O Benfica-Rio Ave em diferido

Apesar dos esforços conjugados do Papa e do vulcão islandês, continuamos a alimentar uma crença ilusória na omnipotência humana que há-de um dia deitar a nossa civilização a perder. Fiados na tecnologia, julgamo-nos os maiores do bairro: vivemos em Caillou-sur-mer mas trocamos emails com Kabul, falamos com o outro lado do mundo por vídeo-conferência, e a televisão dá a realidade em directo e a cores. Ocasionalmente somos surpreendidos por um acontecimento fracturante que precipita a ruptura epistemológica, e aí ó da guarda, que vi Deus. Foi mais ou menos o que aconteceu ao meu irmão durante o Benfica-Rio Ave, contou-me ele hoje no chat do Gmail. O meu irmão é benfiquista e vive no Porto, mas lá conseguiu ir ver o jogo a um café com poucos portistas, écran de bom tamanho e finos a preços honestos, onde já se encontravam aliás outros refugiados benfiquistas. Tudo estaria no melhor dos mundos, não fosse no café estar também “o gajo armado em esperto do costume com o auricular que ouve os golos com 3 segundos de avanço”. “Acaba com a ilusão da simultaneidade a qualquer um”, irmão dixit. Só a fraternidade futebolística o impediu de dizer alguma coisa (o tipo do rádio era benfiquista), mas a coisa foi um teste aos nervos — “O gajo grita golo e fica-se ali 3 segundos suspensos” — e uma frustração: “O Saviola remata e sabes que não vai ser golo porque nos 3 segundos anteriores não ouviste o gajo gritar ‘golo’. Aqueles três segundos são mais obsoletos que o jornal do dia anterior”.
Sei precisamente do que fala: dá-se o absurdo de no café português que me acolhe quando joga o Benfa ou a selecção, as duas televisões estarem desfasadas, criando duas realidades paralelas: de um lado da sala grita-se golo, na outra ainda não aconteceu nada.
“A malta vai para o café para não ser o último a saber do resultado do jogo. Acha que ver a televisão é como estar no estádio, em termos temporais, ignorando as voltas que o sinal dá até chegar ao café. Quando houver o primeiro mundial de futebol em Marte e as imagens demorarem meia hora a chegar, também vai haver transmissões em ‘directo’?”.
“Isso da meia hora é astrofisicamente correcto?”, pergunto eu, incrédula. “Marte parece tão pertinho…”.
“A órbita de Marte é uma elipse à volta da nossa própria elipse orbital, certo?” (adoro as perguntas retóricas do meu irmão). “Vai daí, se estivermos do mesmo lado do sol, demora uns 55 milhões de km a dividir por 300 000 km/s. Senão, demora muito mais: 400 milhões de km a dividir pela velocidade da luz”. Parece-me evidente, é fazer as contas ou pedir que vo-las façam. “Pá, 3 minutos à mínima distância, 22 minutos na máxima. Os directos com jornalistas enviados é que vai ser o caraças, entre a pergunta e a resposta passam-se 20 minutos” — que é, upon reflection, mais ou menos o que o António Figueira demora a responder no chat.
Mas voltemos à Terra, designadamente ao Porto. Estava pois o meu irmão posto em sossego a ver o jogo no café, acompanhado do único amigo benfiquista e de duas francesinhas, passe a publicidade, quando o Rio Ave empata, um acontecimento claramente em contramão ao sentido da História. A sala emudeceu, silêncio rádio. Depois, um tipo inspirado gritou: “Grita golo, pá!!!”.

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