A dialéctica laranja

«É claro que o Governo merece censura, tem feito por merecer censura todos os dias», mas «o país não se pode dar ao luxo de, neste momento tão difícil, juntar uma crise política» a uma «gravíssima crise económica e financeira», afirmou esta segunda-feira o líder parlamentar do PSD, Miguel Macedo.

O PSD sofre, por estes dias, de esquizofrenia profunda. Por um lado vai de mão dada com o Governo de Sócrates, impondo acordos e viabilizando as medidas de austeridade que, uma vez mais, vão penalizar as classes mais desfavorecidas. Por outro, o seu líder num dia senta-se com Sócrates para definir as políticas do Governo, no dia seguinte diz a um diário espanhol que o mesmo Sócrates com quem chegara a acordo no dia anterior «perdeu credibilidade e capacidade política».

A moção de censura do PCP é questionável. Não pelo seu conteúdo (o texto ainda não é conhecido), mas pela altura escolhida para ser apresentada. O PCP coloca-se, uma vez mais, na dianteira da luta, uns bons quilómetros à sua frente. Com a manifestação nacional da CGTP marcada para dia 29 seria, a meu ver, desejável que a moção de censura surgisse como corolário de um crescendo de luta. Mas tem, para já, o mérito inquestionável de encostar o PSD à parede.

E não há dúvida de que a crise que vivemos não pode servir de desculpa para manter no poder um Governo que, apenas seis meses depois de ser eleito, já meteu na gaveta todo o seu programa.

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17 Responses to A dialéctica laranja

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  2. Renato Teixeira diz:

    E porque não avançou o BE? Também alinhas na tese de que era isso mesmo que o Sócrates queria?

  3. Renato Teixeira diz:

    Quanto à iniciativa do PCP como é que ela no teu entender é “questionável” se logo depois dizes que os colocam na “dianteira da luta”?

  4. Leo diz:

    “A moção de censura do PCP é questionável. Não pelo seu conteúdo (o texto ainda não é conhecido), mas pela altura escolhida para ser apresentada.”

    Como diz no seu texto de apresentação o Carlos Guedes não sabe bem ao que vem. Mas gosta de escrever e acha que tem piada. Provavelmente está enganado.

  5. Carlos Guedes diz:

    Há alguma ironia quando digo que os coloca na dianteira da luta. Não podes deixar de ler o que digo em seguida, quando refiro que ficam uns quilómetros à sua frente. É a tendência histórica do PCP. O querer ser um partido de vanguarda, que marca o caminho a seguir, esquecendo, muitas vezes, que quem o segue pode não ir ao mesmo ritmo.
    Não sei porque não avançou o BE. Mas sei, também, que ao avançar, o PCP marca o seu espaço. O BE tem dado luta ao Governo, no plano institucional. Dir-se-á que é pouco para um partido de Esquerda. E é. Mas tem sido consequente e tem apresentado boas propostas no plano económico.
    Não sei se me fiz entender…

  6. Carlos Guedes diz:

    Leo, garanto que desta vez não estava a tentar ter piada. Mas registo a sua atenção aos meus dois primeiros posts. Pena ter ficado sem perceber o que pensa sobre a parte que cita.

  7. Orlando Gonçalves diz:

    Mostrem lá agora quem é que é de esquerda dentro do PS. Onde param os Alegristas. Não questiono o tempo, porque penso ser na devida altura, o 1º Ministro mentiu ao país a quando das eleições à seis meses. Sempre achei que quem mente deve levar com pimenta na lingua e ser posto de castigo.

  8. Renato Teixeira diz:

    Carlos Guedes, espaço marcam todos, cada um para o seu braseiro. Explicada a ironia insisto na dúvida: o que falta acontecer para que a moção de censura ou uma greve geral sejam inequivocamente justas?

  9. Leo diz:

    “Não sei porque não avançou o BE.”

    Se calhar porque comunga da ideia da salvação da Europa e do Euro? Votaram a favor da venda da corda para enforcar os gregos, não está esquecido, pois não?

  10. Concordo.
    A moção de censura deveria ser a consequência de uma série de acções de luta. Tem de ser produto do concreto, da amplitude do movimento social de contestação a estas políticas.
    Ao vir antes disso, é como começar a construir a casa pelo telhado. Por isso, este gesto político do PCP, porque fora de tempo, arrisca-se a ser pífio.

  11. Carlos Guedes diz:

    Renato, falta mobilizar o povo, pá!
    Leo, eu não sei ao que venho, mas de si já sei o que esperar. Está apresentado. Refiro apenas que não estou aqui em representação ou em defesa do BE. Escrevo em nome próprio e o que escrevo é da minha inteira responsabilidade. Não precisa de ficar tão amofinado. Se vir bem o que escrevi não é um ataque ao PCP.

  12. Justiniano diz:

    Ora, caro Leo, é evidente!
    Já há muito que se sabe da confluencia dessas gentes do BE com a sustentabilidade do insustentável. Abstrairam da produção de riqueza (temática quase irrelevante naquele universo bloquista) e dedicaram-se, em exclusivo, à distribuição de riqueza (Encantadores, e de apurada nobreza)!!

  13. Renato Teixeira diz:

    O Povo!?!? Esse tem estado nas ruas sempre que lhe dão oportunidade. Não faltará mobilizar quem o representa?

  14. Carlos Guedes diz:

    Luís Marvão, bem sintetizado! É isso mesmo!

  15. miguel diz:

    Luís Marvão: “A moção de censura deveria ser a consequência de uma série de acções de luta.

    Isto é, na opinião do Luís Marvão, as centenas/milhares de lutas, greves totais e parciais em vários sectores e empresas, manifestações locais e regionais, concentrações e acções de contacto e esclarecimento de trabalhadores e populações em torno de questões concretas – contra o encerramento das empresas, pelo aumento de salários, pela reforço contratação colectiva, por melhores condições de trabalho, pela manutenção de centros de saúde, as lutas dos vários movimentos de utentes de serviços públicos, etc etc. – todo esse movimento é, de acordo com o Luís Marvão, insignificante ou, no melhor dos casos, insuficiente para sustentar a apresentação de uma moção de censura. E, como é insuficiente, o “gesto político do PCP, porque fora de tempo, arrisca-se a ser pífio“.

    Que “série de acções de luta” seria necessária para justificar a apresentação de uma moção de censura à política de direita? E o que não seria um “gesto pífio”? A aprovação da moção de censura?

  16. Leo diz:

    Parece que o Carlos Guedes é um dos que, possivelmente, comunga da ideia da salvação da Europa e do Euro e que está de acordo com o voto a favor da venda da corda para enforcar os gregos. Pois eu acho que a nossa tarefa principal é com os portugueses e simultaneamente estou solidário com os gregos e todos os povos na luta contra a exploração.

  17. Carlos Guedes diz:

    Leo, não sei como pode chegar a essa conclusão depois de ler o que eu escrevi. Não disse, em momento nenhum, nada do que me tenta imputar.
    Renato, se o povo tem estado na rua eu não o tenho visto assim tanto. A não ser que estejas a falar das comemorações do campeonato do Benfica ou das missas do Ratzinger. No 1º Maio, por exemplo, assistimos a uma das menos participadas manifestações dos últimos anos (a da CGTP, claro). Falta mobilizar muita gente. E talvez tenhamos que começar por quem representa o povo. Talvez. Sem esquecer que sem o apoio popular tudo continuará na mesma.

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