O anarquista régio

Miguel, o SP, em auto-retrato:

“Se por esquerdista você entende “m-l” ou trotsquista organizado, etc., não fui nada disso. Fui – e  ainda sou, embora prefira dizê-lo as mais das vezes num vocabulário diferente – “socialista libertário”, democrata radical à maneira de Rosa, influenciado fortemente por leituras de Daniel Guérin e do Henri Lefebvre pós-ruptura com o PCF – mas sobretudo pela história revolucionária dos séculos XIX e XXI, e nomeadamente pela da Rússia, de Espanha e da Hungria.”

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16 respostas a O anarquista régio

  1. miguel serras pereira diz:

    Renato, o Teixeira:
    o “XXI” é uma gralha – leia-se “séculos XIX e XX”.
    Atentamente

    msp

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  3. Renato Teixeira diz:

    Então? Perdeu a esperança no futuro?

  4. Aniceto Azevedo diz:

    Renato,

    um auto-retrato, o do miguelista SP, saborosíssimo e revelador. Revelador da inanidade intelectual do sujeito (Daniel Guérin, Henri Lefebvre) e, por decorrência, do carácter mitómano que o marca, comparando-se, ele que rasteja aos bés da burguesia, com a águia Luxemburg. E é simplesmente um impostor quando a reduz a uma «democrata radical», ela que lutou toda a vida pelo socialismo e pela organização revolucionária das massas para derrubar o capitalismo, o qual tão pressurosamente, aqui como em Israel, na Colômbia como no Iraque, em Miami como em Novembro de 1975 em Lisboa, o miguelista SP defende e apoia por detrás de uma imensa pirotecnia de feição «democrata radical».

    Um grande abraço, Renato.

  5. miguel serras pereira diz:

    Renato,
    eu não perco a cabeça com tanta facilidade.
    Mas, já que aqui estamos, olhe que não é “anarquista régio”: a tradução correcta é “anarquista coroado”. E olhe que não é a mim que o título convém, mas aos sonhos do coriféu do ratzingerianismo (m-l), seu companheiro dilecto de tantas campanhas de branqueamento do fanatismo multiconfessional.

  6. miguel serras pereira diz:

    Esclarecimento (não ao Aniceto Azevedo que sabe que mente e com quem não discuto):
    fui saneado pelos vencedores do 25 de Novembro de 1975. Quanto a Rosa, obviamente, não me comparo com ela: aprendi, procurei aprender com o seu exemplo, a conceber o socialismo e a luta por ele como mais e não menos liberdade e democracia. É lê-la, que aproveita sempre a quem o faz.
    Contra o Estado: a república dos conselhos. Contra o capitalismo: o governo da economia pelos produtores associados.

    msp

  7. miguel diz:

    Escreveu Miguel Serras Pereira: “É lê-la, que aproveita sempre a quem o faz.”

    […], punhamos de parte a teoria pedante de uma greve de demonstração artificialmente encenada pelo Partido e sindicatos e executada por uma minoria organizada, e atentemos no vivo quadro de um verdadeiro movimento popular originado pelo desespero dos conflitos de classe e da situação política, explodindo, com a violência de uma força elementar, em conflitos, quer económicos, quer políticos, e em greve de massas: a tarefa da social-democracia consistirá então não na preparação ou direcção técnica da greve mas na direcção política do conjunto do movimento.

    A social-democracia é a vanguarda mais esclarecida e mais consistente do proletariado. Ela não pode nem deve esperar com fatalismo, de braços cruzados, que se produza uma «situação revolucionária» nem que o movimento popular espontâneo caia do céu. Pelo contrário, tem o dever como sempre de preceder o curso dos acontecimentos, de procurar precipitá-los. Não o conseguirá, se entregar à palavra de ordem de greve ao acaso de qualquer momento, oportuno ou não, mas deve fazer compreender às camadas mais largas do proletariado que a chegada de um tal período é inevitável, explicando-lhes as condições sociais internas que a isso conduzem, assim como as suas consequências políticas. Para arrastar as camadas mais largas do proletariado para uma acção política da social-democracia e, inversamente, para que a social-democracia possa tomar e manter a verdadeira direcção do movimento de massas, e possa estar à cabeça de todo o movimento no sentido político do termo, uma táctica e objectivos ao proletariado alemão para futuros períodos de luta.
    Rosa Luxemburgo, Greve de massas, partido e sindicatos (1906), Centelha, Coimbra, 1974, pp.80-81

    citar a velha divisa do movimento operário – adoptada de resto por várias tendências suas -, que estipula que a emancipação dos trabalhadores há-de ser obra dos próprios trabalhadores, não implica negar a necessidade de organização das lutas. Implica simplesmente conceber que os trabalhadores se devem auto-organizar em vista do auto-governo e da gestão colectiva anti-hierárquicos da sociedade. Implica que – politicamente, pelo menos – ajam organizadamente sem Deus nem Dono (ou Mestre, ou Senhor).
    […]
    A minha resposta é que a organização e condução das lutas deve desde o início, desde já, adoptar formas alternativas das da divisão política do trabalho e das da divisão do trabalho político vigentes, formas alternativas das do poder hierárquico e classista dos aparelhos de Estado e de direcção da economia, formas alternativas das que vigoram na fábrica, na empresa capitalista, nas forças armadas, etc. O que implica que deitemos para “os caixotes de lixo da história” as concepções de um partido revolucionário como estado-maior, portador da “consciência de classe”, investido do poder de dirigir, comandar e governar os trabalhadores, condicionar e subordinar o uso por estes de quaisquer direitos aos interesses da “revolução”, ou da “construção do socialismo”, nos termos definidos pelos dirigentes.

    Miguel Serras Pereira, 10 de Janeiro de 2010.

    É verdade que entre estes textos passaram 104 anos de lutas encarniçadas e que ambos escreveram muito mais do que estes parágrafos mas, caramba!, o ponto de vista que o Miguel subscreve (auto-organização em vista do auto-governo) é precisamente o oposto do de Rosa Luxemburgo (organização para a direcção política do movimento).

  8. miguel serras pereira diz:

    Caro Miguel,
    tudo vai do que se entende por “direcção política” – e uma coisa é certa, Rosa não a entendia como “chefia” nem – muito menos – como órgão do poder de um partido tendo por missão governar a classe operária sem a sua adesão ou, pior ainda, contra a sua vontade democraticamente expressa . Isso é claro que nem água em todos os seus textos – anteriores ou simultâneos à polémica com Lenine-Trotski. O que Rosa pensava do assunto – e do comportamento que a “vanguarda” teria de adoptar para não se transformar no seu contrário – está bem patente na sua afirmação que a melhor das verdades impostas às massas por um comité central se transforma num erro monstruoso que compromete a própria revolução.
    Cordialmente

    msp

  9. miguel diz:

    “tudo vai do que se entende por “direcção política””

    Que é precisamente a última frase dos dois parágrafos de RL: “Para arrastar as camadas mais largas do proletariado para uma acção política da social-democracia e, inversamente, para que a social-democracia possa tomar e manter a verdadeira direcção do movimento de massas, e possa estar à cabeça de todo o movimento no sentido político do termo, uma táctica e objectivos ao proletariado alemão para futuros períodos de luta.“.

    O “ponto” é que o entendimento que Rosa Luxemburgo tinha sobre o papel do partido na organização e direcção política do movimento é o oposto ao que o Miguel tem defendido neste e noutros espaços: a auto-organização com vista ao auto-governo.

    Repare: eu sou capaz compreender os pontos de vista acratas (mesmo os de direita). O que não consigo compreender é o ponto de vista «acrata-assim-assim», que “dá uma no cravo e outra na ferradura”. Isto é, que necessidade tem, o Miguel, de trazer a Rosa Luxemburgo para sustentar um conjunto de ideias políticas com o qual sabe que Rosa não concordava?

  10. Aniceto Azevedo diz:

    «Contra o Estado: a república dos conselhos. Contra o capitalismo: o governo da economia pelos produtores associados.»
    Tudo simples, tudo bonitinho. Uma palavra para tudo isto: miserável! Nenhuma transformação da base social, nenhuma revolução. Apenas extensão da «democracia» no quadro do capitalismo, através do golpe retórico pouco sério levado a cabo pelas «neutras» palavrinhas «governo da economia». Miserável, ao estilo, aliás, de Castoriadis, Guérin e CIA lda.
    Pressupondo que há quem conheça na íntegra a história de um conhecido fidalgo («percorrer os livros na diagonal» é sempre perigoso), meditemos profundamente neste desabafo: «Eu fui louco e agora tenho juízo: fui D. Quixote de la Mancha e sou agora, como disse, Alonso Quixano o Bom. Possa com vossas mercês o meu arrependimento e a minha verdade fazer-me voltar à estima que de mim se tinha, e continue para diante o senhor escrivão».
    Quem minimamente conheça a obra de Luxemburg sabe bem o impostor que o miguelista SP se vai revelando. Para sua vergonha, se é que a tem.

  11. miguel serras pereira diz:

    Miguel,
    aqui vai mais material para a fogueira. Mas é evidente que a auto-organização e o auto-governo não são incompatíveis – e, pelo contrário, até certo ponto exigem-na – com a presença de uma ou mais forças políticas que lhes proponham direcções, objectivos, programas – os quais não poderá impor-lhes e que só valerão se forem aprovados pelos interessados.

    “Sem eleições gerais, sem liberdade ilimitada da imprensa e de reunião, sem luta livre entre as opiniões, a vida morre em todas as instituições públicas, torna-se uma vida aparente, onde a burocracia é o único elemento que permanece activo. É uma lei à qual ninguém se subtrai. A vida pública adormece pouco a pouco; algumas dúzias de chefes de partido, de uma energia inesgotável e um idealismo sem limites, dirigem e governam; entre eles, a direcção está, na realidade, nas mãos de uma dezena de homens de cabeça privilegiada, e uma élite da classe proletária é convocada de tempos a tempos para reuniões destinadas a aplaudir os discursos dos chefes, votar por unanimidade as resoluções que lhe são apresentadas – é, portanto, no fundo, um governo de camarilha – uma ditadura, é verdade, mas não a ditadura do proletariado, não: a ditadura de um punhado de políticos, isto é, uma ditadura no sentido burguês, no sentido da dominação jacobina (o recuo dos congressos dos sovietes de três para seis meses!).
    […]
    “O erro fundamental da teoria Lenine-Trotsky é que, tal como Kautsky, opõem a ditadura à democracia. ‘Ditadura OU Democracia”, assim se põe a questão tanto entre os bolcheviques como em Kautsky. Este decide-se pela democracia, bem entendido, pela democracia BURGUESA […] em alternativa relativamente à revolução socialista. Lenine-Trotsky decidem-se, ao contrário, pela ditadura, em oposição à democracia, e, consequentemente, pela ditadurra de um punhado de homens, isto é, pela ditadura segundo o modelo burguês.
    […]
    É a missão histórica do proletariado, quando chega ao poder, criar, no lugar da democracia burguesa [desigualdade e servidão que se esconde sob a doce roupagem das formas da igualdade e da liberdade], uma DEMOCRACIA SOCIALISTA, e não destruir toda a democracia. Ora, a democracia socialista não começa somente na terra prometida, depois de ter sido criado o suibstrato da economia socialista, a título de prenda de Natal para o bravo povo que terá, entretanto, apoiado fielmente o punhado de ditadores socialistas. A DEMOCRACIA SOCIALISTA COMEÇA AO MESMO TEMPO QUE A OBRA DE DEMOLIÇÃO DA DOMINAÇÃO DE CLASSE E DE CONSTRUÇÃO DO SOCIALISSMO […] NÃO É OUTRA COISA SENÃO A DITADURA DO PROLETARIADO. […] Mas eta ditadura consiste na maneira de aplicar a democracia, não na sua abolição.
    […]
    É por isso que a inteligência da própria massa quanto às suas tarefas e meios é para a acção socialista uma condição histórica indispensável, como a inconsciência da massa foi no passado condição das acções das classes dominantes.
    Com isso, a oposição entre os ‘chefes’ e a maioria que os ‘segue’ encontra-se abolida, e a relação entre a massa e os chefes inverte-se. O único papel dos pretensos ‘dirigentes’ da social-democracia consiste em esclarecer a massa sobre a sua missão histórica […] o seu prestígio e a sua influência só aumentam na medida em que os seus chefes destruam aquilo que até aqui foi a base de toda a função dos dirigentes: a cegueira da massa, na medida em que se despojem a si próprios da sua qualidade de chefes, na medida em que façam da massa a efectiva entidade dirigente” (Rosa Luxemburgo Viva! (Antologia. Coordenação e prefácio de César Oliveira, Porto, 1972).

    Saudações cordiais

    msp

  12. miguel serras pereira diz:

    Sobre as falsificações de um AA que para aí ladra e foge, ver:

    Sobre Castoriadis, ver, por exemplo, este texto no jornal L’Humanité: http://www.humanite.fr/2004-11-16_Cultures_-Cornelius-Castoriadis-dans-les-bris-de-cloture

    Sobre Daniel Guérin: http://www.marxists.org/portugues/guerin/index.htm

    Sobre a democracia contra o Estado e a economia política do capitalismo, o que escreveu o Zé Neves em http://viasfacto.blogspot.com/2010/05/violencia-e-democracia.html – o Ricardo Noronha em http://5dias.net/2009/12/29/suaves-bolcheviques/ – o Pedro Viana em http://5dias.net/2010/02/12/questoes-de-terminologia/ – e eu próprio em http://viasfacto.blogspot.com/2010/05/mais-cest-une-revolte-non-sire-cest-une.html

  13. Aniceto Azevedo diz:

    Aqui temos, finalmente, os nutrimentos espirituais do miguelista. Os textinhos «dele próprio», claro (que são um eterno retorno, uma fuga em ré menor, um círculo que se fecha sobre si próprio), a prosa dos seus companheiros de Miami, uma hagiografia brasileira sobre Guérin e uma artigalhada paupérrima do L’Humanité. Para quem se pronuncia de forma tão seminal sobre a história revolucionária dos séculos XIX e XX não está nada mal, não acham?
    Continue o seu árduo labor intelectual, sr. miguelista. O político já nós o conhecemos bem, bem demais…

  14. Renato Teixeira diz:

    Ufa… e eu que pensava que era difícil explicar as lições da Revolução Permanente.

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