Esclarecimento a dois “bloggers” de rasa perspicácia


(GRÜNEWALD)

Um escriba neo-con/madre-de-blanco do pequeníssimo blogue Rádio Miami, um parco espaço (em qualidade e leitores) de tara anticomunista, volta a atacar-me por eu ler Ratzinger, que heresia a minha para o pequenino neo-con !! (E, já agora, também estou a ouvir o “Nisi Dominus” de Vivaldi, em vez, digamos, das “Quatro Estações”, que é o nome pelo qual o ignaro deve conhecer as obras em causa).

Eu explico do princípio: houve por aqui, no 5dias, um texto recente que me foi acusando (para gáudio dessa Rádio Miami) de fundamentalismo e angústia metafísica, ou de “crente” que sofre, digamos, à la Grunewald, que sofre à maneira do grande Grunewald.

E isto porquê? Apenas porque, a propósito de um livrinho que escrevo agora sobre Caravaggio consulto textos de – imagine-se!! – Joseph Ratzinger (e até a química-palmira os elogia). Sim, concretamente, a propósito da “Ressurreição de Lázaro” do mestre lombardo, passei há pouco pelo pequeno capítulo do “Cristo” de Ratzinger onde se comenta a parábola do pobre Lázaro (capítulo onde se faz também um comentário sobre o outro Lázaro, o de Betânia, que é o comummente retratado na pintura através da sua ressurreição – e, neste caso, foi a obra que o Caravaggio lhe dedicou que me levou a várias deambulações).

Agora imagine o leitor: um tipo historia, investiga, pinta, ensina pintura e o diabo a sete. Escrevo, estudo e aparece-me aqui, neste blogue, um escriba que, só porque leio o mais possível (fazendo até extrapolações políticas) sobre aquilo que tenho de ver-escrever, me apelida de “sofrido metafísico” (nada mau); outro vem e escreve-me um post no seu ghetto da Rádio Miami intitulado “Nem tudo na vinda de Ratzinger foi negativo”. Qual é então a ironia deste último, o “madre de blanco” propriamente dito, o destacado neste post?? Não, não diria ironia, diria antes caso clínico: um tipo escreve sobre e estuda a pintura de uma certa época. Por isso, só por isso, merece um post !!?? (R. Noronha), é perigoso aliado de mafiosos (L. Rainha, bravo), tudo dito em ignara insinuação. Aprecio a coisa, sem dúvida. Gosto. Historiadores de arte, pelos vistos, está sempre um neo-con à espreita. Não desapareceram com o Bush deles. Há sempre um ignaro em cada esquina que vos vai pedir contas. O que até nem é mau: divulga-vos (divulga-nos) o trabalho, e sempre é mais um livrinho que se vende. Em resumo, a arte é perigosa. Não sei porquê, mas é.

E se fossem chatear a Laura Bush?


(CARAVAGGIO)

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13 Responses to Esclarecimento a dois “bloggers” de rasa perspicácia

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  2. Niet diz:

    Carlos Vidal: Lamento imenso esta nova série de anátemas visceralmente irresponsáveis e de recorte estaliniano. Aliàs, se me permite, com toda esta ligeireza e obsoleta dualidade argumentativa deita por terra os conceitos de perfomance de Debord e os de arte afirmacionista caros a Badiou. Com efeito, Badiou sinaliza que se devem ” alinhar” os três objectivos da arte “afirmacionista “- coerência, surpresa e elevação, esta última definida como ” presença da Ideia, aproximação à Ideia: uma elevação que não é contraditória com a originalidade ou a coerência “. Nem tudo vale na luta ideológica e a herança marxista-leninista é históricamente aterradora como Badiou, Zizek e colegas o sublinham: ” A crise da política de emancipação, a crise da Ideia,radica precisamente no facto de permanecer cativo desta oposição e de pensar que não existe alternativa: ou uma apologia do mundo democrático contemporâneo, ou a crispação analógica com a tradição “. Niet

  3. exemplaria e iconologia mui desadequada especialmente no que se refere à blogage citada. Há sempre ” um entre ” que espera por si grandemente existente ou abissal.

  4. Carlos Vidal diz:

    Niet, muito aprecio e gosto de dialogar consigo. Mas quem empobrece o debate são os sujeitos a que se refere este modesto post. Porque mais não fazem do que a “apologia do mundo democrático contemporâneo”.
    Sempre, sempre iguais a si mesmos, e de forma fanática.

    Jecta, é claro que a “blogage” citada não merece nem entende estes “abismos” iconográficos, os destas e de outras imagens referidas. Mas aqui vão ficando para outros.

  5. Niet diz:

    C.Vidal: Acho que exagera e agravou nas duas últimas semanas um contencioso perfeitamente dispensável com o MS Pereira, de quem me sinto muito próximo em termos ideológicos como é sabido. Tentou usar de expedientes muito pouco curiais, que me abstenho de comentar. A sua enorme fã, a magnífica e profunda Zazie- no Blasfémias, post do neo-liberal J.Miranda de 13 do corrente – também sublinhou que deu ” um tiro no pé “…”Como combinar, digamos, a subversão com o respeito da tradição, do que já foi realizado?”, era a questão que P.Victor colocou a Sartre em Maio de 74, in ” On a raison de se révolter “, no fabuloso capítulo sobre o H.Revolucionário.Editions Gallimard. Niet

  6. Carlos Vidal diz:

    Niet, caríssimo amigo, enlouqueceu foi?

    A que chama de “tradição”????

    Àquela coisa chamada de Caravaggio?? É a isso que V. chama “tradição”?? ‘Tá louco??

  7. miguel serras pereira diz:

    Caro Niet,
    obrigado pelo teu esforço conciliador. Mas receio que seja inútil. Como se pode discutir com alguém que me lê, ou assim diz, e escreve depois que eu faço a “apologia do mundo democrático contemporâneo”? Ou que defende ora Estaline, ora a “democracia directa”. Que passa horas a secundarizar a “questão religiosa” e outras tantas a demonstrar a urgência de uma “ateologia”, que conserve e supere, e reconserve outra vez, o pensamento de Ratzinger. Que canta loas ao acontecimento criador e o proíbe doravante para todo o sempre – definitivo “adepto das comunidades práticas de pregar com pregos as partes mais sensíveis da matéria”. Que invoca o logos e se compraz no culto fascista da violência violência pela violência. Isto para não falarmos senão naquilo que de residualmente articulável informa o seu ódio ao pensamento, inevitável e involuntária homenagem, sob pena de autismo completo, do activista da psicopatia à decência comum.
    Abraço para ti

    msp

  8. Carlos Vidal diz:

    Este MSP não é um interlocutor válido para tema ou coisa nenhuma, que à política diga respeito (bom, para questões estéticas-artísticas, muitíssimo menos).

    Nada se deve discutir ou conversar com MSP. Absolutamente nada (e, há tempos, julguei diferentemente; estúpido eu fui, julguei-o libertário; mas o seu problema é outro, o seu extremismo é outro – ANOTE-SE!!).
    Move-o um histérico e destemperado ódio, puro ódio, a tudo o que se relacione com comunismo e comunismos. Não dialogaremos com o ódio. Com “inimigos” destes devemos usar ou a indiferença ou o que melhor surgir no momento concreto.
    O ódio deste homem ao comunismo é patológico e não se funda em nenhuma razão/motivo, nele ultrapassando o ódio a qualquer outra coisa.
    Zero absoluto, nada de argumentos, nenhuma argumentação aqui deverá ser aplicada, replicada; a racionalidade é absurda com um interlocutor destes (traduziu muito, aprendeu nada): apenas o move um ódio como doença inclassificável em relação ao comunismo, aos partidos comunistas.

    Discutir com MSP é ser louco e cego. Ou pior.
    Assinalo aqui que com gente desta só devemos falar com colete de forças, nele posto à força se necessário.
    E, no entanto, pode-se odiar muita coisa.
    Por exemplo, porque é que o senhor não vai odiar a chuva, o vento, o sol, a praia ou os comboios?? Porque será que tem de ser o comunismo??

    Está muito, muitíssimo para além da pior direita: esta pode usar argumentos nauseabundos, mas MSP nem argumentos tem – mataria todos os comunistas, arrasaria todas as suas sedes (sonhou isto vezes infinitas), acabaria com todos os partidos que tal ideário representam.
    Daqui não leva nada.

  9. Niet diz:

    C. Vidal: Eu gosto muito do Picasso e do que sobre ele escreveu PH. Sollers. Sobre o Caravaggio- estou para ler o seu livro! E agora- que estou a beber um Rioja e parto depois de amanhã para Paris- deixo-o perturbado com esta asserção um pouco diabólica do H. Putnam: ” Perdemos a faculdade de perceber em que é que o facto de um fim ser bom pode fazer com que seja racional escolher esse fim “…E gosto muito da loucura, como é evidente. Salut! Niet

  10. Carlos Vidal diz:

    Putnam, muito bem, superior a Wittgenstein. Pode crer.
    Abraço
    CV

  11. miguel serras pereira diz:

    Sobre o comentário publicado nesta caixa a 15 de Maio de 2010, 19:33
    Dá vontade de ter fé em Deus, para poder rezar assim: Se ele sabe o que diz, perdoa-lhe, Senhor, se quiseres, que a gente perdoa-te o perdão. Mas afasta de nós este cálice…

    Mas, homem de pouca fé, não posso rezar com a convicção requerida, e aqui confesso que recorri ao expediente humano de meter uma cunha a alguém que frequenta a sacristia do Papa Ratzinger no sentido de Sua Santidade lhe dar a dignidade cardinalícia e o lugar de professor de estética da Guarda Suíça.
    Fraquezas…

  12. Carlos Vidal diz:

    Trate-se, trate-se homem, o anticomunismo tem cura.
    Basta pensar. Nem é preciso saber, basta pensar.

  13. talvez, se me for perdoado o orgulho de por Ele falar, não rejeitasse a exaltada alegria deste riso trocista.

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