Uma teologia acéfala, isso sim

O que é demais acaba por fartar, Carlos. Que te socorras de Lénine para mascarar a tua admiração (que imagino de origem pictórica) pelas maquinações da máfia católica, ainda vá; é coisa entre ti, o teu confessor e a múmia do ressequido patriarca russo. Que invoques sempre as mesmas leituras dos mesmos autores, assim à laia de galões esgarçados e de duvidosa autenticidade, até tem a sua pilhéria.
Mas proclamar que atacar hoje a fábrica de alienação que é o negócio principal das Igrejas representa um esmorecer da santa e justa luta contra o capitalismo… dessa nem a Zita Seabra (nos seus dias áureos) se lembraria. Se afirmas que «não é a religião que inventa o capitalismo, mas este que daquela se serve», deverás reparar que tal raciocínio será extensível a quase tudo o que envenena as nossas vidas: da droga à especulação financeira, da escravatura ao colonialismo. Portanto, camaradas, esqueçamos todas as lutas contra as cangas que nos colocam aos ombros; importa é estabelecer as radiosas bases de uma “teologia ateísta”. Abandonemos as demandas parcelares e concentremo-nos na big picture: mais jogos florais, mais uma ou duas tiradas rutilantes no blogue ou a voar sobre a mesa juncada de mines defuntas. Isso é que está a dar, sim senhor.
Só não imagino qual será a urgência dessa novel teologia – as ideias que aqui tens deixado já ilustram à saciedade a demanda angustiada de um espírito crente mas que se acha demasiado ilustrado para ir de joelhos à Cova da Iria: a confiança cega em Escrituras (o patusco corpus que será o “melhor do melhor”), a intolerância acintosa e pesporrente contra quem ouse opinião diversa, a ruminação contínua dos mesmos cantochões recursivos.
Invoca também à vontade o encaracolado e sempre na moda Eduardo Lourenço; a mim, que até já acompanhava o actual Papa antes de o ser, basta-me recordar coisas como a sua descrição do paganismo como algo que só por engano se pinta com cores serenas, lembrando de seguida a presença activa do Diabo no mundo e, claro está, o único remédio para a dita cuja: a sua própria variedade de superstição. Não há verniz de ecumenismo civilizado que mascare agora a ortodoxia feroz de uma vida. E também será tarde para remendar apoios e escolhas políticas de então: mudar à última hora para o campo dos oprimidos pode dar boa imprensa mas só impressiona os crédulos.
Pensando bem, acho que até compreendo essa tua boutade da teologia ateísta: gostas de reverenciar novelos cheios de nada como o texto do EL que apontas; gostas de te maravilhar na contemplação da pintura religiosa como se fosses o primeiro a magicar uma qualquer metafísica laica; não descuras épater le bourgeois com uma postiça e ainda enevoada reverência pelas coisas do espírito (seja lá isso o que for). Mas o que distingue mesmo o verdadeiro fanático religioso é essa tua obsessão com o insulto a cientistas, a dissidentes, a quem quer que ouse duvidar das tuas arengas gritadas no deserto.  Todos são “neo-cons” e merecedores de insultos a esmo.
Só te falta é reparar que isso te transforma num doppelgänger da pouco potável Palmira: ela ignora olimpicamente tudo o que não lhe caiba no tubo de ensaio e grita ao quatro ventos a sua ignorância desses assuntos, dissertando sobre eles com a alegria loquaz dos ignaros; tu abespinhas-te contra qualquer coisa que não tenha sido abençoada por S. Badiou e anatematizas com gosto e espavento tudo (e todos) o que cheire a Ciência. Só espero é que saibas sobre o teu profeta de eleição um pouco mais do que sobre S. Paulo.

PS: Não entendo bem de onde é que te vem essa ideia de me indicares por onde é que eu devo “começar” seja o que for. Sobretudo a propósito de Cuba, realidade que suponho conhecer muito, muito melhor do que tu.

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16 Responses to Uma teologia acéfala, isso sim

  1. Luis Rainha diz:

    Como dá para perceber, já não me consigo persuadir a aguentar tais companhias. Fiquem todos na santa paz do Senhor Lénine aqui no “5Dias”, que eu cá não voltarei.

  2. Carlos Vidal diz:

    Mas fica como antológica a tua espécie de crucificação (e desejo de captura) de Ratzinger por causa, ou por ser o causador e o culpado primeiro, dessa aberração que é Fátima. Boa, boa despedida.

  3. Carlos Vidal diz:

    E quanto ao resto muito haveria a dizer. Mas, obviamente, nem mais uma palavra.

  4. ezequiel diz:

    Luís, podes contactar-me s.f.f.??
    Gostaria de falar contigo.
    abraço
    ezequiel

  5. paulo diz:

    mais um a sair lindo……
    no fim o carlos e o renato sós contra o mundo

  6. Fortuna diz:

    Vai-te e n tardes, os juguleiros esperam-te de braços abertos, a Prof. Palmira tem mais um acóolito agora.

  7. Pascoal diz:

    Acham que o papa veio cá para fazer o funeral do 5dias ?

  8. Sérgio diz:

    Luís Rainha, diga lá onde vai escrever que já vou ter que retirar o 5Dias da lista outra vez…

  9. juta diz:

    que pena o luis rainha ir-se embora. Um espírito tão aberto, tão tolerante, mas simultaneamente tão informado, tão crítico. Alguém que aceitava, de bom grado, uma piada amiga, um dito jocoso, mas sem que isso pusesse em causa um espírito crítico, uma atitude combativa, sempre, sempre ao lado dos oprimidos. Que pena, que pena.

  10. miguel serras pereira diz:

    Luís,
    vê se dás notícias, ou indicas contacto.
    Abraço

    msp

  11. miguel serras pereira diz:

    Já agora, e já não para o Luís, acrescento o seguinte em intenção da assembleia comentarística e leitora.
    O grande líder caravaggio-leninista reforça a sua justiceira linha no blogue. Ainda lhe falta dar cabo da paciência verdadeiramente evangélica do Nuno Ramos de Almeida, do sentido crítico do Tiago Mota Saraiva, do aristocratismo blasé do António Figueira, bem como tornar mais raras as já raramente ouvidas outras vozes do blogue, mas, apesar de tudo, já se perfila no horizonte um vingador 5dias puro e duro, enfim reconstruído, o 5dias Vidal & Teixeira, Lda (b) – livre de laicistas, democratas, livres-pensadores e, em suma, de qualquer coisa que evoque o maldito legado das Luzes ou, de outro modo, se oponha ao “esplendor da verdade” dos dois implacáveis martelos demolidores.

  12. António Marquês diz:

    Com a saída do Rainha, terei que espaçar a minha passagem por aqui. Não dá para perder muito tempo.

  13. simples diz:

    luis rainha,idi na hui como se diz na Pátria de Lénine,Trotsky,Staline

  14. idi na hui diz:

    O Carlos Vidal e o Judeu do André Levy! A conspiração soviético-judaica….

    O sr.LR tem uma prosa viscosa, cheia de alçapões e chata – vá a correr para os braços do bando do Passos Coelho já que os do PS vão levar com a porta nas trombas e durante alguns anos irão estar arredados do Poder Podre. ‘Portantos’, o que vai dar é o psd que, conforme o nome indica e, com toda a seriedade, é sucial-democrata. Como dizem os falantes de inglês:farewell e prazer em ver-te pelas costas. Não gosto de oportunistas!

  15. Justiniano diz:

    Rainha, meu caro, que te entregues, à laia de paladino da razão virtuosa, à calhoada ao Vidal é lá coisa para faena que não me interessa. Mas alavancares em desatino, já sem segmentos e a verter óleo, em cangas de corregedor a arremessar, com despacho, pronúncias chambadas de pecado contra a Igreja(s) e a permeio, aproveitando embalo, desembraiado, motejar do peregrino de boa vontade e desmerecer a bem aventurança como se a angústia, remissão e expiação fossem ofensa ao vazio antropológico dos inconstrangíveis e inalienáveis, e que por isso se devem, aqueles pobres incautos, ungir de tinto, fazer termas e esperar melhoras da cabeça. Não era necessário.
    Para o desabafo era escusado, ainda para mais quando os precedentes textos que aqui largou não mereciam sequer um bocejo, foram coisa forçada que, sem pinga de espírito, nem parecem coisa sua, e apenas o desmerece, quando se sabe que é capaz de produzir prosa bem mais serena e encantadora e que não mero enredo para uma confessa anunciada despedida.
    Sinceramente espero voltar a le-lo por aí.
    Um bem haja para si,

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