos Ronaldos e Marizas, o Fernando Pessoa a garantir que “Banco é a Caixa”.
O trânsito em Calcutá é quase tão mau como em Delhi e acabamos por nos perder do carro da frente, que vai enganado, avisa o condutor, o hotel não é para aquele lado, que fazer? O burocrata manda-o ligar ao motorista do outro carro, e tem de gritar várias vezes a ordem para que o condutor lhe obedeça. “Call him – NOW, you hear? NOW!”. Não é preciso ver-lhe a boca para testar a teoria de Auden sobre as pessoas com autoridade, ver se os lábios se relaxam com a expressão de prazer “not only at getting their own sweet way but of satisfaction at being right, porque a voz diz tudo sobre a impotência das classes dominantes. Talvez por ir sentada ao lado do condutor, sinto afinidade com o gajo, que ainda por cima tem um perfil belíssimo, corado pela fúria; durante o resto da viagem aplico todos os sentidos em filtrar as piadas do burocrata que fazem A. rir muito alto – I. mantém um silêncio majestoso que eu interpreto como solidário com a classe operária, glória a Mozart nas alturas e paz no SUV aos homens humilhados.
Mas o homem não se cala. Eu não lhe vejo a cara mas não posso evitar ouvir-lhe a voz, e sinto-me no papel da pessoa que no teatro verifica a “justesse” das tiradas dos actores: claramente, o público dele não é o condutor, não é a A., e também não somos eu nem a I., que continua calada. O mundo pode ser um palco, mas por esta altura aguardamos todos com muita expectativa o cair do pano. À enésima vez que o burocrata pergunta “ainda falta muito?”, parados no meio do trânsito, o condutor anuncia que estamos a chegar, “o hotel é ao fundo desta rua”. É então que  o burocrata abre a porta e diz que vai o resto do caminho a pé (provavelmente cansado do auditório), sem perceber que ainda estamos a mais de um 1 km, mas o condutor esclarece-o. “Get in the car“. A ordem é seca, o perfil a incarnação da “Justitia et Fortitudo”. O burocrata hesita com uma perna fora do SUV: “No, I think I will walk“. “Get in the car – now“. O burocrata entra atabalhoadamente para o banco de trás, o SUV arranca, e eu gozo em silêncio os últimos metros da viagem.

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5 Responses to Glória

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  2. Justiniano diz:

    Caríssima Morgada,
    Imagino que se transportou pelo transito de Calcutá no Mahindra – Powered by Kirloskar-!? Estarei certo!?

    • Morgada de V. diz:

      Não lhe saberia dizer, sou daquelas pessoas para quem um carro pode ser de qualquer marca, desde que seja VW.
      Teria preferido um Ambassador, mas ninguém me perguntou nada.

  3. Justiniano diz:

    Compreendo!
    A questão poderia ser a de homenagem à independencia da engenharia Indiana!!
    Mera curiosidade, caríssima Morgada, não me leve a mal!!
    De qualquer modo um VW é sempre uma boa escolha!

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