Nem Deus nem os seus amos

A recente visita do Papa levantou questões algo adormecidas no debate ideológico. Não falo evidentemente da usurpação dos meios públicos pelo interesse privado, não falo da vassalagem de um Estado supostamente laico ao serviço de um líder religioso, nem tão pouco falo do lastro reaccionário do discurso apostólico romano que por estes dias poluiu as ruas e a cabeça de cada um de nós. Tudo isso é grave, mas tudo isso é fado. Vai e vem como se de um concerto da Madona, um Campeonato do Mundo ou o Circo Chen se tratasse. O problema é portanto outro:

A ligação do Vaticano às piores esquinas da história, o seu empedernido anti-comunismo, a sua eterna devoção ao patronato, levantam indignações que em nada devem ser reprimidas, precisamente por serem oriundas de uma consciência geral objectivamente progressiva: estes senhores não são os donos da fé; gozam de privilégios que nenhum outro credo usufrui e são o baluarte de tudo quanto é concepção moral que nos feche as pernas e domestique o resto dos actos.

A centralidade que tem o combate ao regime não nos deve levar a descurar o combate aos agiotas do pecado, em particular quando eles são parte do concílio que nos explora e domina. Se é óbvio que num piquete ou numa tomada de terra não devemos perder um segundo na desconstrução teológica (como no debate sobre a resistência islâmica a centralidade deve estar no combate ao colonialismo imperial), também é certo que não devemos apelar à greve ou ao poder popular em nome do senhor.

Isto não oculta porém o problema fundamental. É possível, como quase todas as insurreições e revoluções o demonstram, emancipar o homem sem o libertar dos ateístas de Deus. Já a libertação do homem será sempre impossível, ou dramaticamente efémera, se não se emancipar da teologia do amo.

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